CAPÍTULO 3

Quando Ava abriu a porta da casa, a primeira coisa que sentiu foi o silêncio pesado que dominava o ambiente. Não era um silêncio tranquilo, mas denso, carregado, como se algo estivesse prestes a acontecer. Ela fechou a porta atrás de si com cuidado, mas o som pareceu ecoar mais do que deveria.

Adam estava sentado na sala.

A garrafa de whisky aberta sobre a mesa de centro, o copo pela metade na mão. A camisa ainda era a mesma do dia anterior, amassada, e o semblante deixava claro que ele não havia dormido. Os olhos estavam fixos nela desde o instante em que entrou, como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.

— Onde você estava?

A voz saiu controlada, mas carregada de tensão.

Ava tirou o salto com calma, evitando encará-lo enquanto deixava os sapatos de lado.

— Não é da sua conta.

A resposta veio simples, direta, sem espaço para discussão.

Adam soltou um riso curto, desacreditado, levando o copo à boca.

— Claro que é da minha conta. Nós somos casados. Eu tenho um nome a zelar.

Ava levantou o olhar pela primeira vez desde que entrou.

— Não. Nós não somos mais casados — disse, firme. — Depois do que aconteceu ontem, você acabou com tudo.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas breve. Adam começou a rir, um riso baixo, carregado de ironia, como se aquilo tudo fosse absurdo demais para ser levado a sério.

— Você? Indo embora?

Ele balançou a cabeça, ainda rindo.

— Não me faça rir, Ava. Você sempre soube muito bem por que ficou. Você só está aqui por interesse. Pelo meu dinheiro. Você não vai a lugar nenhum.

Ela não respondeu.

Não havia mais o que discutir.

Virou as costas e seguiu em direção ao quarto. Cada passo parecia mais firme que o anterior, como se, pela primeira vez em anos, estivesse realmente decidida.

Ao entrar, olhou ao redor por um instante. Aquele espaço, que um dia tentou chamar de lar, agora parecia estranho. Frio. Impessoal. Como tudo o que existia entre eles.

Ava foi até o armário e começou a separar suas coisas. As mãos se moviam com rapidez, mas sem desespero. Havia decisão. Cada peça dobrada, cada objeto guardado, era um passo a mais para longe daquela vida.

A porta se abriu novamente.

Adam encostou no batente, observando-a em silêncio por alguns segundos, como se ainda esperasse que ela parasse.

— Você está mesmo fazendo isso? — perguntou, com desdém. — Acha que eu vou correr atrás de você?

Ele soltou um riso breve.

— Por favor, Ava… nós dois sabemos que você nunca teve coragem pra ir embora.

Ela continuou arrumando as coisas, ignorando completamente a presença dele.

Aquilo o irritou.

— Eu vou tomar um banho — disse, já se afastando. — E manda a empregada preparar meu café. Estou com fome.

Ava não reagiu.

Não olhou.

Não respondeu.

Continuou exatamente o que estava fazendo.

Pouco depois, o som do chuveiro ecoou pelo quarto, mas nada mudou. Ela terminou de organizar o que precisava, fechou a mala e parou por um instante, respirando fundo.

Não havia mais dúvida.

Antes que ele saísse do banho, já estava pronta.

Pegou a mala, lançou um último olhar para o quarto e saiu, em silêncio, sem deixar nada para trás além do que nunca teve de verdade.

A viagem até a casa dos pais pareceu mais longa do que realmente era. Durante o trajeto, Ava manteve os olhos fixos na janela, observando a cidade passar como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Havia dor, havia vazio, mas também havia algo novo surgindo dentro dela. Pequeno, frágil… mas real.

Quando chegou, demorou alguns segundos antes de tocar a campainha.

A porta se abriu, e sua mãe apareceu.

O olhar dela mudou no mesmo instante.

— Ava…

Não foi preciso dizer mais nada.

Ava tentou se manter firme, tentou sustentar a própria força, mas bastou dar um passo para dentro da casa para que tudo desmoronasse novamente. As lágrimas vieram, primeiro silenciosas, depois mais intensas, enquanto ela se aproximava e se deixava envolver pelo abraço da mãe.

— Eu vou ficar aqui um tempo… — disse, com a voz baixa, ainda tentando se recompor. — É só temporário. Eu tenho algum dinheiro… eu consigo me virar.

A mãe segurou o rosto dela com cuidado, obrigando-a a olhar em seus olhos.

— Você não precisa se justificar — respondeu com firmeza. — Essa casa é sua.

Ela afastou algumas mechas do cabelo da filha com carinho.

— Aquele homem nunca te mereceu. Você sempre foi muito mais do que ele.

Ava fechou os olhos por um instante, deixando aquelas palavras entrarem de verdade. O choro voltou, mas dessa vez não era só dor.

Havia alívio.

Ela se permitiu ficar ali por alguns minutos, acolhida, protegida, sentindo algo que não sentia há muito tempo.

Segurança.

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