O amanhecer chegou preguiçoso, envolto em uma neblina fina que parecia sussurrar segredos à fazenda. O cheiro de café fresco se misturava ao de terra molhada, e o galo ainda cantava preguiçoso no terreiro.
Rafael acordou antes do sol nascer. Não conseguira dormir direito — o convite de João ecoava na cabeça como uma canção repetida demais. A ideia de voltar a cantar, de se ver de novo diante de um microfone, o fazia sentir algo que há muito não sentia: medo e esperança juntos. Sentou-se à beira da cama, passando as mãos pelos cabelos. O violão, encostado na parede, parecia olhar pra ele, cúmplice.
— O que é que eu faço agora, hein? — murmurou, tocando uma corda solta.
A nota reverberou suave, cortando o silêncio do quarto.
No café da manhã, Seu Anselmo lia o jornal dobrado, e Isabella mexia distraída o açúcar no copo de leite. Ninguém falava nada — o tipo de silêncio que só aparece quando há algo que todos pensam, mas ninguém quer dizer primeiro. Foi Rafael quem quebrou o ar imóvel.
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