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Azara Ashthorne - Algo em mim desperta

Narrado por Azara Ashthorne

Sempre soube quem eu era. Desde o momento em que fui trazida à vida, entendi que meu destino estava selado. Fui criada para caçar lobos, para erradicar as criaturas que, de acordo com minha linhagem, representavam uma ameaça à ordem. Minha infância foi moldada por treinamentos implacáveis e histórias de coragem, enquanto meu corpo e mente eram preparados para enfrentar os monstros que habitavam as sombras da noite. Eu não questionava. Não duvidava. Não sentia medo. Meu dever era claro, e eu o cumpriria sem hesitação.

Meus reflexos são rápidos, minha lâmina é afiada, e meu corpo, incansável. Essa é a combinação que me tornou boa no que faço, que fez de mim uma caçadora respeitada. Mas havia algo… algo que nunca consegui entender completamente. Mesmo enquanto caçava, uma inquietação sutil me perseguia. Um vazio silencioso que surgia em momentos estranhos — quando o vento soprava de uma forma específica contra o meu rosto, ou quando a lua cheia despontava no céu e parecia me olhar de volta.

Essa sensação… de algo perdido, algo ausente, sempre esteve ali. Mas ultimamente, ela crescia. Se espalhava em mim como uma raiz antiga despertando do sono.

Nunca fui de demonstrar sentimentos. Sempre os escondi numa caixinha bem trancada, longe dos olhos atentos da minha família. Mas, nos últimos meses, depois de cada caçada, havia uma solidão latejante. Achei que fosse o peso da responsabilidade. A pressão de sempre ter que ser a melhor. Mas agora não tenho mais tanta certeza. Parece mais profundo. Como se eu estivesse prestes a encarar minha verdadeira prova — uma que ninguém me treinou para enfrentar.

Fui até a janela do quarto e encarei o céu. A lua cheia brilhava com arrogância sobre o manto negro da noite. Prateada, viva, quase chamando por mim. Tentei focar nos sons da casa — vozes ao longe, madeira estalando, o mundo normal —, mas a sensação de estar sendo puxada para dentro de mim mesma era mais forte.

A solidão parecia me envolver com dedos frios. E eu me perguntava, pela primeira vez com honestidade: aquilo era apenas parte da minha missão… ou o sinal de algo maior se aproximando?

Minha vida sempre foi definida pela caça. Eu era uma caçadora. Mas quem sou além disso? O que restaria se a lâmina fosse arrancada da minha mão?

As vozes na cozinha começaram a se destacar, puxando-me de volta à realidade. Minha família conversava animadamente sobre a tão esperada caçada em Lapéria. Amanhã. Sempre havia animação antes de uma missão importante. Lapéria, com suas florestas cerradas e úmidas, era o lar de lobos altamente treinados para matar. Predadores quase perfeitos. A ideia era simples: exterminar. Depois disso, mudaríamos novamente — destino: Feendale. Nunca estive lá, mas só de ouvir o nome, um arrepio estranho percorreu minha pele. Havia algo naquele lugar… algo que me inquietava de uma forma que eu não conseguia explicar.

Fechei os olhos, tentando ignorar a intuição incômoda. Não fazia sentido. Era só mais uma cidade, mais uma missão, mais um ciclo. Deveria estar empolgada, como todos os outros. Mais uma caçada bem-sucedida significava prestígio. Honra para os Ashthorne. Respeito entre os clãs. Sempre foi assim. E eu sempre aceitei.

Mas dessa vez, algo estava diferente.

Afastei-me da janela e caminhei de volta pelo quarto. Cada passo parecia pesar mais do que o anterior. A lua cheia banhava o chão de madeira com sua luz fria, projetando minha sombra longa, quase deformada. Não era medo o que eu sentia — já enfrentei lobos, já vi olhos brilhando no escuro antes do ataque, já senti o sangue escorrendo pela pele depois de uma batalha. Mas Feendale…

Por que esse nome ecoava dentro de mim como um chamado antigo?

Peguei minha faca na mesa de cabeceira e a girei entre os dedos. A lâmina brilhou ao refletir a luz da lua — um lembrete silencioso de quem eu era. Caçar. Matar. Sobreviver. Era isso o que fazíamos. Era isso que me ensinavam a ser.

As vozes no andar de baixo aumentaram. A risada do meu tio August ecoou, seguida pelo som de copos brindando. A conversa girava em torno de estratégias, emboscadas, armadilhas. Estavam prontos. Confiavam em mim. Sabiam que eu era a melhor.

E eu não hesitaria. Não agora.

Guardei a faca no coldre da coxa e desci as escadas. O cheiro de carne assada, cerveja e lenha me envolveu como um abraço familiar. A casa de madeira estava cheia de gente — meu clã. Todos reunidos, aquecidos pelo brilho da lareira, cheios de expectativa.

— Finalmente saiu do esconderijo, Azara? — meu tio August provocou, erguendo o copo num brinde informal. — Achei que fosse se recolher cedo, a princesa da lâmina precisa descansar, não é?

— Só estava organizando meu equipamento — menti, pegando uma maçã da fruteira e me sentando num canto da mesa.

Minha mãe, Helena, me observou em silêncio por um instante, seus olhos sempre atentos. Ela tinha esse olhar que parecia atravessar a pele e enxergar o que se escondia por dentro. Mas, como sempre, não pressionou.

— Vai ser uma caçada histórica — comentou meu primo Elias, empolgado demais. — Os lobos de Lapéria são monstros. Mal posso esperar pra arrancar a cabeça de um.

Mordi a maçã e fiquei em silêncio.

Eles estavam ansiosos. Eu deveria estar também.

Mas minha mente permanecia distante, vagando entre os uivos que pareciam sussurrar no vento e a palavra que insistia em me seguir: Feendale.

Algo me esperava lá. Eu podia sentir isso como se já estivesse marcado em minha pele.

— O que te incomoda? — A voz suave da minha mãe quebrou o fluxo dos meus pensamentos. Ela se aproximou, pousando a mão com delicadeza sobre o meu ombro. Ao seu lado, meu irmão me observava com aquele olhar meticuloso de sempre.

— Nada. Só estou com um pouco de dor de cabeça — menti, sustentando uma expressão neutra.

Ela suspirou e assentiu com leveza.

— Então vá descansar, meu amor. Amanhã será um grande dia para todos nós.

Assenti e me levantei, pronta para me recolher antes que alguém resolvesse cavar mais fundo.

Mas, antes de sair da cozinha, uma mão firme agarrou meu braço.

— Antes de ir — disse meu irmão com um sorriso desafiador —, vamos apostar? Quem arrancar a cabeça do maior lobo amanhã leva mil dólares. Topa?

Soltei um suspiro curto, puxando meu braço com calma. Era sempre assim entre nós. Competição disfarçada de afeto. Sangue, suor e uma eterna disputa por reconhecimento.

— Só mil? — arqueei a sobrancelha. — Você sabe que eu sempre ganho.

Ele riu, convencido de que, dessa vez, seria diferente.

— Vamos ver amanhã.

Deixei a cozinha com passos firmes, mas o sorriso que forcei já tinha sumido antes mesmo de alcançar meu quarto. Subi as escadas lentamente. Fechei a porta. Deitei.

O silêncio me encontrou primeiro.

Depois, veio o pressentimento.

Amanhã.

Mais uma caçada. Mais uma missão.

Mas algo — talvez o destino, talvez um chamado que eu ainda não entendia — dizia que essa não seria como as outras.

E, pela primeira vez, eu não sabia se estava pronta para o que viria.

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