Mundo ficciónIniciar sesiónCAIM LEE
Coloco a minha caneca do Naruto na beirada da mesa — quase transbordando, porque sou viciado em café — e ligo o computador.Depois de checar os e-mails, e responder a mensagem de um editor, finalmente me concentro na matéria que tenho que escrever hoje. Como sou o faz tudo daqui, eu escrevo todo tipo de conteúdo: desde matérias policiais, que são as que mais gosto, até notícias sobre eventos da cidade, perfis de pessoas da comunidade e até textos que parecem piada, como aquele que tive que fazer semana passada .
E hoje, o assunto não é muito diferente . Tenho que escrever um artigo elogioso sobre o jantar beneficente que o prefeito da cidade participou ontem à noite. Olha, não estou dizendo que as crianças que seriam ajudadas com o dinheiro do evento não mereçam todo o apoio possível — pelo contrário, merecem muito mais do que recebem — mas eu conheço bem aquele homem.
Ele é um falso, um político que só aparece em eventos assim para tirar fotos, sorrir para as câmeras e fingir que se importa com o povo. Aposto tudo o que tenho que ele não comeu nem um pedaço da comida que foi servida, que saiu antes do fim do evento e que o dinheiro arrecadado vai parar, em parte, em contas que ninguém sabe onde estão.
E também tenho certeza que o James recebeu alguma vantagem, alguma quantia ou promessa de favor, para eu estar aqui sentado, tendo que puxar o saco desse cara como se ele fosse o melhor ser humano do mundo.
Mas também não posso reclamar muito, não é mesmo? Eu preciso desse salário, por menor que seja. E não é como se um jornal grande, respeitado e bem estruturado, fosse contratar logo um “zé ninguém” que acabou de sair da faculdade. Eu tenho que começar de algum lugar, e infelizmente esse lugar é aqui.
Por ser um jornal pequeno, temos poucos funcionários: somos apenas oito pessoas para cobrir toda a cidade, escrever, editar, publicar, responder comentários, arrumar problemas técnicos. Então, no final do dia, quando finalmente consigo desligar o computador e arrumar minhas coisas, eu já estou um caco. Meus olhos ardem de tanto ler e escrever, minhas costas doem de ficar sentado o dia todo e a minha cabeça parece que vai explodir de tanto barulho e conversas.
Caminho devagar até o ponto de ônibus, que nesse horário, por volta das 19h, está lotado de pessoas, todas cansadas como eu, esperando para voltar para casa.
Eu tenho um carro, sim: um modelo popular, simples, que a minha mãe insistiu em me comprar quando eu me formei, dizendo que queria me dar algo bom, um presente para o meu futuro. Mas eu quase não uso. A gasolina está tão cara, e o que eu ganho mal dá para pagar as contas básicas, então andar de ônibus é a única opção que realmente cabe no meu orçamento.
Quando o ônibus finalmente chega, é como uma batalha para entrar: ficamos apertados uns contra os outros, como se fôssemos sardinhas dentro de uma lata de metal. Demoro quase quarenta minutos para chegar ao conjunto habitacional onde moro: um pequeno condomínio de prédios de até cinco andares, sem elevador, localizado bem na periferia da cidade, bem longe do centro e de qualquer lugar importante. É o único lugar que eu consegui encontrar com um aluguel que eu posso pagar, sem precisar gastar mais da metade do meu salário com moradia.
Respiro fundo, preparando-me para o que vem a seguir, e começo a subir os cinco lances de escada. Claro que eu moro no último andar: foi o jeito de conseguir um preço ainda menor, já que ninguém quer subir tudo isso todo dia. Mas fazer o quê? Minha vida nunca foi fácil, não foi agora que ela vai ficar.
Abro a porta do apartamento já esbaforido, com o coração disparado da subida. A primeira coisa que faço é jogar a mochila em cima do sofá velho, e atirar os tênis bem no meio da sala, sem me importar com nada.
Em seguida, me jogo no chão de cerâmica fria — é o único lugar da casa que fica com temperatura agradável, porque eu não tenho ar-condicionado, nem condições de comprar um. Deito ali mesmo, de barriga para cima, fecho os olhos cansados e penso que, por mim, dormiria ali mesmo, naquele chão duro e gelado, sem me mexer mais. Mas logo vem na minha cabeça a voz da minha mãe, como se ela estivesse aqui do meu lado: “Sai do chão, menino! Se ficar aí, vai acabar ficando resfriado, e quem vai ter que aguentar você doente sou eu, de longe, preocupada”.
Suspirei, me levanto devagar, tiro a roupa suja do trabalho e vou direto para o banho. A água morna cai sobre o meu corpo, e por alguns minutos eu sinto um pouco de alívio, como se todo o cansaço do dia estivesse sendo levado embora. Quando termino, me seco , visto apenas uma cueca e caminho descalço até a cozinha, arrastando os pés pelo chão.
Abro a geladeira e dou uma olhada rápida: não tem nada preparado, nem um resto de arroz. Tudo o que tem é leite,algumas frutas e coisas que precisam ser cozidas. Eu estou tão cansado, que nem penso em ligar o fogão ou cortar legumes.
Abro o congelador, pego uma lasanha congelada que comprei há alguns dias para dias como esse, coloco-a em um prato e levo ao micro-ondas. “To muito cansado, nem fudendo que vou cozinhar hoje”, penso comigo mesmo, enquanto espero o tempo passar.
Depois, pego uma garrafa de cerveja bem gelada na geladeira, abro-a e volto para a sala, sentando-me novamente no chão, encostado na parede. Quando o micro-ondas apita, pego o prato com a lasanha ainda quente, coloco no chão ao meu lado e começo a comer ali mesmo, enquanto ligo a televisão e coloco no meu desenho favorito: Naruto. É a minha forma de descansar, de esquecer um pouco do mundo e dos problemas, de voltar a ser criança por alguns minutos.
Mas mesmo vendo a história do menino que quer ser reconhecido, que quer ser forte, que luta contra todos os obstáculos, eu não consigo relaxar de verdade. O assunto do laboratório não sai da minha cabeça, nem por um segundo. As palavras de James ecoam nos meus ouvidos: “é absurdo”, “é ficção”, “não existem coisas assim”. Mas eu sei o que vi, sei o que li, sei o que a minha fonte me contou.
Paro de comer por um momento, me levanto, pego a mochila que está no sofá e tiro de dentro dela a pasta com todos os documentos, anotações e relatos. Volto a sentar no chão, abro-a espalhando os papéis ao meu redor, e começo a ler tudo de novo, detalhe por detalhe, enquanto como e bebo a cerveja.
Quando recebi essas informações pela primeira vez, também achei que era uma pegadinha, uma história inventada, coisa de gente com muita imaginação. Era muita loucura pensar que algo assim estivesse acontecendo aqui, tão perto de nós, dentro da nossa própria cidade, sem que ninguém soubesse ou falasse nada.
Mas depois, parei para pensar com calma, e percebi que não era tão absurdo assim. Todos os dias, em todo o mundo, pessoas somem do nada, sem deixar rastros.
Além disso, a ciência evoluiu muito nas últimas décadas, avanços que trazem benefícios, mas que também podem ser usados para coisas erradas, coisas proibidas, coisas que ferem a vida humana.
E para piorar tudo, existe a ganância do ser humano: pessoas capazes de fazer qualquer coisa por dinheiro, por poder, por reconhecimento, sem pensar nas consequências, sem se importar com quem vai sofrer.
Olho para a televisão, onde Orochimaru aparece na tela, com seus planos de pesquisa, sua busca por poder e conhecimento a qualquer custo. Ele era considerado um louco, um vilão, que fez de tudo em prol dos seus estudos, sem se importar com ninguém.
E eu tenho certeza absoluta que, na vida real, existem pessoas tão loucas, tão ambiciosas e perigosas quanto ele. Como minha mãe sempre diz: “a arte imita a vida, filho. Tudo o que você vê nas histórias, de um jeito ou de outro,acontece ou já aconteceu no mundo real”.
De repente, me levanto de um salto, batendo com as duas mãos nas minhas pernas, com uma certeza que me enche o peito e me faz sentir vivo de novo. Não tinha mais dúvidas, não tinha mais espaço para incertezas.
— Porra, está decidido! — falo alto, para mim mesmo, como se estivesse fazendo um juramento. — Amanhã, depois do trabalho, vou investigar esse caso por mim mesmo.
Não preciso da aprovação de James. Eu sou um repórter, caramba! É o meu faro, a minha intuição, a minha obrigação de descobrir a verdade e contar para todo mundo. Eu vou até o fim, custe o que custar.
Fecho a pasta com força, guardo-a novamente na mochila, e agora sim, consigo voltar a assistir ao desenho, com a cabeça mais leve, com um objetivo claro, com a sensação de que, finalmente, estou fazendo a coisa certa. A história do laboratório não é ficção, e eu vou provar isso pra todos.







