Capítulo 05

Passei a noite inteira irritada com Lion Volkov.

Irritada de verdade.

Não daquele tipo infantil de irritação passageira que desaparece depois de um banho quente ou algumas horas de sono. Era uma irritação profunda, insistente, que continuava queimando dentro do meu peito mesmo horas depois de sair da galeria.

Talvez porque eu odiasse homens arrogantes.

Ou talvez porque Lion fosse o tipo de homem acostumado demais a controlar tudo ao redor sem jamais ser contrariado. E eu simplesmente me recusava a ser mais uma pessoa abaixando a cabeça para ele.

Na manhã seguinte, acordei ainda pensando na conversa da noite anterior.

No tom seco.

Na forma como ele descartou completamente minha opinião.

Naquela postura absurda de homem que acreditava estar sempre certo.

Revirei os olhos sozinha enquanto terminava de prender o cabelo diante do espelho do banheiro.

— Idiota arrogante — murmurei baixinho.

Ainda assim, pouco depois das oito da manhã, eu já atravessava novamente as enormes portas de vidro da Volkov Art Gallery como se nada tivesse acontecido.

Porque, no fim das contas, eu precisava daquele emprego.

E também porque uma parte irritante de mim se recusava a demonstrar fraqueza diante dele.

O dia começou movimentado.

Funcionários corriam pelos corredores organizando detalhes do leilão enquanto caixas protegidas circulavam entre os andares acompanhadas por seguranças vestidos de preto. Helena passou boa parte da manhã resolvendo problemas relacionados à lista de convidados internacionais, o que me deixou responsável pelas alterações exigidas por Lion na disposição das obras principais do evento.

Mesmo achando aquilo uma completa burrice.

Passei horas reorganizando mapas da exposição enquanto tentava ignorar a frustração crescente dentro de mim.

A disposição original fazia sentido.

Criava narrativa visual.

Conduzia o visitante naturalmente entre os períodos artísticos.

Mas não.

O senhor Lion Volkov decidiu destruir tudo porque claramente o universo girava ao redor da opinião dele.

Maravilhoso.

Já passava do meio-dia quando precisei subir até o quinto andar para conversar com Daniel, um dos funcionários responsáveis pela montagem da exposição principal. Peguei alguns documentos e caminhei até o elevador principal ainda irritada demais para pensar direito.

As portas metálicas se abriram rapidamente.

Entrei.

E imediatamente me arrependi de ter levantado os olhos.

Lion Volkov vinha caminhando pelo corredor poucos metros adiante.

Vestia preto outra vez.

Calça social escura perfeitamente alinhada ao corpo alto, camisa negra ajustada aos ombros largos e o paletó pendurado displicentemente sobre um dos braços. Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados, como se ele tivesse passado as mãos por eles várias vezes ao longo da manhã.

Mesmo de longe, sua presença parecia dominar completamente o ambiente.

Ridículo.

Ignorei imediatamente.

Passei por ele como se não o tivesse visto.

Como se sua existência fosse completamente irrelevante para mim.

Porque eu ainda estava irritada.

Muito irritada.

Ouvi os passos dele continuarem pelo corredor enquanto as portas do elevador começavam lentamente a se fechar.

Então, no último segundo, uma mão segurou a porta.

Meu maxilar travou imediatamente.

Lion entrou no elevador calmamente.

Como se tivesse voltado apenas para aquilo.

Só para me provocar.

Claro que sim.

Fiquei olhando diretamente para frente enquanto ele parava ao meu lado. O espaço pareceu pequeno demais instantaneamente.

O perfume dele me atingiu primeiro.

Amadeirado.

Escuro.

Perigosamente sofisticado.

Droga.

Apertei o botão do quinto andar sem dizer absolutamente nada.

O silêncio dentro do elevador ficou pesado quase imediatamente.

Então a voz grave dele atravessou o ambiente:

— Não me viu no corredor?

Continuei olhando para frente.

— O senhor não falou comigo.

Silêncio.

Consegui sentir os olhos dele sobre mim mesmo sem encará-lo diretamente.

Então:

— Preciso?

A arrogância daquela pergunta fez algo dentro de mim ferver imediatamente.

Virei lentamente o rosto na direção dele.

Os olhos escuros me observavam com calma irritante.

Controlado demais.

Seguro demais de si.

Cruzei os braços.

— Acho que o senhor acabou de responder a própria pergunta.

Por um segundo, o silêncio tomou conta do elevador novamente.

Mas dessa vez havia algo diferente nele.

Quase divertido.

Quase interessado.

Voltei a olhar para frente antes que ele percebesse o efeito irritante que aquela expressão causava em mim.

As portas finalmente se abriram no quinto andar.

Saí imediatamente. E, para minha infelicidade, ele saiu junto.

Claro.

Os passos dele ecoaram calmamente ao meu lado pelo corredor elegante.

— Você é muito ousada, senhorita Beck.

Ignorei completamente o comentário enquanto continuava andando.

— O que o senhor pediu estará na sua sala até o fim do expediente.

Percebi pelo canto da visão quando ele desacelerou minimamente os passos.

— Ainda irritada pela conversa de ontem?

Parei abruptamente.

Virei-me na direção dele antes mesmo de pensar.

— Não estou irritada.

Lion arqueou levemente uma das sobrancelhas escuras.

Meu Deus, como ele era irritantemente convencido.

Respirei fundo.

— Só acho impressionante como o senhor consegue ignorar completamente a opinião das pessoas que contratou para fazer exatamente o trabalho que você não quer.

Os olhos dele permaneceram presos aos meus.

Calmos.

Escuros.

Difíceis de interpretar.

— E, ainda assim, você continua fazendo o que eu mando.

A resposta veio tranquila demais.

Quase baixa.

Aquilo me irritou ainda mais.

— É o meu trabalho não é senhor Volkov? Não uma colônia de férias.

O silêncio caiu entre nós imediatamente.

Dessa vez mais pesado.

Mais perigoso.

Mas eu não desviei o olhar.

Nem por um segundo.

Porque existia algo naquele homem que me irritava profundamente.

Talvez fosse a forma como parecia controlar tudo.

Talvez porque todos ao redor dele agissem como ratos assustados esperando aprovação, ou talvez porque Lion Volkov estivesse acostumado demais a ser tratado como alguém inalcançável. E eu me recusava completamente a agir daquela maneira.

Não era um ratinho de laboratório dele como os outros.

Lion continuou me encarando por alguns segundos antes de finalmente falar:

— Até, Lara.

Meu nome dito daquela forma fez algo estranho atravessar meu estômago.

Ignorei.

Sem responder mais nada, virei-me novamente e segui até a sala de Daniel enquanto Lion desaparecia pelo corredor oposto.

Ainda assim, mesmo distante, a presença dele parecia continuar ocupando espaço demais dentro da minha cabeça.

No fim do expediente, subi novamente até o último andar carregando os documentos atualizados da exposição.

Os corredores estavam silenciosos outra vez.

Os seguranças permaneciam posicionados próximos às entradas restritas como estátuas perfeitamente treinadas. Alguns me observaram discretamente quando atravessei o corredor principal em direção ao escritório de Lion.

Aquela sensação voltou imediatamente.

A constante impressão de que todos ali estavam atentos demais.

Bati duas vezes na porta.

— Entre.

Abri lentamente.

Lion estava sentado atrás da enorme mesa escura, segurando alguns papéis em uma das mãos. A iluminação baixa do escritório deixava sua expressão ainda mais séria, mais fria.

Os olhos escuros encontraram os meus no instante em que entrei.

Então ele fez um pequeno gesto indicando a cadeira diante da mesa.

— Sente-se.

Obedeci em silêncio.

Aproximei os documentos dele enquanto tentava ignorar a tensão irritante que sempre surgia quando ficávamos sozinhos naquele escritório.

Lion pegou os papéis calmamente.

Começou a analisar cada página em silêncio absoluto.

Observei discretamente suas mãos fortes segurando os documentos enquanto ele lia. Até aquilo parecia controlado demais naquele homem.

Depois de alguns minutos, ele fechou a pasta.

— Está ótimo.

Ótimo.

Na minha cabeça, ótimo estava longe de significar perfeito.

Mas permaneci em silêncio.

Porque discutir outra vez provavelmente acabaria comigo tentando estrangulá-lo mentalmente.

Levantei-me lentamente.

— Então já vou indo.

— Amanhã Helena precisará levar alguns objetos da galeria para minha casa.

Parei imediatamente.

Lion continuou:

— Tenho uma sala particular onde algumas peças são armazenadas temporariamente. A pessoa que iria ajudar Helena não poderá ir.

Os olhos escuros levantaram lentamente até mim.

— Preciso que você acompanhe ela.

Aquilo me pegou desprevenida.

A casa dele?

Tentei não demonstrar surpresa.

— Tudo bem.

Assenti calmamente enquanto pegava minha bolsa sobre a cadeira.

Mas, antes que eu alcançasse a porta, a voz grave dele me fez parar outra vez.

— Lara.

Virei-me lentamente.

Lion permanecia sentado, observando-me com atenção silenciosa demais.

Então falou:

— Neste ambiente… é importante saber o que dizer.

Houve uma pequena pausa.

— E principalmente para quem dizer.

Meu corpo ficou imóvel imediatamente.

A frase soou calma.

Mas havia algo escondido ali.

Um aviso.

Talvez até uma ameaça indireta.

Cruzei lentamente os braços.

— Isso deveria me preocupar?

Os olhos escuros dele permaneceram presos nos meus por alguns segundos.

— Depende da sua capacidade de reconhecer o perigo.

Meu coração desacelerou por um instante.

Mas me recusei a demonstrar qualquer intimidação.

Sustentei o olhar dele antes de responder calmamente:

— Eu não tenho medo de nada nem de ninguém, senhor Volkov. O perigo está em todo lugar. A gente se acostuma.

O silêncio que veio depois pareceu quase elétrico.

E tive a estranha sensação de que aquela resposta realmente o surpreendeu.

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