A estrada até a cidade parecia mais longa do que nunca. Isabella dirigia devagar, as mãos firmes no volante, o olhar perdido além do asfalto. A fazenda ficara para trás por algumas horas, mas o cheiro, os ruídos, as responsabilidades — tudo ainda estava nela.
No banco do carona, o lenço azul de Seu Anselmo vinha com ela.
“Se ele acordar e não me ver lá... ele vai brigar.” Ela sorriu sozinha, mas sua garganta apertava.
Chegou ao hospital perto do fim da tarde, quando o sol tingia as paredes de laranja pálido. O estacionamento estava cheio, mas pareceu vazio demais quando a porta do elevador se abriu no corredor silencioso da ala clínica.
O cheiro de desinfetante sempre lhe causara uma inquietação antiga — da época em que acompanhava a avó em consultas. Agora, aquele cheiro carregava o peso do presente. Antes de chegar ao quarto, ela o viu. Rafael, sentado no banco do corredor, cabeça baixa, o caderno no colo. O violão encostado na parede ao lado dele, como se fosse guarda que se recusa