Capítulo 4

O dia seguinte começou em silêncio, mas a mente de Ava não encontrou descanso em momento algum. Assim que abriu os olhos, permaneceu sentada na cama por alguns minutos, tentando organizar os pensamentos que se acumulavam de forma desordenada. O casamento havia terminado de maneira brusca, sem qualquer preparação, como se tudo o que ela construiu ao longo dos últimos anos tivesse sido arrancado de uma vez só. A vida que conhecia simplesmente deixou de existir e, pela primeira vez em muito tempo, não havia ninguém dizendo o que ela deveria fazer, escolher ou como deveria se comportar. Aquela sensação, que poderia ser interpretada como liberdade, parecia muito mais um vazio difícil de encarar, porque, ao mesmo tempo em que estava livre, também estava completamente sem direção.

Ava respirou fundo e se levantou, recusando-se a permanecer parada enquanto os próprios pensamentos a sufocavam. Sabia que, se não começasse a agir, acabaria se afundando em arrependimentos que não mudariam nada. Fez sua higiene, tomou um café rápido com a mãe, mas mal percebeu o gosto da comida, porque sua mente estava presa na única conclusão que fazia sentido naquele momento: precisava recomeçar, e esse recomeço exigia enfrentar algo que havia evitado durante anos.

Sentou-se à mesa com o notebook aberto e ficou alguns segundos olhando para a tela antes de começar. Procurar um emprego não deveria ser algo difícil para alguém com a formação que tinha, mas, para Ava, aquilo carregava um peso maior, porque significava encarar tudo o que havia deixado para trás por escolha própria. Era formada em Direito e sempre esteve entre as melhores alunas da turma. Durante a faculdade, ouviu inúmeras vezes que teria um futuro brilhante, que possuía inteligência, disciplina e capacidade suficiente para construir uma carreira sólida. Durante muito tempo, acreditou nisso com convicção. No entanto, tudo isso foi deixado de lado no momento em que decidiu se casar.

Adam nunca escondeu que não queria uma esposa que trabalhasse. Desde o início, deixou claro que não fazia sentido, para ele, que a mulher se expusesse ao mercado quando já tinha dinheiro suficiente para sustentar tudo sozinho. Na época, aquilo pareceu uma vantagem, uma forma de estabilidade que muitas pessoas buscavam. Ava aceitou, acreditando que estava construindo uma vida segura ao lado de alguém que poderia oferecer tudo o que precisava. Agora, olhando para trás, conseguia enxergar que aquela decisão custou muito mais do que imaginava, porque, ao abrir mão da própria carreira, também abriu mão de uma parte importante de si mesma.

Enquanto navegava pelas vagas disponíveis, percebeu que a maioria exigia experiência, algo que não tinha. Cada requisito que não conseguia cumprir reforçava a sensação de que havia ficado parada por tempo demais, como se tivesse assistido à própria vida avançar sem participar dela. Ainda assim, não se permitiu parar. Continuou procurando, determinada a não desistir antes mesmo de tentar, porque sabia que não teria outra oportunidade de reconstruir sua independência se recuasse naquele momento.

Foi então que uma vaga chamou sua atenção.

Junior Associate na Carter & Blake Law Firm.

O nome da empresa era forte, conhecido no mercado, associado a casos importantes e clientes influentes. Não era o tipo de lugar onde alguém sem experiência conseguiria entrar com facilidade, e Ava tinha plena consciência disso. Mesmo assim, abriu a descrição da vaga e leu cada detalhe com atenção. Conforme avançava nos requisitos, a insegurança voltou a surgir, mas, dessa vez, ela não deixou que aquilo a impedisse. Atualizou o currículo com o que tinha, revisou cuidadosamente cada informação e, depois de alguns segundos de hesitação, enviou.

Assim que fez isso, fechou o notebook, como se não quisesse alimentar expectativas que poderiam se transformar em frustração. Já tinha aprendido o suficiente sobre o peso de esperar algo que talvez não acontecesse. Tentou se distrair ao longo das horas seguintes, ajudando a mãe com pequenas tarefas, mas não conseguiu ignorar completamente a ansiedade que permanecia ali, silenciosa, à espera de uma resposta.

Quando o celular tocou, não pensou que fosse algo importante, mas, ao ver o número desconhecido, sentiu o coração acelerar de forma involuntária. Atendeu, tentando manter a voz firme, e ouviu do outro lado uma fala profissional e objetiva informando que seu currículo havia sido analisado e que a empresa gostaria de agendar uma entrevista ainda naquele dia. Ava confirmou a disponibilidade imediatamente, sem se permitir tempo para duvidar.

Depois que desligou, permaneceu parada por alguns segundos, absorvendo a informação. Aquilo era uma oportunidade real e, pela primeira vez desde que decidiu recomeçar, algo dentro dela se moveu de forma diferente, como se ainda existisse uma chance concreta de recuperar o caminho que abandonou.

Subiu para o quarto e começou a se arrumar com cuidado. Escolheu uma roupa adequada, elegante e discreta, arrumou o cabelo, fez uma maquiagem leve e se preocupou com cada detalhe, não apenas pela aparência, mas porque precisava se convencer de que ainda era capaz. Quando terminou, olhou para o próprio reflexo e respirou fundo antes de sair, levando consigo uma mistura de insegurança e determinação.

Ao chegar ao prédio da Carter & Blake Law Firm, o impacto foi imediato. A estrutura imponente, o movimento constante e a organização impecável deixavam claro que aquele era um ambiente exigente, onde apenas os melhores se mantinham. Ava se apresentou na recepção e foi orientada a aguardar. Assim que se sentou, percebeu que não estava sozinha. Havia outras candidatas, todas bem vestidas, confiantes, algumas conversando entre si com naturalidade. Muitas pareciam mais novas, recém-formadas, com uma postura que indicava familiaridade com aquele tipo de ambiente.

A insegurança surgiu de forma inevitável, trazendo com ela a sensação de que talvez estivesse em desvantagem. Por um instante, considerou ir embora antes mesmo de ser chamada, evitando a possibilidade de fracasso. No entanto, essa ideia não durou. Ela sabia exatamente a situação em que se encontrava e sabia que não podia se dar ao luxo de recuar. O dinheiro que ainda tinha não duraria para sempre, e não tinha dúvidas de que Adam não facilitaria sua saída daquele casamento. Se quisesse manter qualquer tipo de independência, precisava enfrentar aquele momento.

As candidatas começaram a ser chamadas uma a uma, e o tempo de espera pareceu se arrastar mais do que deveria. Cada nome anunciado aumentava a tensão, até que restou apenas ela. Quando ouviu seu nome, levantou-se imediatamente e seguiu a secretária pelo corredor, mantendo a postura firme apesar do desconforto interno.

A porta foi aberta, e ela entrou.

Assim que seus olhos encontraram o homem sentado atrás da mesa, a reação foi inevitável. O reconhecimento veio imediato, trazendo de volta tudo o que havia acontecido na noite anterior. Ele não demonstrou surpresa exagerada, mas havia um olhar atento, consciente, como se já soubesse exatamente quem ela era.

Ava permaneceu parada por um breve instante, tentando manter o controle diante daquela situação inesperada. O homem com quem havia dividido uma noite impulsiva agora era a pessoa responsável por decidir se ela teria ou não uma oportunidade de recomeçar.

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