Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3 Dinheiro sujo
Anelise Lightmoon
Raley retornou da densa floresta com os olhos sombrios brilhando de pura ganância. As mãos dela tremiam levemente enquanto seguravam um saco pesado cheio de moedas de ouro. O sangue fresco manchava as bordas do tecido sujo, exalando um cheiro terrível de morte.
Eu assisti escondida das sombras do corredor enquanto ela trancava a porta do próprio quarto.
A euforia doentia dela me causava repulsa, embrulhando meu estômago com a crueldade da cena. Alguém tinha perdido a vida para que ela pudesse sorrir com aquela riqueza maldita, pelo que parecia.
Me aproximei sorrateiramente da porta entreaberta, observando pela pequena fresta na madeira gasta pelo tempo.
Vi minha meia-irmã esconder o tesouro roubado no fundo falso do seu grande armário esculpido. Ela gargalhava baixinho, celebrando a desgraça que acabou de provocar na vida de alguém.
Minha loba Meire ruge em protesto violento dentro da minha mente cansada de tanta dor. Ela sentia a energia escura e podre que emanava daquelas roupas manchadas de sangue fresco. Uma vida inocente havia sido ceifada pela vaidade fútil da garota mais cruel daqui.
A raiva superou o meu medo constante e eu empurrei a porta de madeira velha. Entrei no quarto luxuoso dela, encarando os olhos surpresos e irritados da assassina sorridente. Questionei de quem era o sangue que sujava as mãos e as roupas caras dela.
Ela sorriu com deboche, caminhando lentamente na minha direção como uma víbora pronta para atacar.
Disse que era de um tolo, que lobos tolos mereciam morrer por confiar demais nas pessoas. O cinismo e a maldade nos olhos dela formavam um veneno extremamente letal e cruel. Falei que ela não podia agir assim.
Antes que eu pudesse correr para contar o que ela fez, uma mão pesada agarrou meu pescoço por trás. Fui arremessada no chão com brutalidade, batendo as costelas na madeira dura do piso frio. Meu pai estava parado na porta, os olhos faiscando com um ódio cego por mim.
Tentei explicar que Raley tinha matado alguém, apontando para o sangue evidente nas roupas dela. Gileon apenas desferiu um tapa violento no meu rosto, rachando meus lábios instantaneamente com o impacto. O gosto metálico de sangue invadiu minha boca enquanto eu caía deitada no chão.
Raley riu da minha desgraça, comemorando ao ver meu sofrimento nas mãos do nosso pai tirano.
Meu pai caminhou até ela, ignorando completamente meu corpo caído e ferido no piso sujo. Ele questionou, com a voz carregada de interesse, se ela iria esconder aquele dinheiro todo.
Ela negou imediatamente, entregando o saco ensanguentado nas mãos gananciosas do Alfa da nossa matilha. Gileon sorriu ao ver o ouro puro, os olhos brilhando com a mesma loucura doentia dela. Ele não fez uma única pergunta sobre o cadáver que financiou aquele grande tesouro maldito.
O dinheiro cobriria uma fração das dívidas absurdas que nosso pai tinha acumulado nos últimos anos difíceis. A falência batia à nossa porta há muito tempo, e a ganância justificava qualquer crime horrível para ele, a mãe administração e os gastos excessivos acabaram esvaziando nossos cofres. Pelo visto a vida de um lobo inocente era um preço aceitável para manter as aparências deles.
Fui puxada pelos cabelos de forma violenta, sentindo o couro cabeludo rasgar sob a força. Fui arrastada pelo corredor como um saco de lixo inútil sendo jogado fora no escuro. As unhas do meu pai cravaram na minha pele, marcando meus braços com hematomas roxos.
Ele me jogou de volta no sótão empoeirado, trancando a porta de madeira pesada rapidamente.
Mas antes de ir gritou que eu deveria esquecer tudo o que vi, ou arrancaria minha língua fora sem pena, afinal eu não precisava dela paga trabalhar. A escuridão do quarto me abraçou enquanto eu chorava silenciosamente pela vítima sem rosto.
A dor no meu rosto latejava no mesmo ritmo descompassado do meu coração assustado e triste.
Meire arranhava as paredes da minha mente, enfurecida pela injustiça e pela nossa fraqueza absoluta. Nós precisávamos fugir desse inferno antes que fôssemos mortas por saber daquele terrível segredo sangrento, mesmo que na verdade não soubéssemos de nada concreto.
Encostei a testa na parede fria, sentindo o calor das lágrimas molharem minhas bochechas machucadas. A crueldade da minha família não tinha limites ou escrúpulos quando o assunto envolvia dinheiro. Eu estava presa a monstros que vestiam pele de humanos e fingiam nobreza diariamente.
Passei a noite inteira encolhida no canto do quarto, tremendo com o frio do inverno. A imagem das mãos sujas de sangue de Raley não saía dos meus pesadelos curtos. Ela recebeu pela morte de alguém, será que ela mesma executou a pessoa? Eu não sei se ela seria capaz de fazer isso pessoalmente, mas se não foi isso o que será que ela fez?
A culpa pesava nos meus ombros como chumbo, mesmo que eu não tivesse feito nada, talvez se eu tivesse seguido ela ontem a noite…
Por outro lado eu sabia que os guardas jamais deixariam eu passar pelos portões.
Mas agora a desgraça estava feita e eu pertencia àquela linhagem maldita, o pecado deles manchava a minha alma por tabela. Eu queria poder voltar no tempo e tentar impedir ela.
Alguns dias depois, os guardas sussurravam sobre a morte trágica de um jovem lobo vizinho. Disseram que o irmão do poderoso Alfa da Garra de Pedra havia sido brutalmente assassinado. O terror invadiu meu peito ao perceber a dimensão absurda do crime que Raley cometeu, eu já ouvi esse nome, não poderia ser coincidência, ele tinha sido namorado dela.
Arthur Blackburn o Alfa irmão dele, era conhecido bom líder e cuidar de sua matilha, mas também por ser impiedoso, cruel e invencível em qualquer batalha, ele não perdoava seus inimigos. Ele destruiria as Terras Altas se descobrisse que a culpa era da nossa família da casa principal. Minha meia-irmã tinha assinado a sentença de morte de toda a nossa maldita alcateia.
Fui chamada para limpar a grande sala de jantar antes que o sol estivesse alto. Esfreguei a mesa de madeira comprida, sentindo a tensão vibrar no ar denso da casa.
Limpei as taças de cristal com cuidado redobrado para não chamar a atenção dos tiranos. Qualquer erro bobo resultaria em mais açoites e humilhações públicas na frente dos empregados fofoqueiros. Eles gostavam de me ver apanhar.
A sobrevivência exigia que eu fosse invisível e silenciosa como uma sombra nas paredes úmidas.
Observei Raley descer as escadas com a arrogância intocável que sempre definiu sua personalidade nojenta. Ela usava joias novas, compradas com o sangue do homem que a amou de verdade. O sorriso nos lábios dela era um tapa na cara da justiça que não existia ali.
O ódio floresceu no meu peito, uma planta espinhosa sufocando o resto da minha empatia.
Eu desejei que Arthur descobrisse a verdade e queimasse aquele palácio com todos eles dentro. A vingança dele seria a única forma de purificar a sujeira que impregnava nossa própria casa. Diziam que ele poupava os inocentes. Então eu queria muito que ele acabasse com todos aqueles desgraçados, pois tinha certeza que as crianças não seriam feridas. Eu não me importava se morresse junto, pelo menos a morte seria melhor que minha vida atual.
Voltei para a cozinha, ignorando a dor aguda na minha costela machucada pela última queda, só tenho 18 anos, então ainda demoro para me curar, e como trabalho e apanho muito e não me alimentam direito, faz minha cura ser muito lenta. Meire rosnava de satisfação ao pensar na destruição iminente daquelas pessoas terríveis que nos torturavam. Nós seríamos varridas junto com eles, mas pelo menos a justiça divina seria finalmente feita.
Lavei as panelas pesadas de ferro com a mente distante, presa nos acontecimentos recentes.
A morte rondava nossas cabeças como um abutre esperando o momento exato de atacar violentamente. A ignorância deles sobre o tamanho do perigo era a maior arma do nosso grande inimigo.
Eu me recusei a chorar novamente por quem não tinha salvação ou conserto neste mundo. Minha armadura emocional estava forjada na dor constante e na completa falta de esperança. Aceitei meu destino sombrio, esperando que a tempestade levasse tudo pelos ares de uma vez.
O relógio bateu as horas arrastadas enquanto o medo tomava conta silenciosamente da fortaleza. Eles não imaginavam que algo terrível estava prestes a bater violentamente em nossa grande porta da frente. A contagem regressiva para a destruição das Terras Altas havia começado sem volta ou perdão. Eu podia sentir isso.







