Mundo ficciónIniciar sesiónCAIM LEE
— Você tem um encontro, por acaso? — ouvi a voz de Bia atrás de mim, me virei para vê-la olhando para mim curiosa.
— Por que você está me perguntando isso? — respondi, tentando manter a naturalidade, enquanto colocava a mochila nos ombros.
— Porque você sempre fica até mais tarde do que todo mundo, arrumando coisas ou reescrevendo matérias — ela explicou — Mas hoje, é o primeiro a sair. Tem algo acontecendo?
Dei um sorriso, tentando parecer despreocupado.
— E se eu tiver? Eu também tenho vida fora daqui, querida — respondi, dando de ombros.
— Além disso, hoje é sexta-feira, ninguém merece ficar preso nesse chiqueiro mais do que o necessário, não é mesmo?
Os olhos de Bia começaram a brilhar ainda mais, e ela se agitou toda, como se tivesse acabado de receber a melhor notícia do mundo. Ela adorava sair, ir a bares, conhecer lugares novos, e sempre que alguém mencionava ir para algum lado, ela já queria ir junto.
— Se estiver indo para algum bar legal, me leva com você! — disse ela, já começando a andar em direção à sua mesa, com a intenção de pegar os seus pertences rapidamente. — Já arrumo minhas coisas em dois minutos, juro que não demoro nada.
Senti um pouco de culpa, mas sabia que não podia levá-la comigo. O que eu ia fazer era perigoso, era segredo, e colocar ela em risco era a última coisa que eu queria.
— Sabe como é, Bia… é que não vai dar — disse, apressando os passos em direção à porta, já quase saindo da sala. — Eu já estou muito atrasado, tenho que ir. Até segunda-feira!
Saí correndo, sem esperar por respostas, ouvindo só a sua voz chamando por mim, provavelmente reclamando que eu não tinha sido legal. Mas não tinha jeito: era melhor assim.
Desci as escadas rapidamente, saí do prédio e fui direto para o meu carro, sentindo o ar fresco da tarde bater no rosto, e uma sensação de liberdade e medo ao mesmo tempo.
Antes de seguir para o destino final, parei em um posto de gasolina que ficava no caminho. Enchi o tanque completamente, sem me preocupar com o preço alto do combustível — dessa vez, valia a pena gastar cada centavo.
A última coisa que eu precisava era ficar parado no meio do caminho, perdido em um lugar desconhecido, sem gasolina para voltar ou seguir em frente. Afinal, eu era repórter, não policial, e não tinha ninguém para me ajudar se algo desse errado.
Depois de pagar o combustível, fui até a lanchonete do posto e comprei uma coxinha grande e um refrigerante bem gelado. Voltei para o carro, sentei no banco do motorista e comi devagar, aproveitando cada mordida, sabendo que provavelmente seria a minha última refeição por um bom tempo.
Enquanto comia, peguei o celular, abri o aplicativo de navegação e digitei o endereço exato que tinha conseguido com a minha fonte, aquele que tinha me dado toda a informação sobre o laboratório.
Quando o mapa carregou e mostrou o caminho, eu suspirei, desanimado, mas não surpreso.
Tá de brincadeira comigo, né? — murmurei para mim mesmo, olhando para a tela. — Isso fica do outro lado da cidade, quase na divisa com a zona rural.
Mas fazer o quê, né? Se quisesse descobrir a verdade, teria que ir até lá, não importava o quanto fosse longe ou difícil. Liguei o som do carro baixo,e comecei a dirigir, seguindo as coordenadas que apareciam na tela.
O caminho foi muito mais longo do que eu imaginava. Saí da área central da cidade, passei por bairros cada vez mais afastados, ruas que eu nunca tinha visto antes, até que o asfalto acabou e eu comecei a percorrer uma estrada de terra, esburacada e cheia de poeira, com mato alto dos dois lados.
O céu, que ainda estava claro quando eu tinha saído do trabalho, já estava completamente escuro, coberto por nuvens grossas e cinzentas que prometiam chuva a qualquer momento. A única luz que eu tinha vinha dos faróis do carro, que iluminavam só um pequeno trecho da estrada à frente.
Não sei quanto tempo passou, mas parecia que eu estava dirigindo há horas, quando finalmente a voz do GPS avisou: “Chegou ao destino”.
Estacionei o carro devagar, no final da estrada e desliguei o motor. O silêncio que se seguiu foi imenso, um silêncio que eu não estava acostumado a ouvir na cidade, cheia de barulhos, carros, vozes. Aqui, só se ouvia o vento passando pelas folhas das árvores altas e um som distante, de algum animal que eu não sabia identificar.
Saí do carro e fechei a porta devagar, sem fazer barulho. Olhei ao redor e percebi que a estrada realmente terminava ali, bem na entrada do que parecia ser uma floresta densa, fechada, com árvores que pareciam tocar o céu e arbustos que cresciam por todo lado.
A escuridão era tão grande que eu mal conseguia ver além dos faróis do meu carro.
Dei uma risada seca, passando a mão pelo cabelo, que já estava bagunçado por causa do vento.
— Tá de sacanagem, né? — falei baixo, para mim mesmo. — O laboratório fica dentro dessa floresta?
Olhei novamente para o endereço no celular, e o aplicativo indicava claramente que o destino estava a apenas alguns quilômetros de distância, mas todo dentro da área fechada de mata.
Olhei para o céu, sem estrelas, escuro como breu.
— Só falta chover agora… — resmunguei, balançando a cabeça. Mas logo depois, pensei melhor: — De certo modo, também não seria tão ruim assim. O barulho da chuva ia ajudar a abafar o som dos meus passos, e se eu precisasse me esconder, ia ser mais fácil de passar despercebido.
Voltei para dentro do carro, abri a mochila que estava no banco do passageiro e comecei a vasculhar até encontrar a lanterna. Peguei-a, verifiquei se as pilhas estavam boas e coloquei-a no bolso da calça. Ajustei o brilho da tela do celular para o mínimo, para que não chamasse atenção, e respirei fundo.
— Agora é só seguir em frente — disse, tentando me convencer. — Se por algum motivo eu achar que está perigoso demais, ou que tem algo errado, eu só preciso voltar para o carro e ir embora. Ninguém sabe que eu estou aqui, ninguém vai me obrigar a ficar.
Mas a verdade é que eu já sabia: não ia voltar sem ver, sem confirmar, sem trazer alguma prova.
Senti o coração bater tão forte que parecia que ia sair pela boca. As mãos estavam um pouco suadas. Dei dois t***s leves no meu próprio rosto, tentando me acalmar, tentando afastar o nervosismo que começava a tomar conta de mim.
— Vamos, Caim, não seja um covarde — falei alto, como se estivesse falando com outra pessoa.
— Pense na cara do James quando eu esfregar todas as provas na cara dele. Aquele sujeito que acha que sabe tudo, que acha que eu não sou nada, vai implorar para eu continuar trabalhando naquele chiqueiro com ele.
Repeti essas palavras como se fossem um mantra, várias vezes, até que a coragem voltasse a encher o meu peito. Respirei fundo mais uma vez, tirei a lanterna do bolso, liguei-a com um clique suave, e comecei a caminhar em direção à floresta, seguindo as setas que apareciam na tela do celular.
Cada passo que eu dava era um passo para fora da minha vida comum, um passo em direção a algo que poderia mudar tudo — ou me colocar em um perigo que eu nem imaginava. Mas não importava: eu era repórter, e a verdade era o meu compromisso.E eu ia encontrá-la,custe o que custar.







