Ela parece real

Ele pensou por alguns pequenos segundos .  O som das palavras de sua rival ressaltam no ambiente:

— Aceito a monitoria — ela disse. A voz saiu intacta. Isso custou alguma coisa.

Larissa virou o olhar para Benjamin.

Ele ficou quieto por três segundos, ele poderia dizer não, mas sua mente foi mais elaborada:

— Tudo bem — disse, por fim. Sem entusiasmo. Mas definitivo.

— Ótimo. — Larissa abriu a agenda, a caneta já na mão, e quando se inclinou levemente para frente para anotar, os cabelos caíram sobre o ombro de um jeito que era completamente casual e completamente inconveniente para a concentração de qualquer pessoa na sala. — Vamos definir a primeira sessão antes que vocês saiam. Eles saíram do corredor administrativo lado a lado sem ter combinado isso. O silêncio durou até a porta de vidro fechar atrás deles.

Foi Veronica quem quebrou.

— Você foi bem discreto lá dentro. — O tom era leve demais para ser inocente. — Achei que fosse precisar chamar seu nome em voz alta em algum momento.

Benjamin continuou andando.

— Não sei do que você está falando.

— Claro que não. — Ela jogou o cabelo para o lado com um movimento que era quase tédio. — A Larissa é bonita, é? Aquele negócio do óculos descido no nariz deve funcionar bem com certo tipo de pessoa. Seria ciúme ela se perguntava enquanto questionava , ela percebeu que Benjamin olhou demais para a coordenadora deles.

— Ela é a coordenadora.

— Também. — Veronica sorriu de lado, " uma desculpa apenas" o tipo de sorriso que não era alegria. — Não precisa me explicar. Só achei interessante, sabe? Você entra na sala pronto para protestar, aí vê quem está sentada do outro lado da mesa e de repente fica bem mais receptivo ao diálogo.

Benjamin parou. Virou o rosto para ela pela primeira vez desde que haviam saído da sala.

— Você aceitou a monitoria — ele disse, a voz quieta — porque precisava. Não porque eu fiquei receptivo. Não confunda as coisas.

Veronica sustentou o olhar por um segundo.

Depois desviou — rápido, casual, como se fosse escolha, ela soltou o ar que carregava de forma sutil.

— Só apareça no horário — ela disse, retomando o passo. — Não me faça esperar.

Benjamin ficou parado por um momento onde estava.

Olhou para as costas dela se afastando pelo corredor — os cabelos ruivos, a postura que não cedeu um centímetro em nenhum momento desde que havia entrado naquela sala, ele não sabia se a odiava ou se a admirava, ela tinha claramente o que ele não tinha , confiança, ele odiava isso por ela usar contra ele, mas admirava em secreto por não conseguir ser assim. Depois continuou andando na direção oposta.

Naquela noite, no quarto pequeno e organizado, Benjamin ficou sentado na cadeira da escrivaninha com o monitor apagado na frente.

Os amigos estavam na chamada — vozes chegando pelo fone pendurado no pescoço, a conversa indo e vindo com a qualidade familiar de coisa que não exige nada dele além de estar presente. Normalmente era suficiente.

Hoje estava mais difícil do que o normal. Ele ficou olhando para a pilha de livros na prateleira sem realmente vê-la. Quatro anos, ele pensou. E agora isso.

Não conseguia nomear exatamente o que estava sentindo — era uma mistura de coisas que não tinham ordem clara. O desconforto de ter sido colocado numa situação sem escolha real. A irritação de ter protestado e de qualquer forma acabado no mesmo lugar. E por baixo de tudo isso, mais funda e mais incômoda, uma outra coisa que ele ainda não estava pronto para examinar de perto, um sentimento estranho que ele temia nomear.

A imagem que continuava voltando não era a da sala da coordenação, nem a fala dela no corredor. Era a pausa. O segundo exato em que Veronica havia olhado para os números vermelhos na mesa e engolido alguma coisa enorme sem fazer nenhum som. Ele havia visto isso e havia gostado de vê la assim, ele se sentiu vingado por um momento, mas também percebeu o ponto fraco de sua rival. Ela precisava daquele papel, ele pensou. De verdade precisava.

E havia algo nessa descoberta — pequena, inesperada, ainda sem forma definida — que mudava alguma coisa que ele não sabia nomear ainda.

Uma das vozes no fone disse o nome dele.

— Oi — ele respondeu, voltando. — Desculpa. Estava pensando.

— Em quê?

Ele ficou quieto por um momento.

— Em nada importante — ele disse.

E desviou o olhar da prateleira.

— Benjamin. — A voz era de Kenji — precisa, direta, com aquela qualidade de quem não desperdiça palavras. — Você está mentindo.

— Não estou.

— Está. Sua pausa antes de responder foi de dois segundos e quarenta. A média quando você está bem é de um segundo. Já mapeei.

Do outro lado da chamada, Mathis fez um som de confirmação solene, como se estivesse ratificando uma ata.

Benjamin fechou os olhos brevemente.

— Aconteceu uma coisa hoje — ele disse.

— Sabia — Kenji disse.

— Deixa ele falar — Mathis disse.

Ele contou. Com a objetividade de quem está tentando apresentar os fatos sem colorir demais — as notas de Veronica, a sala da coordenação, a coordenadora nova, o acordo que não havia sido bem um acordo porque nenhum dos dois havia tido escolha real. Contou a fala dela no corredor. Contou o silêncio de volta para casa.

Quando terminou, houve uma pausa do outro lado. Mathis foi o primeiro a falar.

— Espera. — A voz tinha aquela cadência levemente alongada, europeia, de quem constrói a frase com cuidado antes de soltá-la. — A menina que te humilha há quatro anos agora precisa de você para não perder a bolsa.

— Sim.

— E a instituição te escolheu especificamente. De forma unânime.

— Sim.

— Benjamin. — Uma pausa. — Descreve ela.

— Mathis—

— Não estou pedindo como provocação. Estou pedindo para entender com quem estamos lidando. Descreve.

Benjamin ficou quieto por um momento.

— Alta — ele disse, com o tom de quem lê uma ficha técnica. — 1,75m. Cabelo ruivo. Olhos verdes.

— Ruiva — Mathis repetiu, devagar, como se estivesse visualizando. — Ruiva de verdade ou aquele ruivo tingido que fica laranja na luz?

— De verdade.

— Escuro ou claro?

— Mathis.

— É uma pergunta simples.

— Escuro — Benjamin disse, e ouviu o próprio tom de voz e acrescentou imediatamente: — isso não é relevante.

— Muito relevante. Continua. Os olhos — verdes como o quê? Verde claro, verde escuro, aquele verde acinzentado que muda dependendo da luz?

— Eu não fico analisando a cor dos olhos dela.

— Mas você sabe a resposta.

Um silêncio curto.

— Verde escuro — ele disse. — Com um pouco de dourado perto da pupila quando a luz pega de frente.

Mathis ficou em silêncio por três segundos completos.

— Benjamin — ele disse, por fim, com uma solenidade genuína. — Isso não é observação casual. Isso é contemplação.

— Não é nada. Eu convivo com ela há quatro anos, você absorve detalhes sem querer—

— E o corpo? — Mathis continuou. — Você mencionou que ela usa a aparência como arma. Como assim exatamente?

— Não vou entrar nisso.

— Benjamin. Analítico. Continua.

Uma pausa longa.

— Ela é alta — ele disse, por fim, com o cuidado de quem está escolhendo cada palavra. — 1,75m, mas parece mais pela postura. Nunca encurva os ombros. Nunca ocupa menos espaço do que quer ocupar. — Uma pausa. — O corpo é... ela sabe o que tem. Não do jeito inseguro de quem precisa de confirmação — do jeito de quem já chegou a uma conclusão sobre si mesma e não está mais aberta a debate.

— Continua — Mathis disse, a voz quieta agora, sem provocação.

— As curvas são—  Benjamin parou. Recomeçou com o tom de quem está sendo preciso, não poético. — São o tipo de coisa que você tenta não notar e nota de qualquer forma. Não porque ela force. Porque estão lá, e ela se move sabendo disso. Cada passo é calculado sem parecer calculado. É fluido. É—

Ele parou de novo.

— É irritante — ele disse.

— Irritante — Mathis repetiu.

— Sim.

— Tudo bem. E o rosto?

Benjamin ficou quieto por um momento que foi longo demais, ele percebia agora que sabia muito sobre ela, nem ele conseguia entender porque sabia muito sobre ela, como assim? Ele usava como desculpa o fato de ter convivido com ela por quatro terriveis anos de sua vida, mas ele se surpreendia com a sua precisão nas palavras os detalhes...

— O cabelo cai de um jeito específico quando ela inclina a cabeça para debochar de alguém — ele disse, e a voz havia ficado mais baixa sem que ele percebesse. — Ela inclina levemente para o lado, os lábios fazem aquela curva antes da fala chegar, e você já sabe que vem alguma coisa que vai doer. Mas tem um segundo antes — um segundo só — em que é só o movimento, sem o veneno ainda, e é...ele respondeu mentalmente, ele enxergou os labios dela, e por um segundo ele desejou prova los antes do veneno ser lançado.

Ele parou. Completamente. O silêncio do outro lado era absoluto.

— É o quê? — Mathis perguntou, quase em voz baixa.

— Nada — Benjamin disse. A voz havia voltado ao tom normal com uma velocidade que não enganava ninguém. — É irritante. Como eu disse.

— Você ia dizer outra coisa.

— Não ia.

— Benjamin.

— E o riso — ele continuou, atropelando, como se pudesse cobrir o que havia dito antes com mais palavras. — Quando ela ri de verdade, é diferente. Curto, genuíno, sai antes que ela decida deixar sair. Ela fecha logo em seguida, como se tivesse dado alguma coisa sem querer. — Uma pausa curta. — Odeio quando acontece.

— Por quê? — Kenji perguntou, e era a primeira vez que ele falava em minutos.

— Porque é a única vez que ela parece uma pessoa real.

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