Mundo ficciónIniciar sesiónBenjamin é o aluno mais inteligente da turma — e o mais fácil de ferir. Tímido, recluso e inseguro, ele aprendeu a conviver com as humilhações silenciosas que sofre todos os dias. Principalmente as que vêm dela. Veronica. Popular, intensa e implacável, ela transformou Benjamin em seu alvo constante. Provocações, constrangimentos e um jogo cruel onde ele sempre perde — pelo menos diante dos outros. Até que as notas dela despencam. À beira da repetência, Veronica não tem escolha: Benjamin será seu tutor. Ou ela perderá tudo. Agora, sozinhos, sem plateia e sem máscaras fáceis de sustentar, o ressentimento ganha voz. Ele não esqueceu o que sofreu. Ela não sabe lidar com a reprovação iminente — muito menos com a sensação estranha que começa a surgir quando ele a encara de igual para igual. Entre atrito, orgulho e tensão crescente, algo perigoso começa a nascer. Porque às vezes o amor não surge da delicadeza… mas do confronto. E nem todo sentimento começa puro — alguns começam bruto.
Leer másA sensação do chão gelado já era familiar para Benjamin. mas, não deveria ser.
Ninguém deveria conhecer tão bem a temperatura específica de um corredor escolar — aquele frio que sobe pelo joelho e chega até a espinha antes que você decida se levantar, aquele frio que existe antes que o embaraço chegue e que de certa forma é mais honesto que o embaraço. Benjamin conhecia aquele frio como se conhece um lugar que se frequenta mais do que se gostaria — com aquela familiaridade involuntária, indesejada, que se instala antes que você pense em resistir.
Conhecia o peso específico dos livros espalhados ao redor — cada um caído num ângulo diferente, como se houvessem decidido independentemente onde iam parar. Conhecia o som das risadas que chegavam de longe e de perto ao mesmo tempo, com aquela qualidade de eco que os corredores escolares têm quando estão cheios e que multiplicava tudo ao redor sem que ele pudesse identificar de onde vinha cada parte.
Conhecia a forma como o tempo desacelerava nesses momentos.
Como se o universo — com aquela crueldade silenciosa que não tem nome — quisesse garantir que ele não perdesse nenhum detalhe da própria humilhação.
Ele estava juntando os cadernos do chão quando a voz chegou.
— O que foi, quatro olhos?
Benjamin fechou os olhos. Meio segundo apenas.
Não precisava nem erguer o rosto para saber. Havia aprendido — ao longo de quatro anos, com aquela paciência involuntária de quem não tem outra opção além de aprender — a reconhecer aquela voz pelo ângulo de chegada, pela qualidade específica do tom, pela maneira como carregava dentro dela uma combinação de diversão e desinteresse que era mais eficaz do que a crueldade pura teria sido. Crueldade pura podia ser resistida.
Indiferença com diversão não tinha onde se apoiar para ser resistida. Ergueu o rosto devagar. Veronica estava parada à sua frente.
Um metro e setenta e cinco centímetros de presença que havia aprendido, que o mundo responde diferente para quem não pede permissão para ocupar espaço. Os cabelos ruivos caindo sobre os ombros com aquela naturalidade que só existe nas coisas que não precisam de esforço para ser o que são. Os olhos verdes — aquela cor específica que não era apenas a cor mas a qualidade do olhar, aquela maneira de encarar que nunca o via como uma pessoa inteira, que via algo menor, algo que não precisava de atenção completa para ser gerenciado.
A regata preta abraçava cada curva com aquela insolência tranquila de quem não está tentando nada porque não precisa tentar.
Benjamin havia aprendido a não olhar.
Havia levado tempo — mais tempo do que deveria, mais tempo do que era confortável reconhecer. Mas havia aprendido.
— Deixou os livros caírem de novo? — A voz dela carregava aquele tom que vivia exatamente no meio entre crueldade e diversão, que era pior do que qualquer extremo porque não dava onde segurar. — Isso é a terceira vez essa semana, não é? — Ela humilhava ele. Ele não havia contado quantas vezes ela praticou bulling com ele, mas , o fato de ela ter contado chegou como algo que ele não sabia como classificar, uma diversão sádica talvez?
— Talvez devesse prestar mais atenção por onde anda. — Ela inclinou levemente a cabeça, como quem observa algo mildemente interessante. — Não é mesmo?
Benjamin abriu a boca.
— Desculpe.
A palavra saiu antes que ele terminasse de decidir dizê-la — aquele reflexo que havia sido gravado fundo demais ao longo de quatro anos para ser interceptado no momento errado. Ele ouviu a própria voz e sentiu aquela coisa específica que sempre sentia quando ouvia: uma mistura de reconhecimento e vergonha que existia naquele espaço entre saber o que estava fazendo e fazer assim mesmo, ele sabia que não deveria se desculpar, e fazia mesmo assim.
Por que você sempre faz isso? A pergunta ficou dentro da cabeça onde havia sido formulada. Como sempre ficava.
As risadas ao redor eram o cenário de sempre — aquela massa de som sem rosto que havia aprendido a deixar borrada porque identificar rostos significava lembrar e lembrar significava carregar, e ele já carregava o suficiente.
Veronica se aproximou. Devagar.
Com aquela calma que era, ele havia aprendido, muito mais eficaz do que qualquer agressividade teria sido. A agressividade tem bordas. Tem lugar onde termina. A calma calculada não tem — ela preenche o espaço inteiro e não deixa onde se apoiar.
O perfume chegou antes da proximidade — algo quente, levemente adocicado, que havia se instalado na sua memória olfativa com aquela persistência de coisas que o nariz memoriza antes que a mente decida se quer memorizar. Ele odiava reconhecê-lo. Reconhecia de qualquer forma.
Ela parou próxima demais.
Os lábios a poucos centímetros do ouvido dele, a voz descendo até aquele tom que era quase íntimo de uma maneira que era completamente o oposto de intimidade.
— É tão bom quando você sabe o seu lugar. Não é mesmo, Ben?
O diminutivo ecoou na mente dele Ben. Três letras.
Ela nunca havia pedido permissão para isso. Simplesmente havia começado a usar um dia, e ele havia deixado, porque deixar havia sido sempre a única opção que não custava mais do que tinha disponível. Mas havia algo naquele diminutivo que pesava diferente de tudo mais — mais íntimo, mais invasivo, como se ela houvesse decidido que até o nome dele era território dela.
Ele não respondeu.
A cabeça fez um movimento pequeno — quase imperceptível, mais reflexo do que decisão — que poderia ser lido como concordância.
Não foi concordância, ele pensou, com aquela honestidade privada que era o único lugar onde conseguia ser completamente honesto. Foi covardia. Existe uma diferença. Eu sei a diferença , ele odiava se sentir acuado, um covarde.
— Bom garoto — disse ela como se estivesse lidando com um cachorro.
E se afastou.
Com a mesma calma.
Como se tivesse terminado algo que havia começado e encerrado dentro do próprio cronograma, sem que nenhum dos envolvidos houvesse tido qualquer tipo de influência sobre o andamento.
Benjamin ficou parado onde estava enquanto o corredor retomava o ritmo — a multidão se dispersando, o espetáculo encerrado, a invisibilidade voltando como sempre voltava depois, que era a única forma de existir naquele lugar que não doía ativamente.Bom garoto.
Um conjunto de duas palavras que ele estava apresnedo a odiar, as palavras continuavam lá. ele queria mudar, ter mais coragem, não ser mais o Bom garoto. Palavras Instaladas atrás dos olhos com aquela persistência específica das coisas que não se dissolvem quando você quer que se dissolvam, que ficam circulando com aquela presença constante e baixa de algo que sabe que pode esperar.
Ele começou a caminhar.
Os ombros levemente curvados — não de propósito, não como escolha, mas como aquela postura que o corpo assume quando passa tempo suficiente esperando impactos de uma direção específica. O olhar no chão à frente. A mochila pesada nas costas com o peso acumulado de livros que ele havia lido todos porque ler era o único lugar onde a cabeça parava de fazer aquilo que fazia nos corredores.
Dentro da cabeça, porém, a cena era diferente. Havia uma versão dele que não havia abaixado a cabeça. Que havia se levantado devagar — sem pressa, sem a urgência nervosa que revelaria que estava afetado — e havia encarado ela de frente com aquela estabilidade calma que não precisava de volume para ser sentida. Que havia dito alguma coisa. Uma coisa específica que ele estava sempre construindo e nunca chegava a dizer, que existia em estado de rascunho permanente dentro dele, completa demais para ser casual e incompleta demais para ser usada.
Uma coisa que fizesse o sorriso dela vacilar.
Algum dia ela vai pagar, ele pensou.
Parou.
Você pensa isso há quatro anos.
Recomeçou a caminhar.
Uma piscada real — o reflexo involuntário de quem recebeu uma pergunta que não estava esperando, que chegou de um ângulo que ela não havia antecipado.— Não foi nada — disse ela.— Você disse que pena. Isso é alguma coisa.— É uma expressão.— Expressões significam coisas.— Você analisa muito.— Você também.Silêncio.Mais longo dessa vez.O tipo que não é vazio mas é preenchido — com as coisas que nenhum dos dois estava dizendo, com o reconhecimento crescente de que aquela conversa havia ido além do ponto em que conversas entre eles normalmente chegavam antes de terminar, com aquela estranha qualidade de território novo que os dois estavam navegando sem mapa.........................................................Havia uma regra não escrita nos corredores do Colégio Arcádia.Não estava no regimento. Nenhum professor havia enunciado. Nenhum aluno havia votado. Ela simplesmente existia — transmitida por osmose, absorvida pelo ar que se respirava naquele lugar, incorporada ao funcion
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os anteriores. Mathis demorou alguns segundos antes de falar.— Benjamin — ele disse, com uma gentileza que era pior do que qualquer provocação. — Você não está descrevendo alguém que odeia. Você está descrevendo alguém que conhece de um jeito que assusta você.— Ela me trata mal há quatro anos.— Sim. E você passou quatro anos memorizando o segundo antes do veneno, a curva dos lábios antes da fala, o riso que ela fecha rápido demais. — Uma pausa. — Isso não é ódio, meu amigo e você sabe o que é...e pode ser bem dificil admitir.— Não é o que você está pensando também.— Então o que é?Benjamin ficou em silêncio. A resposta não veio em sua voz, mas em sua mente, ele não queria admitir nem para si mesmo. Não porque não existia — mas porque existia, e tinha uma forma que ele não estava pronto para dar nome ainda.— Boa noite — ele disse.— Benjamin—— Boa noite, Mathis.— O destino não se agenda — Mathis disse, rapidamente.— Dorme bem — K
Ele pensou por alguns pequenos segundos . O som das palavras de sua rival ressaltam no ambiente:— Aceito a monitoria — ela disse. A voz saiu intacta. Isso custou alguma coisa.Larissa virou o olhar para Benjamin.Ele ficou quieto por três segundos, ele poderia dizer não, mas sua mente foi mais elaborada:— Tudo bem — disse, por fim. Sem entusiasmo. Mas definitivo.— Ótimo. — Larissa abriu a agenda, a caneta já na mão, e quando se inclinou levemente para frente para anotar, os cabelos caíram sobre o ombro de um jeito que era completamente casual e completamente inconveniente para a concentração de qualquer pessoa na sala. — Vamos definir a primeira sessão antes que vocês saiam. Eles saíram do corredor administrativo lado a lado sem ter combinado isso. O silêncio durou até a porta de vidro fechar atrás deles.Foi Veronica quem quebrou.— Você foi bem discreto lá dentro. — O tom era leve demais para ser inocente. — Achei que fosse precisar chamar seu nome em voz alta em algum momento.
O nome de Veronica Castelli havia sido chamado no meio do intervalo.Ela não havia demonstrado nada ao se levantar — pegou a bolsa com calma, ajustou o cabelo com dois dedos, saiu da mesa com a postura de quem foi convidada e não convocada. Era um hábito construído ao longo de anos: nunca deixar que ninguém visse a hesitação antes de você entender o que estava enfrentando.A sala da coordenação ficava no corredor administrativo, separada do resto da instituição por uma porta de vidro fosco que filtrava o barulho mas não o apagava. Veronica empurrou a porta sem bater.E parou por um segundo.A coordenadora que ela esperava encontrar não estava lá. No lugar dela, do outro lado da mesa, havia uma mulher que não deveria ter mais de trinta anos. Cabelos castanhos soltos até os ombros, presos de um lado por um grampo simples que parecia mais descuido do que escolha — e funcionava. Óculos de armação fina que descansavam levemente descidos no nariz, como se ela tivesse esquecido de ajustá-los










Último capítulo