Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2 Luto
Arthur Blackburn
Esmaguei o mapa sobre a mesa de carvalho com um soco pesado de pura frustração. Meu lobo Trevor arranhava minha mente, rosnando avisos sombrios que apertavam meu peito dolorido. O ar do escritório parecia denso demais, sufocando meus pulmões com um pressentimento terrível.
Tyron tinha saído no meio da madrugada sombria, ignorando todas as minhas ordens de alfa. Ele foi encontrar a mulher que dizia amar cegamente, desafiando o perigo das alcateias inimigas. Meu irmão caçula sempre foi movido pela paixão inconsequente e pelo calor do momento, além de confiar muito nas pessoas.
Encontrei apenas um bilhete amassado sobre a cama perfeitamente arrumada no quarto vazio dele. A caligrafia apressada dizia que ele voltaria antes do sol nascer no horizonte. Mas a madrugada já avançava e o vínculo de sangue que compartilhamos vibrava em um desespero sombrio.
A chuva começou a açoitar as janelas de vidro grosso do meu grande escritório. O som da água batendo na pedra ecoava o tumulto brutal que destruía minha paz interna. Eu sabia que as florestas vizinhas estavam repletas de mercenários gananciosos e desonestos.
Não consegui mais suportar a agonia da espera inútil trancado dentro das quatro paredes frias do meu lar.
Arranquei a camisa do corpo, sentindo os ossos estalarem enquanto a transformação tomava conta violentamente de mim. Trevor assumiu o controle, explodindo em uma enorme fera de pelagem negra brilhante.
Saltei pela janela aberta, aterrissando pesadamente na lama fofa do pátio principal da nossa fortaleza.
A chuva fria encharcava meus pelos, lavando qualquer traço de hesitação da minha mente selvagem. Eu precisava encontrar o garoto antes que a imprudência dele cobrasse um preço.
Corri pela floresta densa, farejando o ar úmido em busca do cheiro familiar de Tyron. A água apagava os rastros mais sutis, tornando minha caçada angustiante e quase impossível agora.
O cheiro de terra molhada mascarava a trilha que ele havia deixado para trás.
Forcei meus sentidos ao limite absoluto, ignorando os galhos que rasgavam minha pele floresta a dentro. A aflição crescia a cada quilômetro avançado em direção às fronteiras perigosas das terras vizinhas.
Meu irmão não tinha noção da maldade que habitava o coração daquelas pessoas, ele era bondoso demais.
O silêncio pesado da noite na Alcateia Garra de Pedra foi quebrado subitamente por terror. Um uivo longo e carregado de pura agonia rasgou o véu da madrugada chuvosa. O som congelou meu sangue nas veias, paralisando minhas patas no chão enlameado.
A dor bateu no meu peito como uma marreta de aço forjado no fogo alto.
Senti o elo fraterno se esticar e se romper brutalmente dentro da minha própria alma. Um vazio indescritível sugou todo o oxigênio dos meus pulmões em um segundo eterno.
Eu caí de joelhos na lama fria, uivando para o céu escuro em desespero puro. A morte havia levado a única pessoa que eu realmente amava neste mundo apodrecido. O menino que eu criei como um filho estava morto em algum lugar sujo.
Levantei com os olhos queimando em um vermelho vivo de pura fúria e destruição iminente. O cheiro de sangue fresco e ferro oxidado atingiu meu focinho com força e nojo. Corri na direção do odor nauseante, quebrando árvores jovens no meu caminho cego.
Cheguei a uma clareira enlameada perto da antiga fronteira que dividia as terras entre minha alcatéia e duas grandes alcateias vizinhas.
O corpo do meu irmão jazia no meio de uma poça do próprio sangue vermelho. A chuva lavava seu rosto pálido, apagando o sorriso que ele sempre costumava exibir.
Retornei à forma humana, ignorando a nudez e o frio cortante que açoitava meu corpo. Me joguei no chão ao lado dele, puxando seu corpo sem vida para os meus braços. Abracei Tyron com força, sentindo o calor abandonar sua pele gelada para sempre, os desgraçados tinham arrancado o coração dele.
O choro preso na minha garganta explodiu em um grito bestial de dor e perda. A dor de perder meu irmão era um abismo infinito que ameaçava engolir minha sanidade. Prometi protegê-lo de tudo, mas falhei miseravelmente em mantê-lo a salvo dos inimigos.
Analisei as feridas profundas no pescoço e no peito largo do meu amado irmão caçula.
Ele foi emboscado por vários lobos ferozes, atacado pelas costas sem chance de defesa alguma. Foi um massacre covarde orquestrado por alguém que sabia exatamente onde encontrá-lo desprotegido.
Notei um pedaço de papel amassado preso dentro do bolso interno da jaqueta de couro que ele usava.
Puxei o papel sujo de sangue com as mãos trêmulas pela raiva que me consumia. Era o bilhete que a maldita mulher havia mandado para atraí-lo até a morte.
A tinta estava borrada pela chuva, mas ainda era possível ler o convite fatal escrito. Me encontre na fronteira de sempre, meu amor, dizia a caligrafia delicada e venenosa dela.
O ódio borbulhou nas minhas veias como ácido derretendo minhas últimas barreiras de controle.
Virei o papel rasgado e encontrei a prova definitiva da traição suja e extremamente covarde. O símbolo de cera derretida no canto do bilhete não deixava nenhuma dúvida do crime. Era o brasão oficial da família principal que governava as miseráveis Terras Altas.
Aquela maldita havia arquitetado o assassinato do meu sangue por moedas sujas. A culpa me corroía por não ter impedido esse romance secreto antes que fosse tarde. Eu devia ter matado aquela mulher no instante em que soube do envolvimento deles.
Levantei o corpo do meu irmão com cuidado, o colocando sobre os meus ombros largos.
O peso da morte dele era como chumbo afundando minha alma em um oceano de trevas. Comecei a caminhada lenta e dolorosa de volta para os portões da nossa casa.
Cada passo na lama afundava mais o prego do remorso dentro do meu coração despedaçado. Trevor chorava no fundo da minha mente, lamentando a perda do seu jovem irmão de alma.
Nós estávamos completamente quebrados, mas a fúria nos manteria de pé e vivos.
Prometi sobre o sangue derramado do meu irmão que faria os responsáveis implorarem pela morte. A mulher das Terras Altas conheceria a fúria implacável do Alfa da Garra de Pedra. Eu destruiria tudo o que eles amavam antes de arrancar seus corações do peito.
O céu chorava comigo enquanto eu atravessava os limites seguros do meu próprio e vasto território. Os guardas vieram correndo, os rostos pálidos refletindo o horror da cena que viam. O silêncio sepulcral tomou conta da alcateia inteira diante da nossa tragédia tão brutal.
Entreguei o corpo para o curandeiro, sentindo meus braços ficarem vazios e incrivelmente gelados, eu sabia que não havia nada a ser feito, mas ainda assim ordenei que ele tentasse, mas é claro que foi em vão.
A dor da perda se cristalizava em uma pedra de gelo puro dentro do estômago. Eu não descansaria até ver a cabeça do responsável rolar aos meus próprios pés.
Me tranquei no escritório, novamente encarando o brasão de cera manchado de sangue sobre a mesa. Eu precisava de um plano perfeito para destruir aquela família falida sem levantar suspeitas, a vingança precisava ser lenta, dolorosa e calculada em cada um dos seus detalhes.
Meus informantes confirmaram minhas suspeitas durante uma manhã fria alguns dias após a morte dele. A filha do Alfa Gileon havia recebido um pagamento suspeito logo após o assassinato cruel. Ela vendeu o amor do meu irmão por algumas moedas de ouro sem valor.
Uma mulher orquestrou a queda do meu sangue, manipulando os sentimentos de um menino bom. Eu vou fazê-la pagar com a própria alma, trancada na minha fortaleza como um animal, lamentando cada dia que ela viver, e o problema é que nossa vida é muito, muito longa.
A justiça da nossa matilha exige dor em dobro para quem derrama nosso sangue.
Olhei pela janela, observando o túmulo recente que foi cavado no pátio dos nossos amados ancestrais. A chuva continuava caindo, mas não era suficiente para lavar o ódio do meu ser. A guerra silenciosa contra as Terras Altas tinha acabado de começar de forma letal, eles não sabiam onde tinham se metido.







