Narrado por Henrique
A caminho do restaurante o silêncio dentro do carro durou pouco. Onde há uma criança, o silêncio é uma raridade. No entanto, diferente da irritação cortante que eu geralmente sentia com ruídos inesperados, a voz de Chun-he, era um fio de mel no meu café amargo. Suas perguntas, simples e diretas, não me invadiam; elas me convidavam a responder com prazer.
— Tio Henrique, onde você trabalha?
— Eu, na 16ª DP — respondi, mantendo os olhos na estrada, mas com a atenção totalmente voltada para ela.
— É longe daqui?
— Não, lindinha. É bem perto.
Ela ficou quieta por um instante, processando. Eu podia quase ouvir as engrenagens girando em sua cabecinha.
— Você prende ladrão e homens maus?
— Às vezes sim, pequenina.
— Que legal! — ela exclamou, e o assombro genuíno em sua voz era uma coisa pura. — Mamãe, o tio Henrique é um herói, igual nos filmes!
O comentário inocente arrancou um raro sorriso meu. Ao encarar Anita pelo retrovisor, buscando sua reação, meu olhar vagueou,