Azara Ashthorne - Ecos da dúvida

Narrado por Azara Ashthorne

O silêncio que se seguiu foi tão espesso que parecia me envolver como uma corda no pescoço. Meu pai continuava me encarando, e aquele olhar frio e calculista tinha um peso que quase me esmagava. Não precisava levantar a voz para me fazer sentir como se estivesse diante de um juiz que já tinha a sentença pronta. Atrás dele, eu sentia os olhos dos outros caçadores sobre mim — como lâminas invisíveis, cortando e medindo cada fraqueza que pudessem encontrar. Avaliavam. Julgavam. Condenavam.

Minha boca estava seca, áspera como papel. Engoli em seco, mas o nó na garganta permaneceu. Forcei as palavras a saírem, mesmo sabendo que seriam veneno.

— Ele fugiu.

A mentira queimou minha língua como se fosse feita de ferro em brasa, mas ainda era preferível à verdade.

O olhar de meu pai se estreitou, e o canto de sua boca se ergueu num sorriso sem alegria — a expressão cruel de quem já sabe que você está mentindo, mas prefere assistir à sua tentativa patética de sustentar a farsa.

— Fugiu? — repetiu, dando um passo à frente, a sombra dele se projetando sobre mim como uma ameaça física. — Você… minha filha… deixou um lobo escapar?

Não respondi. Se falasse, a voz trairia o que eu estava sentindo. Meu coração martelava tão alto que parecia ecoar nos ossos, e minhas mãos tremiam ao lado do corpo, mesmo que eu me esforçasse para mantê-las firmes. Em toda minha vida, nunca senti esse tipo de medo. Não era medo dos lobos, nem da batalha, nem da morte. Era o medo cru do que meu pai — Edrik Ashthorne — poderia fazer quando via desonra na própria família.

— Você está se tornando fraca, Azara. — Sua voz era um fio de aço, cortante e frio. — Começando a ter pena dessas criaturas?

Minha mãe, que até então observava em silêncio, deu um passo hesitante à frente. Havia preocupação em seus olhos, mas também cautela — como se escolher mal as palavras pudesse incendiar a sala.

— Ela está ferida, Edrik. Talvez—

— Talvez nada! — Ele a interrompeu num rosnado, o som carregado de fúria. — Se uma caçadora não consegue matar, então não passa de um fardo.

Minhas mãos se fecharam em punhos, as unhas cravando na palma até doer. Ergui o rosto e sustentei o olhar dele, recusando-me a abaixar a cabeça.

— Foi um erro. Não vai acontecer de novo.

Ele me analisou por longos segundos, o silêncio quase insuportável. Então bufou, um som carregado de nojo e desdém.

— Não. Não vai.

A dor veio antes que meu corpo entendesse o que estava acontecendo. O punho dele se chocou contra meu rosto, e tudo se fragmentou num clarão de luz e dor. A queda foi rápida, e o impacto contra o chão arrancou o ar dos meus pulmões. O mundo girou, e por um momento só havia o gosto metálico do sangue invadindo minha boca e o zumbido nos meus ouvidos.

Houve gritos ao redor, mas nenhum passo para me ajudar. Ninguém ousava interferir. Isso não era uma explosão de raiva — era uma lição.

Meu pai se abaixou, a sombra dele engolindo a minha. Sua voz veio baixa, como um sussurro venenoso, que queimava mais que o soco.

— Se você falhar novamente, Azara… eu mesmo terminarei o serviço.

Ele se ergueu e virou as costas, como se eu já não valesse mais o esforço de continuar me olhando.

Minha mãe se ajoelhou ao meu lado, o toque hesitante, como se o simples ato de me ajudar fosse uma afronta a ele. Não disse nada, apenas olhou para mim com uma mistura de dor e impotência.

Meu irmão, a poucos metros, apenas me observava. Seus olhos eram um poço fundo e escuro, impossível de ler.

Lágrimas ardiam por trás dos meus olhos, mas eu as forcei de volta. Não lhe daria esse prazer. Lentamente, me levantei. A dor pulsava na mandíbula, e o sangue escorria quente pela boca, mas o que queimava de verdade estava muito mais fundo.

Eu já tinha dúvidas antes. Agora, eu tinha certezas.

Meu pai não me punia por falhar. Ele me punia porque eu hesitei.

E, pela primeira vez, percebi que ele tinha medo disso.

Medo de que eu estivesse mudando.

Medo de que, talvez, eu nunca tivesse sido realmente uma deles.

Minha mãe pegou o kit médico, abrindo-o com gestos rápidos e treinados, e começou a limpar a ferida. O cheiro forte do antisséptico invadiu minhas narinas, mas eu mal registrei.

— Meu amor, ele está estressado — disse ela, a voz num tom quase suplicante, como se tentasse me convencer de algo em que nem ela acreditava. — A missão não foi como esperávamos. Perdemos dois dos nossos, e amanhã partimos para uma nova cidade.

Fiquei em silêncio, observando-a trabalhar. A dor física era suportável. O que me corroía era o peso invisível que parecia esmagar meus pulmões.

— Essa cidade… dizem que é diferente de tudo que já vimos. — Sua voz carregava algo que não era só preocupação; havia ali um resquício de medo. — Lá, mal conseguimos distinguir quem são humanos e quem são lobos.

Meus olhos se ergueram para encontrar os dela. Por um instante, vi hesitação. Ou talvez fosse um pedido mudo para que eu não fizesse as perguntas erradas.

— Ele está apenas estressado, Azara — repetiu, tocando meu rosto com a mesma mão que, anos atrás, me embalava para dormir. — Você entende, não é?

Engoli em seco. Eu entendia. Entendia demais. Meu pai precisava manter a ordem. Não podia tolerar fraqueza. Não podia correr riscos.

Mas… e eu? Eu também não tinha o direito de sentir? De questionar?

Feendale nos esperava. E eu sabia, mesmo sem provas, que aquela cidade guardava respostas que eu não estava preparada para ouvir.

Minha mãe terminou o curativo, colando-o sobre a pele sensível. Seu toque foi leve, mas o peso em seus olhos ficou ali, cravado em mim.

— Vá descansar, Azara. Amanhã será um dia longo.

Assenti. Não havia mais nada a dizer. Segui para o quarto, fechei a porta e me deixei cair na cama.

O corpo estava exausto, mas a mente girava. As palavras daquele lobo ecoavam como veneno: Os inimigos não somos nós, e sim aqueles que você chama de família.

Ele me poupou. Por quê? O que viu em mim que o fez hesitar?

Respirei fundo, tentando empurrar as memórias para longe, mas elas vinham como ondas — o sangue, os gritos, o olhar desesperado do beta novato que eu devia matar. Eu podia ter acabado com ele. Eu devia ter acabado com ele. Mas algo dentro de mim me parou.

Amanhã estaríamos em Feendale — uma cidade onde lobos e humanos se misturavam. Uma cidade de segredos.

Talvez… de respostas.

Fechei os olhos, mas uma inquietação latejante me tomou por inteiro. Algo estava prestes a mudar.

E eu não sabia se estava pronta.

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