CAPÍTULO 2

O bar para onde ele a levou tinha uma iluminação baixa e um movimento suficiente para que ninguém prestasse atenção em ninguém. Era o tipo de lugar onde histórias começavam e terminavam sem deixar rastros, e, naquele momento, era exatamente disso que Ava precisava. Assim que entrou, percebeu que não queria pensar, não queria lembrar, não queria sentir nada além do efeito que o álcool pudesse trazer.

Ela se sentou no banco alto do balcão e apoiou os braços na superfície fria, ainda tentando organizar os próprios pensamentos, embora soubesse que não conseguiria. Ele se acomodou ao lado dela com naturalidade, observando-a por alguns segundos antes de chamar o barman e pedir duas doses. Não houve perguntas, nem curiosidade invasiva, apenas uma presença silenciosa que, de alguma forma, não a incomodava.

Ava pegou o copo assim que ele foi colocado à sua frente e virou o conteúdo de uma vez só. O líquido desceu queimando pela garganta, trazendo um alívio momentâneo, mas insuficiente para conter o que estava preso dentro dela. Antes mesmo que pudesse pensar melhor, pediu outra dose, e depois mais uma, ignorando o olhar atento do homem ao seu lado. Ele não a interrompeu, não tentou impedir, apenas acompanhou o ritmo, bebendo também, mas sem perder a consciência do que estava acontecendo.

O silêncio durou alguns minutos, até se tornar insuportável para ela. Ava soltou um riso sem humor, balançando a cabeça como se finalmente aceitasse aquilo que vinha evitando há anos.

— Eu sou uma idiota.

A frase saiu baixa, carregada de um peso que ela já não conseguia sustentar sozinha. Ela girou o líquido no copo antes de levá-lo à boca, como se aquilo pudesse ajudá-la a continuar.

— Cinco anos… cinco anos da minha vida jogados fora por alguém que nunca me quis.

Ela respirou fundo, sentindo a garganta apertar, mas não tentou conter as palavras.

— Eu sabia que ele não me amava. Sempre soube. Desde o começo. — riu novamente, dessa vez mais amarga. — Mas mesmo assim eu fiquei. Eu insisti. Fiquei esperando que, em algum momento, ele fosse olhar pra mim de verdade.

Ele permaneceu em silêncio, deixando que ela falasse, sem interromper, sem tentar amenizar.

— Eu podia ter feito tanta coisa… — continuou, os olhos fixos no copo. — Eu tinha uma carreira, eu tinha planos… eu podia ter sido qualquer coisa. Mas escolhi ficar presa naquele casamento ridículo, vivendo uma vida que nem era minha.

As palavras começaram a sair mais rápidas, como se, uma vez abertas, não pudessem mais ser contidas.

— E o pior é que eu aceitei tudo. A frieza, a indiferença… eu aceitei ser ignorada dentro da minha própria casa. — a voz falhou por um instante, mas ela continuou. — E hoje eu descubro que, além de tudo isso, ele ainda me trai na minha cara, como se eu não fosse nada.

Ela levou a mão ao rosto, tentando conter as lágrimas que insistiam em voltar.

— Eu perdi cinco anos da minha vida.

O homem ao lado dela finalmente se moveu, apoiando o braço no balcão enquanto a observava com mais atenção.

— Você não perdeu — disse, com calma. — Você só demorou pra sair.

Ava virou o rosto na direção dele, como se aquela resposta não fosse a que esperava.

— E isso muda alguma coisa?

— Muda tudo. — ele respondeu, sem hesitar. — Você ainda pode fazer qualquer coisa que quiser. Só não pode continuar fingindo que aquilo ainda existe.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquelas palavras de um jeito que não esperava. Então desviou o olhar, respirando fundo antes de pegar o copo novamente.

— Eu não sei fazer isso — admitiu, mais baixo.

Ele não respondeu de imediato. Apenas fez um sinal para mais uma rodada, como se entendesse que, naquele momento, ela ainda não precisava de respostas, apenas de tempo.

As horas passaram sem que Ava percebesse. Entre um copo e outro, as palavras ficaram mais soltas, os pensamentos menos organizados, e a dor começou a se misturar com uma sensação estranha de leveza. Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava tentando ser perfeita, não estava tentando agradar, não estava tentando sustentar algo que já estava quebrado.

Em algum momento, ela começou a rir de coisas sem sentido, apoiando a cabeça no braço enquanto falava, já sem medir o que dizia. Ele continuava ali, ouvindo, às vezes respondendo com frases curtas, mas sempre presente. A proximidade entre os dois deixou de ser estranha e passou a ser natural, como se aquela conexão tivesse se formado sem esforço.

Quando Ava percebeu, já estava mais próxima dele do que deveria. O álcool tinha diminuído as barreiras que ela passou anos construindo e, naquele instante, ela não se importava mais com o certo ou o errado. Só queria esquecer.

— Eu não quero voltar pra casa — disse, olhando para ele.

Ele sustentou o olhar por alguns segundos, avaliando, como se quisesse ter certeza de que aquilo não era apenas efeito do álcool.

— Então não volta.

A resposta veio simples, direta, sem pressão.

Ava respirou fundo, sentindo o coração acelerar, mas não recuou.

Pouco tempo depois, os dois já estavam saindo do bar.

O caminho até o hotel foi rápido e silencioso, mas carregado de uma tensão que não precisava ser dita. Não houve necessidade de muitas palavras, porque ambos sabiam exatamente o que estavam fazendo, mesmo que, no caso dela, fosse movido por impulso, dor e álcool.

Quando entraram no quarto, Ava não pensou nas consequências. Não pensou no que aquilo significava, nem no que viria depois. Apenas deixou que tudo o que vinha segurando há anos escapasse de uma vez.

Na manhã seguinte, a realidade voltou.

Ava abriu os olhos lentamente, sentindo a cabeça pesada e o corpo envolvido por uma sensação estranha, entre cansaço e confusão. Demorou alguns segundos para entender onde estava, mas, quando percebeu, o impacto veio de uma vez só.

Ela virou o rosto e o viu dormindo ao seu lado.

O coração acelerou.

As lembranças da noite anterior vieram em sequência, sem filtro, fazendo com que se levantasse rapidamente, como se precisasse fugir antes que fosse tarde demais. O silêncio do quarto parecia mais pesado do que qualquer coisa que tivesse vivido nas últimas horas.

Sem fazer barulho, começou a se vestir, com movimentos rápidos, quase desesperados. A cada peça de roupa que colocava, a sensação de arrependimento aumentava, se espalhando pelo corpo como um incômodo impossível de ignorar.

— Isso não deveria ter acontecido… — murmurou para si mesma, mais de uma vez, como se repetir aquilo pudesse mudar alguma coisa.

Ela evitou olhar para ele novamente.

Não queria pensar.

Não queria sentir.

Quando terminou, pegou suas coisas e caminhou até a porta. Por um instante, hesitou, a mão parada na maçaneta, como se uma parte dela ainda estivesse presa ali.

Mas não ficou.

Abriu a porta e saiu, deixando tudo para trás antes que ele acordasse.

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