Capítulo 5 Maldito ouro

Capítulo 5 Maldito ouro

Anelise Lightmoon 

Fiquei sabendo da carta e do terrível acordo de casamento enquanto esfregava o chão do salão. Eu trabalhava arrumando tudo para a grande festa luxuosa, mas não seria convidada para a cerimônia. O palácio inteiro entrou em polvorosa com a chegada da rica comitiva nupcial inimiga.

A Alcateia Garra de Pedra enviou carruagens escuras carregando pesados baús repletos de ouro puro. 

Eles me fizeram limpar tudo, pensando que o Alfa viria pessoalmente, mas ele não veio. Eu assisti dos cantos escuros da casa enquanto meu pai celebrava a própria salvação financeira. Ele comemorava o pagamento das dívidas com a venda rápida da sua filha predileta, exaltando a beleza dela e o qual cara foi sua mão.

Raley aceitou imediatamente ao saber que o noivo arranjado era o temido e poderoso Alfa Arthur Blackburn.

 Ele era o lobo mais rico e prestigiado da região inteira, famoso por sua enorme fortuna. A ganância cegou a assassina, fazendo ela esquecer o sangue que manchava aquelas mesmas moedas ricas.

Sinto uma pontada aguda de tristeza pelo alfa poderoso que não conhece a terrível verdade. Coitado do homem que está comprando uma víbora cruel pensando estar levando uma companheira fiel. Ele não sabe que vai se casar com o verdadeiro diabo vestido em roupas caras.

A mansão inteira fedia a flores caras e perfumes enjoativos espalhados por todos os corredores. Eu carregava as bandejas pesadas de prata para os convidados ilustres e ignorantes do crime dela. Minha presença era invisível para eles, apenas um fantasma exausto servindo comida para as pessoas. Os soldados iriam comer e descansar antes de retornar.

Raley zombou da minha miséria profunda após assinar os papéis do pré-tratamento do casamento arranjado. Ela balançou a caneta de ouro na minha direção, o sorriso cruel iluminando o rosto dela. Disse com veneno que ninguém daria um único centavo furado por uma bastarda como eu. O engraçado é que a bastarda era ela. Essas terras sempre pertenceram a família da minha mãe. Meu pai se tornou líder porque logo após se casar com minha mãe que era filha única os pais dela morreram.

Abaixei os olhos para o chão limpo, engolindo o orgulho ferido que queimava minha garganta. A provocação dela não surtia mais o efeito desejado na minha mente anestesiada de dor. Eu apenas queria que ela fosse embora logo me deixasse em relativa paz, ela era culpada da maioria das minhas surras. Por outro lado eu estava triste pelo noivo enganado.

Meire se agitava no fundo da minha alma machucada, sentindo um perigo invisível pairando no ar. A intuição da minha loba sempre foi precisa quando se tratava de tragédias e desastres iminentes. Havia algo de muito errado naquele acordo repentino de casamento com o Alfa poderoso vizinho.

O Alfa Arthur era conhecido pela implacabilidade, não pela caridade com alcateias falidas e orgulhosas.

 A oferta de pagar todas as nossas dívidas exorbitantes soava como uma grande armadilha armada, meu pai nunca foi muito inteligente, ele não desconfiava de nada, a palavra ouro o cegava, além disso ele não sabia que sua filhinha tinha sido namorada do irmão de Arthur, eu mesma descobri um dia por acaso, mas não iria falar nada. Tenho certeza que o destino se encarregará de fazer justiça.

Mas a arrogância de Gileon o impedia de enxergar o laço apertando ao redor do pescoço.

A noiva desfilava pela casa usando joias novas e vestidos que custavam mais que vidas, literalmente. Raley ostentava o anel de noivado brilhante como um troféu conquistado após uma batalha sangrenta. Pensar no jovem lobo morto na floresta assombrava meus pensamentos sempre que eu olhava para ela.

Os preparativos para a partida dela consumiram todas as minhas energias durante longas semanas. Eu arrumava as malas extravagantes dela enquanto minhas próprias roupas estavam caindo aos pedaços sujos. A injustiça cósmica ria da minha cara todos os dias, sem nenhuma chance de alívio, eu que nunca fiz mal a ninguém ficava ali sofrendo, enquanto eles se esbaldavam com suas maldades.

Maya, minha meia-irmã caçula, me observava trabalhar com olhos grandes e assustados no canto do quarto. A menina de oito anos era a única criatura pura que restava neste lugar podre. Ela segurava um urso velho, alheia à maldade que governava nossa maldita e corrupta família.

Entreguei um pedaço de pão escondido para a menina faminta, sorrindo tristemente para o rosto doce.

 Ela era tolerada pelo meu pai, mas também sofria com a negligência cruel daquela casa. A existência dela era o único motivo pelo qual eu ainda lutava para respirar aqui.

Raley flagrou o pequeno momento de afeto e chutou o urso de pelúcia da criança. A menina chorou baixinho, recolhendo o brinquedo sujo com mãos trêmulas de medo puro. A bruxa ordenou que eu voltasse ao trabalho imediatamente ou mandaria me açoitar no pátio.

O ódio subiu pela minha garganta como ácido queimando cada centímetro da minha enorme paciência. Meire rosnou alto, quase tomando o controle para arrancar a garganta da nossa agressora ali mesmo. Forcei a submissão, baixando a cabeça e voltando a esfregar as ricas botas de couro. Se eu fosse açoitada ficaria presa no sótão por mais de três dias e então Maya não comeria, essa era a pior parte, ver a menina com fome, porque eu era a única que alimentava ela, com o pouco que eu podia.

Sâmia supervisionava os últimos detalhes com a petulância de uma rainha que conquistou o mundo inteiro. Ela destilava ordens absurdas, exigindo perfeição para o casamento da sua filha assassina e cruel. O cinismo daquela mulher me causava calafrios na espinha cansada pelo trabalho árduo diário.

Eu estava encarregada de limpar o escritório de Gileon após as intensas negociações do contrato assinado, já que ele não queria empregados olhando suas coisas pessoais.

 Encontrei uma cópia do acordo esquecida sobre a mesa bagunçada de madeira escura e velha. Meus olhos leram as cláusulas milionárias que selavam o destino da bruxa maldita com rapidez.

Uma cláusula específica chamou minha atenção angustiada, fazendo meu sangue gelar nas veias instantaneamente. Se a noiva não comparecer ao casamento, uma multa impagável  destruiria nossa alcateia. A Garra de Pedra tomaria nossas terras e escravizaria todo o nosso povo sem piedade alguma caso não fosse pago.

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