Capítulo 4 O Acordo

Capítulo 4 O Acordo 

Arthur Blackburn 

Enterrei meu irmão sob a tempestade implacável que desabava sobre nossa alcateia em ruínas. A terra fofa e molhada engoliu o corpo dele com uma fome desumana. O ódio instantaneamente se transformou em uma armadura impenetrável ao redor do meu coração destroçado.

 Uma garota mimada, gananciosa e vil, fez o coração dele ser arrancado, e eu faria ela querer arrancar o dela, pra escapar de mim. Meu lobo rugia por vingança, exigindo invadir o território inimigo e rasgar a garganta dela. Mas meus princípios absolutos me impediam de simplesmente assassinar uma mulher desarmada a sangue-frio.

Matar uma fêmea indefesa quebrava as leis sagradas que governavam nossa alcateia desde os primórdios, mesmo ela merecendo. 

Eu não mancharia a honra do meu bando descendo ao mesmo nível rasteiro daqueles covardes. No entanto, ela precisava pagar com a própria sanidade pela dor que causou à minha família.

Voltei para o escritório frio, deixando as roupas encharcadas colarem na minha pele dolorida. Peguei uma pena e um pergaminho grosso, traçando um plano sombrio e cruelmente perfeito. 

Decidi criar uma armadilha nupcial para arrancar aquela assassina do conforto de sua maldita casa.

Eu sabia que o Alfa Gileon estava afundado em dívidas impagáveis até o pescoço. A falência daquela matilha era um segredo mal guardado entre os líderes das regiões vizinhas. A ganância doentia dele seria a isca perfeita para atrair a garota para a minha jaula.

Redigi uma proposta oficial de casamento, oferecendo um dote milionário que cobriria todas as dívidas daqueles malditos. Eu solicitei a mão da filha do Alfa em troca da salvação financeira daquela terra, garantindo que ele enviaria a garota que arruinou minha paz. Junto com o contrato, que já mandei assinado e só faltava a assinatura dele, enviei uma nota.

Nela eu dizia que perdi meu herdeiro recentemente, não tenho filhos e meu irmão seria o próximo alfa da matilha, com a morte dele eu precisava me casar, mas como não estava com cabeça para procurar uma noiva decidi fazer um acordo, que seria Benício para as duas alcatéias. Também disse para ele não contar a ninguém que eu já descobri o culpado pela morte do meu irmão, foi um bando da alcatéia do leste.

Como prova da minha boa intenção com o contrato enviei com os guardas um terço do valor adiantado, para ser entregue assim que ele assinasse.

O dinheiro era apenas a corda perfumada com a qual aquela família se enforcaria no final. A assassina pensaria que tinha tirado a sorte grande ao casar com o Alfa mais rico. Ela caminharia para o abate sorrindo, cega pelo brilho do meu ouro forjado no fogo. E falar que o bando leste era culpado iria deixar ela tranquila, imaginado que sairia impune.

Quando ela cruzasse os portões da minha fortaleza, conheceria o verdadeiro inferno na terra. Eu não a mataria, mas garantiria que ela implorasse pela morte todos os dias miseráveis. Ela seria humilhada, trancada e esmagada sob o peso da culpa que ousou ignorar até agora.

Selecionei meus guardas de confiança para entregar a carta e os baús de ouro como demonstração. O som das moedas batendo contra a madeira ecoava a sentença de condenação daquela garota. Ela vendeu meu irmão por moedas, e agora eu a comprava com o mesmo metal, afinal eu tinha muito, isso não faria falta. Meu irmão, sim, ele fazia e muita.

Trevor estava inquieto, arranhando minha sanidade com garras forjadas no ódio absoluto pela dor da perda. Ele queria dilacerar a fêmea falsa, mas eu impus o controle racional sobre o instinto. A vingança lenta era muito mais destrutiva do que a morte rápida e indolor na floresta.

Eu observei a comitiva partir através da névoa espessa que encobria o grande vale profundo. 

O frio nas minhas entranhas era constante, substituindo o calor fraternal que costumava me aquecer. O Alfa implacável assumiu o comando total da minha vida esvaziada por aquela morte tão injusta.

Minhas noites se tornaram vigílias silenciosas regadas a uísque barato e dor enraizada no peito. A cadeira vazia de Tyron no salão principal era um lembrete diário do meu grande fracasso. 

Prometi proteção, mas falhei na única missão que meu falecido pai me confiou no leito de morte.

O remorso tentava me sufocar durante as madrugadas escuras na grande casa perfeitamente silenciosa. Mas eu convertia essa dor em fúria focada contra a maldita mulher que destruiu nossa família. Cada moeda enviada era um prego no caixão da liberdade que ela tanto prezava antes.

Preparei as masmorras mais profundas e geladas para receber a futura senhora das nossas terras. Não haveria vestidos de seda ou banquetes luxuosos para a criminosa de rosto sorridente e falso. O chão de pedra e as correntes frias seriam o único luxo que ela conheceria.

Reuni os líderes do nosso conselho para comunicar a decisão irrevogável que acabei de tomar. 

Muitos questionaram a aliança com uma alcateia tão desprezada e falida como as Terras Altas. Eu os silenciei com um rugido gutural que fez os ossos deles tremerem de medo puro.

Ninguém ousava desafiar as ordens do Alfa Soberano dessas terras, quando meu olhar brilhava na escuridão até o lobo mais corajoso silenciava em submissão total. 

O silêncio voltou a imperar na sala de reuniões enquanto eu explicava o plano raso. Eu não queria nem precisava da aprovação deles para o casamento, mesmo eles desconhecendo as motivações sombrias e sangrentas por trás das minhas ações.

A paciência nunca foi a minha maior virtude na hora de exercer a liderança dessa grande matilha poderosa, quando o assunto era guerra. E essa mulher declarou guerra, no momento em que traiu meu irmão.

 Os dias se arrastavam como vermes na lama seca enquanto eu aguardava a resposta de Gileon. Eu tinha absoluta certeza de que o desespero financeiro o faria aceitar a proposta imediatamente.

Eu imaginava a festa de comemoração na casa deles enquanto o sangue do meu irmão secava. A garota devia estar comprando vestidos novos e sonhando com o poder infinito que lucraria. A queda dela seria tão alta que quebraria todos os fragmentos da sua alma corrompida e inútil.

Ordenei que os preparativos para o falso casamento fossem simples e extremamente frios. A cerimônia seria apenas um contrato assinado com sangue sob a luz do sol opaco. Eu não tocaria na assassina do meu irmão, apenas imaginar me causava  repulsa e desdém nojento.

O tempo curava muitas feridas terríveis, mas a morte de Tyron era um ferimento impossível de se curar. 

O buraco no meu peito sangrava veneno todos os dias, alimentando a fera sombria dentro de mim, Trevor quando estava com ódio era imparável. Meu único consolo seria ouvir os gritos desesperados da culpada ecoando nas  m duras paredes das masmorras.

Os guardas retornaram dias depois, trazendo a resposta esperada e previsível do Alfa tirano.

 O acordo estava selado com a assinatura maldita e a promessa da entrega rápida da noiva. Gileon havia vendido a própria filha sem hesitar por um único segundo na vida dele.

Sorri de forma diabólica, sentindo o gosto da vitória preencher o vazio na minha boca. A armadilha perfeita estava montada, aguardando apenas que a presa caísse sorridente e ignorante nela. O inferno estava de portas abertas para receber a nova residente oficial da nossa casa.

Eu me preparei para o encontro tão aguardado, vestindo minha armadura de frieza calculista e cruel. Não haveria clemência nos meus olhos quando o momento do acerto de contas finalmente chegasse. O monstro que eles criaram nas minhas entranhas estava pronto para devorar qualquer esperança de luz.

Eu olhava para a lareira acesa, vendo o fogo dançar como almas no abismo ardente.

 A vingança era um prato que eu comeria frio, saboreando cada pedaço da destruição dela. Tyron seria vingado com justiça lenta, e o lobo dela choraria lágrimas de puro sangue.

Trevor rosnava alto na minha mente alerta, sentindo a proximidade do confronto que tanto esperávamos. A caçada não acabou na floresta chuvosa onde a traição maldita tirou o meu irmão. Ela estava apenas começando dentro dos muros altos da fortaleza impenetrável da Garra de Pedra.

Eu amaldiçoei o nome da família das Terras Altas com todo o fôlego dos meus pulmões. A guerra estava declarada, mas seria travada nos bastidores sombrios de um casamento completamente falso. Eles colheriam a tempestade devastadora que ousaram semear no meu outrora pacífico e feliz território.

Terminei meu copo de bebida ardente, sentindo o calor rasgar a garganta até o estômago. 

O dia do falso casamento se aproximava rapidamente, e eu estava pronto para executar tudo. O destino trágico dela já estava traçado pelas minhas próprias mãos. Eu mal podia esperar…

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