Mundo de ficçãoIniciar sessãoNarrado por Azara Ashthorne
O amanhecer chegou vestindo o mundo com um manto gelado. O ar cortava como lâminas invisíveis, e o céu estava coberto por nuvens pesadas, espessas como pedra, abafando qualquer sinal de calor ou luz verdadeira. A casa acordara antes mesmo que o sol tentasse romper aquela barreira de cinza — passos apressados, o arrastar de caixas e malas, vozes abafadas se sobrepondo. Minha família se movia como um mecanismo bem treinado, cada um com sua função. Meu pai estava parado na entrada, alto e imperturbável, como uma sombra fixa no meio do caos. Seu rosto não revelava nada — nem ansiedade, nem pressa, nem cansaço. Apenas aquele silêncio sólido que sempre foi mais implacável do que qualquer ordem. Meu irmão, em contraste, parecia tomado por uma energia elétrica. Conversava com dois outros caçadores, descrevendo o novo território como se fosse promessa de glória. Para ele, Feendale era aventura, terreno fértil para lendas pessoais. Para mim, era apenas uma sentença que ainda não tinha nome. Minha mãe se aproximou, o toque frio de sua mão roçando na minha por um instante que pareceu mais longo do que realmente foi. — Feendale será um recomeço para nós. — Sua voz era baixa, mas carregada de um subtexto que só eu parecia ouvir. — Fique atenta, observe e aprenda. Esta cidade pode nos trazer oportunidades… e desafios. Havia algo naquele desafios que me fez prender a respiração. Eu assenti, sem coragem de responder. O peso no meu peito só aumentava. Feendale… não era apenas outro ponto no mapa. Era algo que me puxava, mas não como um convite — mais como correntes enrolando em torno dos meus tornozelos, arrastando-me para águas desconhecidas. Quando deixei meu quarto, segurando minha mala, meu pai não me deu sequer um olhar. Esse silêncio, vindo dele, era uma sentença. Entrei no carro, me acomodando no banco de trás. Ao meu redor, as conversas fluíam como um rio barulhento, mas eu estava isolada no meu próprio silêncio, os fones de ouvido como barreiras frágeis contra o mundo. Sob minha roupa, o arranhão do lobo latejava. Não apenas pela dor física, mas pela lembrança. Aqueles olhos prateados me encarando, aquela voz grave invadindo minha mente: Os inimigos não somos nós, e sim aqueles que você chama de família. Engoli em seco, desviando o olhar para a estrada. A sensação de que algo já estava decidido sobre meu destino me acompanhava como uma sombra colada à pele. A viagem foi um borrão de neve, árvores e conversas abafadas. Eventualmente, o balanço do carro e o som constante dos pneus me embalaram até o sono. — Chegamos em Feendale — a voz do meu irmão cortou abruptamente o meu descanso. Pisquei os olhos, e a visão diante de mim roubou o ar dos meus pulmões. Feendale se erguia como uma pintura viva em tons de inverno. Montanhas colossais cercavam a cidade, suas copas cobertas de neve cintilando sob uma luz pálida, quase doentia. O ar era afiado, puro e impregnado com o perfume amadeirado dos pinheiros que se estendiam até onde a vista alcançava. As ruas tinham um charme quase cenográfico: casas e lojas de madeira escura e pedra, cafés aquecidos de onde escapavam aromas de café forte e especiarias, vitrines iluminadas refletindo a neve acumulada. Tudo parecia perfeito demais, pacífico demais — e essa perfeição, para mim, soava como disfarce. Foi então que senti. O vento cortante roçou meu rosto como dedos gelados e, por um instante impossível, juraria que ele sussurrou meu nome. Uma onda de calafrios desceu pela minha espinha. Não era só beleza o que havia ali. Era… familiaridade. Como se, de algum modo, eu sempre tivesse pertencido àquele lugar. E essa sensação me apavorou. Tentei focar nos detalhes comuns: crianças rindo na praça, idosos conversando, sacolas balançando nos braços das pessoas. Mas tudo parecia encenado, como um palco montado para esconder a verdadeira peça. Seguimos até o centro, passando por uma praça iluminada por postes antigos de ferro, sua luz amarelada um contraste com o branco quase cegante ao redor. Meu pai mantinha as mãos firmes no volante, os nós dos dedos brancos, atento a cada esquina. Minha mãe, ao lado dele, observava tudo com a curiosidade de quem procura padrões escondidos. — Onde vamos ficar? — perguntei, quebrando o silêncio. — Uma casa nas montanhas, afastada do centro. — O tom dela foi definitivo. — Melhor para nós. Melhor para nós… significado claro: menos olhares curiosos, menos testemunhas, mais controle. A sensação de inquietação se aprofundou. A casa surgiu no alto de uma colina, cercada por pinheiros que formavam um muro natural. Era imensa, feita de madeira escura e pedra, janelas amplas refletindo a neve como espelhos gelados. Bela, sim, mas com um peso invisível, como se guardasse histórias que ninguém ousava contar. Ao sair do carro, o frio mordeu minha pele exposta. Carregando minha mala, caminhei até a entrada — mas então, parei. A floresta. Senti como se um par de olhos estivesse escondido entre os galhos, me observando. O vento balançava as árvores, sombras se contorcendo sobre a neve. Era só o cansaço, eu disse a mim mesma… mas minha pele insistia em se arrepiar. Entrei na casa. O interior era silencioso demais. Meu quarto ficava nos fundos, com uma janela enorme que se abria para a muralha escura da floresta. À luz fria da lua, os galhos carregados de neve projetavam sombras distorcidas pelo chão. Sentei na cama. O lugar era confortável, com móveis rústicos e uma lareira apagada, mas o frio parecia se infiltrar por cada fresta. E, mais do que isso, havia a sensação sufocante de que a casa — ou o bosque — estava me vigiando. O sono veio devagar, quase contra a minha vontade. Foi quando ouvi. Um estalo. O farfalhar de folhas. E então… um uivo. Baixo. Prolongado. Selvagem. O som atravessou a noite como uma lâmina, vibrando nos ossos, arrepiando cada fio de cabelo. Não era apenas um lobo. Era um chamado. E, de repente, percebi — naquela floresta, eu não era caçadora. Eu era a presa.






