Capítulo 6 A Grande chantagem

Capítulo 6 A Grande chantagem

Anelise Lightmoon

Sai de perto  do papel rapidamente, sentindo o pânico apertar meu coração já fragilizado pela agonia constante. O Alfa Arthur não estava brincando de casar, ele estava garantindo a destruição total da presa caso o casamento falhasse, como meu pai não percebeu que isso é uma armadilha? Não é possível que a ganância o tenha deixado tão burro. 

Eu sabia que Raley não era fiel a ninguém além de si mesma e do luxo, Gileon confiou o futuro da alcatéia a ela com esse acordo.

A noite caiu espessa e gélida, e a ansiedade corroía meus ossos durante o banho frio, que eu estava tomando com a água colhida da chuva em um balde. Eu esfregava o sabão barato de lavar roupa na pele machucada, que ardia, cada pedacinho de sabão que seria jogado fora eu guardava para o banho. Lavei meu vestido de trapos e pendurei em uma cordinha improvisada. Me enrolei no canto com meu velho cobertor, molhada e  tremendo de frio pelo vento que entrava pelas frestas, sentindo a tempestade se tornar mais forte no horizonte negro.

Ouvi sussurros suspeitos vindos do corredor mal iluminado enquanto tentava parar de tremer para dormir um pouquinho. Raley conversava baixinho com alguém. Ela estava armando algo terrível às vésperas de partir para o castelo do seu noivo. Mas eu não me importava mais, amanhã ela iria embora e nada do que ela fizesse poderia mais me ferir ou ferir a Maya. Esse foi meu último pensamento antes de dormir, eu não sabia que poderia estar tão errada sobre isso.

O sol nasceu cinzento, iluminando o dia do terrível em que ela deveria partir para o casamento. A fortaleza do noivo aguardava a chegada da assassina vestida de branco e coberta de mentiras.  A hipocrisia daquelas pessoas sorridentes embrulhava meu estômago. A nossa matilha celebrava a glória sem perceber a lâmina afiada encostada diretamente nos próprios pescoços expostos.

Eu me afastei do barulho para encontrar um pouco de paz no pequeno jardim abandonado. As flores murchas refletiam minha própria existência patética dentro dessa casa cheia de pura maldade. O vento frio beijou meu rosto, a única carícia que recebi em muitos anos terríveis.

O silêncio do jardim me deu forças para encarar as horas de humilhação que se seguiriam. 

Eu sobreviveria ao caos que estava por vir, mesmo que o mundo inteiro desabasse violentamente. Minha armadura de indiferença me protegeria do castigo que não era meu, hoje eu não estava trabalhando, ao invés disso fui arrastada do sótão para o quarto de Raley por Gileon, lá ele me disse que sua preciosa filha fugiu durante a madrugada.

Ela deixou uma carta contando toda a verdade, ela participou da armadilha que levou Tyron Blackburn a morte, o ouro manchado de sangue veio com um enorme preço. Ela foi informada de que o Alfa Arthur descobriu tudo e planejou o casamento para punir ela, eternamente. Então ela fugiu, mesmo sabendo que o acordo selava o destino da alcatéia. E Gileon não iria pagar o preço. Eu iria, o peso daquela farsa recaiu sobre meus ombros.

Eu tentei recusar, disse que eu não poderia me passar pela noiva que o Alfa esperava receber, mas meu pai disse pela primeira vez na vida que eu era a herdeira legítima, sua primogênita, as palavras vieram cuspidas e com ódio, eu preferia nunca ter ouvido elas. Em seguida ele disse que enfim achou uma serventia melhor pra mim, servir como a puta do Alfa que pagou caro por uma filha legítima. Então sim, pra isso eu serviria.

Humilhada eu disse que preferia a morte a ter que pagar por um crime que não cometi, e então o desgraçado sem escrúpulos perguntou friamente: 

— Quanto vale seu orgulho? Se sua vida não importa vou te mostrar que existe uma única coisa no mundo que você ama e eu tenho o poder de destruir ela.

Dito isso, ele abriu a porta e um guarda entrou com Maya, ele a pegou pelos braços e apontou uma adaga para o pescoço dela. E então veio o ultimato.

— Ou você se casa e mantém o segredo para sempre, ou eu vou surrar Maya como surro você, todos os dias e vou manter ela presa e sem alimento ou água até você decidir.

Olhei para minha irmãzinha, pequena, inocente, ela estava chorando, terrivelmente assustada, eu não tinha escolha, jamais seria a causa do sofrimento dela. Se eu pudesse poupar ela disse então eu faria.

— Se eu me casar, o senhor vai alimentar ela todos os dias e não vai surrar ela ?

— Sim, porém se você tentar dar uma de esperta e revelar a verdade para seu marido, pensando que ele te ajudaria, saiba que eu mato ela antes dele conseguir chegar aqui. Essa menina é minha garantia. Esse segredo morre aqui. 

— Eu vou me casar e manter a boca fechada, mas poupe ela, por favor.

O monstro sorri ao ver minha submissão. Ele abre a porta e manda Maya sumir dali, ele não me permitiu me despedir dela. Em seguida ele mandou a mulher dele entrar no quarto com várias empregadas, eu ainda estava enrolada no meu cobertor. Ele mandou me darem banho, chamar o curandeiro para curar as feridas recentes em meu corpo e me deixarem apresentável, para me parecer a filha amada de um Alfa.

Meus minutos de paz são interrompidos quando meu pai vem me buscar para me levar até a comitiva que vai me levar até meu noivo. Ele e sua esposa vão até lá também, para manter a fachada. Mas vão em outra carruagem, pois não suportam me ver vestida como uma nobre. Antes de fechar a porta da carruagem, as palavras de despedida dele foram: 

Aconteça o que acontecer lá, mantenha o segredo ou Maya pagará, ele pode fazer o que quiser com você, não me importo, me sinto até aliviado pela Raley ter fugido.

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