O teatro estava cheio naquela noite. Luzes quentes, murmúrios ansiosos, o cheiro inconfundível de madeira antiga misturado à expectativa. Rafael aguardava nos bastidores com o violão apoiado contra o corpo, os dedos inquietos, o coração em um compasso diferente do habitual. Não era nervosismo de palco — era outra coisa, mais funda, pensava em Clara.
Pensava no jeito como a filha fechava a mãozinha ao sentir seu dedo, no peso leve do corpo dela adormecido em seu peito, na forma como o mundo inteiro parecia ter se reorganizado desde que ela chegara. Havia canções que nasciam da dor, outras do sonho. Aquela noite, porém, pedia algo novo: uma canção que nascesse da continuidade.
O produtor avisou que estava na hora, Rafael respirou fundo e caminhou até o centro do palco sob aplausos calorosos. O público o recebeu como sempre, mas havia algo no olhar dele que denunciava um silêncio especial guardado para o fim.
Começou com músicas conhecidas. A voz segura, o violão preciso, o corpo entregu