Os Desenhos

A sala de aula era só um corredor com cadeiras.

Essa era a maneira como Benjamin havia aprendido a pensar no lugar — não um ambiente de aprendizado, não o lugar onde o dia fazia sentido, mas um espaço de transição que precisava ser atravessado antes que o dia real começasse. O dia real começava quando a tela do computador ascendia no escuro do quarto e as vozes dos amigos chegavam pelo fone com aquela qualidade de coisa presente que não exigia nenhuma versão melhorada de si mesmo.

Só mais algumas horas.

Ele foi para o seu lugar sem olhar para os lados. O caderno abriu na página em branco. Ficou olhando para ela por um momento. Depois, por uma razão que não conseguiu nomear completamente antes de fazer — aquele tipo de decisão que existe antes de ser examinada — ergueu os olhos na direção dela.

Veronica estava no canto oposto da sala. O círculo de sempre ao redor — garotas com perfil similar, rapazes em órbita com aquela consistência de quem não percebe que está orbitando. Ela falava com aquela postura de quem conta uma história sabendo que todo mundo vai ouvir, o corpo levemente inclinado para trás, a expressão de quem não está tentando ser o centro porque já é e não precisa tentar.

— Veronica — a voz de Samuel cortou o burburinho da sala com aquela confiança de quem nunca teve razão para duvidar da própria chegada — para que perder tempo com esses velhos que você encontra nas festas? Você podia ter um homem de verdade.

Samuel. Um metro e oitenta de autoconfiança construída sobre gols e sobrenome. Cabelo descolorido com precisão, olhos azulados, sorriso de quem nunca precisou conquistar nada que não houvesse chegado por conta própria.

Benjamin não se surpreendeu com a frase. Havia ouvido variações suficientes para conhecer o padrão.

A risada de Veronica veio antes da resposta — curta, genuína, com aquela qualidade que era pior do que o deboche porque revelava que ela havia achado graça de verdade.

— "Um homem de verdade" — ela repetiu, deixando a frase pousar no ar como se estivesse examinando o objeto de todos os lados. — Obrigada, Samuel. Eu precisava rir hoje.

O sorriso de Samuel endureceu nas bordas.

— Tá me chamando de mentira?

— Estou dizendo que você acredita em coisas sobre si mesmo que não foram verificadas com fontes confiáveis. — O tom era absolutamente tranquilo. — Isso é diferente.

— Você não sabe do que está...

— Você vive das glórias do time de futebol — disse ela, e havia no tom algo que não era raiva, que era mais eficiente do que raiva. — Isso tem prazo de validade. Depois que acabar, o que sobra?

Samuel endireitou os ombros.

— Depois que acabar vou trabalhar na empresa do meu pai. Alguém tem que dar continuidade.

— O típico. — Ela virou levemente o rosto, encerrando com a naturalidade de quem fecha algo que não estava aberto de verdade. — Filhinho de papai com plano B que é o plano A do pai. — Uma pausa mínima. — Definitivamente não é homem o suficiente pra mim.

Samuel revirando os olhos era a confirmação de que havia entendido que havia perdido, mas que ia fingir que não havia.

Benjamin observou tudo com o queixo apoiado na mão, o olhar baixo o suficiente para que parecesse que não estava prestando atenção quando estava prestando atenção completamente.

Ela faz isso com todo mundo, ele pensou. Deixou o pensamento ficar no ar por um segundo.

A diferença é que com os outros ela só corta. Comigo ela mastiga devagar. Abriu o caderno na página em branco e fingiu que ia anotar alguma coisa.

O caderno de Benjamin tinha uma vida dupla.

Na frente — as páginas que qualquer professor veria se pedisse para ver — havia anotações organizadas, datas sublinhadas com régua, exercícios completados com aquela clareza que existe quando alguém entende o conteúdo antes de precisar estudar para a prova e estuda assim mesmo porque o hábito é mais forte do que a necessidade.

Nos fundos — nas últimas páginas, naquele território que existia atrás de tudo o mais e que não tinha nome nem função oficial — havia outra coisa. Figuras desenhadas a lápis. Sem cor — nunca havia sentido necessidade de cor, havia algo nas gradações do cinza que dizia o que precisava ser dito com mais precisão do que qualquer pigmento teria conseguido. Sem nome, sem contexto, sem a história que deveria existir por trás de cada uma mas que ele nunca havia escrito porque escrever tornaria tudo mais real de uma maneira que ainda não estava pronto para tornar.

Guerreiras com armaduras que havia pesquisado por horas — cada peça anatomicamente correta, cada dobradiça pensada, cada detalhe resultado de uma pesquisa que havia começado como distração e havia se tornado, ao longo dos meses, algo que ele fazia com a mesma seriedade que estudava. Heroínas com posturas de quem não pede licença para o espaço que ocupa. Figuras que carregavam coisas pesadas e não curvavam os ombros com elas.

Ele nunca havia pensado muito sobre o que isso dizia a respeito dele. Havia pensado, naquela tarde, pela primeira vez.

O lápis se movia enquanto a aula acontecia ao redor — o professor falando, colegas anotando, o ritmo habitual de um conteúdo que ele havia lido dois dias antes sem razão específica além do hábito. Quando o sinal soou, ergueu os olhos para o quadro, leu tudo numa varredura rápida, guardou o que precisava ser guardado. Começou a fechar o caderno. A mão de Veronica chegou antes.

Ele sentiu a presença antes de ver — aquele perfume que havia memorizado sem permissão, a sombra que caiu sobre a página.

— Olha só.

Ela havia pego o caderno.

Não pedido. Não aguardado. Simplesmente pego, com aquela naturalidade de quem está habituado a que as coisas ao redor sejam disponíveis para uso sem consulta prévia.

Benjamin ficou imóvel.

Assistiu enquanto ela virava as páginas dos fundos — devagar, com aquela lentidão de quem sabe que tem tempo, que ninguém vai intervir, que o mundo ao redor está funcionando segundo as regras que ela estabeleceu.

— Além de tudo, artista. — O tom tinha uma qualidade nova — não o desprezo habitual, mas algo que ele não conseguiu classificar imediatamente. Algo próximo de surpresa genuína, que ela revestiu rapidamente com a versão irônica porque a versão genuína era mais perigosa de mostrar. — Não sabia que tinha escondido talentos, Ben.

Benjamin abriu a boca. Fechou.

Não, disse a voz interior. Não desta vez.

— Me devolve — disse ele e estendeu a mão para a direção dela.

Baixo. Direto. Sem a inflexão de pedido que normalmente existia quando dizia as coisas para ela.

Veronica ergueu os olhos do caderno.

Ele estava olhando para ela.

Não para o caderno — para ela. Com aquela estabilidade calma que às vezes aparecia e que, nos raros momentos em que aparecia, sempre a fazia pausar por meio segundo antes de continuar.

— Claro — disse ela, com aquele tom que era a preparação para alguma coisa. — Deixa eu só...

O som do rasgo foi curto.

—Limpo.

Depois outro.

Ela arrancava as páginas com aquela deliberação que era pior do que a violência teria sido — lenta, precisa, um rasgo de cada vez, os olhos fixos nele durante todo o processo, procurando a reação, medindo, coletando.

Benjamin ficou imóvel. A mandíbula levemente contraída. As mãos abertas e quietas sobre a mesa, com aquela quietude que custava mais do que qualquer pessoa ao redor poderia perceber. Cada rasgo chegava como algo físico — não dor, algo diferente da dor, aquela sensação de ver alguma coisa que pertencia a você ser destruída enquanto você está presente e não está fazendo nada para impedir.

Faz alguma coisa.

Diz alguma coisa.

Qualquer coisa.

O terceiro rasgo.

O quarto.

— Muito melhor. — Ela deixou o caderno cair sobre a mesa com aquele baque suave que foi o som mais alto daquele silêncio. — Fiz um favor. Aquelas coisas eram perturbadoras.

Os pedaços de papel estavam espalhados sobre a mesa.

Fragmentos de semanas de trabalho. Semanas de horas tardias com o lápis se movendo enquanto a cabeça finalmente ficava quieta. Semanas de figuras que haviam saído de dentro dele com aquela honestidade específica das coisas que a mão produz quando a mente para de censurar.

Ele assistia Veronica ir embora. Com a mesma calma com que havia chegado. Como se tivesse terminado algo completamente dentro do próprio cronograma. Benjamin olhou para os fragmentos por um momento. Então começou a juntá-los.

Um por um. Sem pressa. Sem olhar para os lados — não porque estava bem, mas porque havia aprendido que olhar para os lados era verificar se alguém estava vendo, e verificar se alguém estava vendo era revelar que importava se alguém estava vendo.

Ele colocou os pedaços dentro do caderno.

Fechou. Guardou na mochila. Levantou.

E caminhou para fora da sala com aqueles ombros levemente curvados que não eram escolha mas resultado — o resultado de quatro anos de um peso específico, aplicado num ângulo específico, por tempo suficiente para que o corpo houvesse decidido que era mais eficiente adaptar a postura do que continuar esperando que o peso parasse.

Lá fora no corredor, a escola continuava.

O barulho, o movimento, os grupos dispersando para todos os lados com aquela energia do fim do dia que existe quando as pessoas estão finalmente indo para o lugar onde querem estar.

Benjamin caminhou no sentido oposto de todos.

E dentro da mochila, entre os livros e o caderno fechado e os fragmentos de papel que havia juntado sem saber completamente por quê — havia algo que naquele momento era apenas cinza e rasgo e resíduo.

Mas que havia sido, antes de ser destruído, a coisa mais honesta que ele havia produzido em muito tempo.

E essa era a parte que ficava.

Não os pedaços.

O que havia existido antes dos pedaços.

E a pergunta — pequena, persistente, instalada em algum lugar abaixo de tudo o mais — de quanto tempo mais ele pretendia deixar que as coisas ao redor de si fossem destruídas antes de decidir que havia chegado a hora de ser diferente.

Algum dia havia funcionado por quatro anos. Mas algum dia não era uma data.

E datas, ele sabia melhor do que qualquer pessoa naquele corredor, não chegavam sozinhas. Precisavam ser escolhidas. Sua ira, seu furor parecia nascer em cada ato dela, em cada provocação e algum dia haveria volta.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App