Mundo ficciónIniciar sesiónCAIM LEE
24 horas atrásAcordei antes mesmo do amanhecer, com o coração batendo um pouco mais forte que o normal, uma mistura de ansiedade e determinação que não sentia há muito tempo.
A noite anterior havia sido longa: depois de tomar a decisão de investigar o laboratório por conta própria, revirei todos os documentos e anotações mais uma vez, memorizando cada detalhe. Não dormi muito, é verdade — a mente não parava de girar, imaginando o que eu poderia encontrar, quais segredos estariam escondidos.
Levantei devagar do chão da sala, onde tinha dormido enrolado em um cobertor velho, e fui direto para o banheiro. A água estava um pouco fria, mas tomei banho com calma, deixando que o choque da água me ajudasse a despertar completamente e a afastar qualquer resquício de cansaço ou dúvida.
Enquanto me secava, olhei para o espelho que ficava acima da pia pequena e vi o meu reflexo: cabelos longos, olhos atentos, uma expressão séria que eu raramente usava no trabalho. Sorri de leve para mim mesmo — hoje, eu não era só o Caim, o funcionário do Jornal Dia a Dia. Hoje, eu era o repórter que ia desvendar um mistério que ninguém tinha coragem de tocar.
Vesti-me com cuidado, escolhendo peças que fossem confortáveis mas também discretas: uma calça jeans resistente, uma camisa preta , e o meu par de tênis mais velho e confiável, com solado grosso e aderente — algo me dizia que eu ia precisar andar muito, talvez escalar e o último erro que eu poderia cometer era usar sapatos que me deixassem escorregar ou fazer barulho a cada passo.
Antes de sair do quarto, abri a mochila que tinha deixada sobre a cama e verifiquei tudo o que eu tinha separado na noite anterior: um carregador portátil , para garantir que o celular não descarregasse no meio do caminho, uma lanterna de mão, pequena mas com luz forte, que tinha comprado há tempos e quase nunca usava, um caderno pequeno e uma caneta, para anotar qualquer coisa importante que visse, e também uma garrafa de água e um pacote de biscoitos — não sabia quanto tempo ficaria fora, e não podia correr o risco de passar mal por fome ou sede. Coloquei tudo com cuidado, fechei o zíper e pendurei a mochila nos ombros.
Peguei a chave do meu carro, aquele modelo simples que a minha mãe tinha me dado como presente de formatura, e desci os cinco lances de escada devagar, tentando não fazer barulho, embora ainda fosse muito cedo e ninguém estivesse acordado no prédio.
Quando cheguei ao estacionamento, olhei para o pequeno veículo vermelho com um certo carinho: ele não era nada de especial, tinha alguns arranhões na lataria e o ar-condicionado que não funcionava direito, mas era o meu meio de chegar até onde ninguém mais ia.
Abri a porta, sentei-me no banco do motorista e respirei fundo por um momento, antes de ligar o motor. Decidi que não ia tomar café em casa — preferia fazer isso no trabalho, economizando o pouco dinheiro que tinha e também para chegar cedo, antes de todos, e adiantar todas as tarefas que me eram atribuídas. Hoje, o meu objetivo era sair do jornal o mais cedo possível, sem dar explicações, sem levantar suspeitas.
Cheguei ao estacionamento do jornal vazio. Entrei no prédio, cumprimentei o porteiro com um aceno de cabeça e subi as escadas, evitando o elevador que sempre parecia estar com defeito. Quando entrei na redação, já havia alguns colegas nas mesas, conversando baixo ou ligando os computadores.
Cumprimentei a todos com um sorriso rápido e fui direto para a minha mesa, no canto mais afastado da sala, onde ninguém me incomodava muito. Sentei, abri o computador e comecei a trabalhar imediatamente, com uma velocidade e uma concentração que surpreenderiam qualquer um que me conhecesse.
Hoje, eu não ia enrolar, não ia perder tempo com conversas fiadas ou reclamações sobre o trabalho. Tinha uma missão, e tudo o que eu fazia agora era só um detalhe para cumprir o meu horário e poder ir embora.
Passadas algumas horas, eu estava tão imerso na redação de uma matéria sobre um evento da prefeitura — mais uma daquelas que eu odiava escrever, cheia de elogios falsos e frases que não refletiam nada da realidade — que nem percebi quando alguém se aproximou da minha mesa.
Só levantei os olhos quando senti o cheiro forte de café preto, o mesmo que eu sempre tomava, e vi Bia colocando a minha caneca do Naruto bem na minha frente, com um sorriso curioso nos lábios.
— Nossa, você está tão concentrado hoje! — disse ela, apoiando-se na borda da mesa e olhando para mim com aqueles olhos brilhantes de quem já estava imaginando mil histórias. — Que bicho te mordeu? Nunca te vi trabalhar assim, sem parar um minuto sequer.
Dei um sorriso tranquilo, tentando disfarçar qualquer sinal de nervosismo ou animação.
— Nenhum bicho, Bia — respondi, voltando a olhar para a tela do computador — Desde quando eu sou um homem que não leva o meu trabalho a sério? Só estou fazendo o que tenho que fazer, como sempre.
Ela soltou uma risadinha, balançando a cabeça claramente não acreditando muito nas minhas palavras. Bia me conhecia bem, talvez melhor do que qualquer outra pessoa ali dentro, e sabia que eu costumava reclamar de tudo e de todos, e que raramente ficava tão quieto e focado assim.
— Tudo bem, se você diz… — ela disse, arrumando os papéis que estavam na sua mão. — De qualquer forma, já está quase na hora do almoço, eu estou saindo com o pessoal. Você não vem com a gente? Hoje tem pastel na lanchonete da esquina, aquele que você gosta.
Senti um pouco de vontade de ir, para ser sincero — passar um tempo com ela e com os outros me ajudaria a relaxar um pouco, mas sabia que não podia. Se eu fosse, ia acabar conversando, perdendo tempo, e talvez até contando algo sem querer. Precisava ficar sozinho, manter o foco.
— Hoje não, estou sem fome — menti, com uma desculpa fácil, afastando a ideia de almoço da minha cabeça. — Prefiro terminar isso aqui logo, para não deixar nada acumulado para amanhã.
Ela não insistiu, como sempre fazia, e acenou com a cabeça, se afastando devagar em direção à porta, onde outros colegas já esperavam por ela. Fiquei olhando ela sair, e depois voltei o olhar para a minha caneca de café, tomando um gole grande enquanto terminava de escrever o último parágrafo da matéria. As palavras saíam rápidas, mecânicas, como se as minhas mãos se movessem sozinhas, enquanto a minha mente já estava quilômetros adiante, pensando no laboratório, no endereço que eu tinha anotado, em tudo o que poderia encontrar.
O resto do dia passou voando. Quando olhei para o relógio na parede, vi que marcava exatamente 18h00. O coração deu um salto no peito: era a hora. Desliguei o computador com um movimento rápido, guardei tudo o que era meu na mochila e comecei a arrumar as minhas coisas, disposto a sair antes que alguém começasse a fazer perguntas.







