Capítulo 04

Depois da conversa na copa, o restante do meu expediente se tornou quase insuportavelmente lento.

Não porque havia pouco trabalho.

Muito pelo contrário.

Helena passou as últimas horas do dia me entregando listas intermináveis de convidados, registros de obras, cronogramas do leilão e documentos de autenticação que precisavam ser organizados antes do grande evento da semana seguinte. Minha mesa ficou completamente tomada por papéis sofisticados demais para alguém que, menos de um mês atrás, estava calculando quantos dias ainda conseguiria manter o aluguel pago.

Mas, ainda assim, minha mente permanecia presa em outro lugar.

Em Lion Volkov.

Na maneira como ele me observava.

Naquela frase estranha dita em tom perigosamente calmo:

“A curiosidade pode ser perigosa aqui dentro, Lara.”

Quanto mais eu tentava ignorar aquilo, pior parecia ficar.

Porque havia algo errado naquela galeria.

Algo escondido sob toda aquela aparência impecável de luxo, sofisticação e prestígio artístico.

E, pior ainda, eu começava a perceber que Lion sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas.

Ele manipulava o ambiente ao redor sem precisar elevar a voz.

Sem precisar ameaçar diretamente.

Sua simples presença já fazia todos ao redor parecerem tensos demais.

Inclusive eu.

No fim do expediente, quando finalmente consegui organizar minha mesa, senti o peso do cansaço atingir meu corpo inteiro de uma vez. Meus ombros estavam doloridos, meus pés latejavam dentro dos saltos e minha cabeça parecia incapaz de processar mais qualquer informação.

Helena já havia ido embora.

A maioria dos funcionários também.

Os corredores da galeria estavam silenciosos outra vez.

Silenciosos demais.

Guardei os últimos documentos dentro da bolsa antes de caminhar lentamente até o elevador principal. Conforme atravessava o enorme salão de exposições, meus olhos se perderam automaticamente nas obras iluminadas pelas luzes douradas do ambiente.

À noite, a galeria parecia ainda mais bonita.

E mais assustadora.

As sombras se espalhavam discretamente pelos cantos do prédio, tornando esculturas modernas quase inquietantes sob determinados ângulos. Algumas pinturas pareciam me observar enquanto eu passava.

Talvez fosse apenas o cansaço. Ou talvez aquele lugar realmente carregasse uma atmosfera pesada demais para ser ignorada.

Quando saí do prédio, a cidade já estava mergulhada na escuridão.

A chuva da tarde havia deixado as ruas molhadas, refletindo as luzes vermelhas dos carros e os enormes painéis luminosos espalhados pela avenida. O vento frio atingiu meu rosto imediatamente, bagunçando alguns fios do meu cabelo solto.

Respirei fundo.

Pela primeira vez desde cedo, consegui sentir meus músculos relaxarem minimamente.

Longe daquela galeria.

Longe daqueles corredores silenciosos.

Longe de Lion Volkov.

Ainda assim, o rosto dele continuava preso dentro da minha cabeça de maneira irritante.

Os olhos escuros.

A postura rígida.

A voz grave e controlada.

Peguei o metrô poucos minutos depois, tentando me distrair observando o movimento cansado das pessoas voltando para casa. Diferente da Volkov Art Gallery, ali tudo parecia comum.

Barulhento.

Humano.

Real.

Uma criança chorava no vagão ao lado enquanto duas mulheres discutiam sobre trabalho perto da porta. Um homem cochilava sentado alguns bancos à frente.

Normalidade.

Era estranho como, depois de apenas um dia naquela galeria, aquilo já parecia distante demais da minha realidade.

Cheguei ao apartamento quase às dez da noite.

Meu pequeno apartamento no Brooklyn estava exatamente como deixei naquela manhã: simples, silencioso e apertado. A luminária amarelada da cozinha iluminava parcialmente a sala pequena enquanto larguei a bolsa sobre o sofá com um suspiro cansado.

Aquilo, pelo menos, ainda parecia meu.

Tirei os saltos imediatamente, sentindo um alívio quase emocional percorrer minhas pernas doloridas. Depois caminhei até a janela estreita da sala, observando a cidade iluminada lá fora enquanto pensamentos demais ocupavam minha mente.

Eu deveria pedir demissão?

A pergunta surgiu tão rápido que me deixou irritada comigo mesma.

Era ridículo.

Eu precisava daquele emprego.

Desesperadamente.

A Volkov Art Gallery pagava mais do que qualquer outro lugar onde já trabalhei na vida. Além disso, oportunidades como aquela simplesmente não apareciam duas vezes.

Então por que eu me sentia tão desconfortável?

Fechei os olhos por alguns segundos.

Afastei imediatamente os pensamento ruins antes de caminhar até o banheiro.

Precisava dormir.

Precisava parar de imaginar absurdos.

Precisava lembrar que Lion Volkov era apenas um empresário excêntrico cercado por pessoas excessivamente discretas.

Só isso.

Nada mais.

O dia seguinte começou estranhamente normal.

Quase decepcionantemente normal.

Cheguei cedo à galeria, organizei documentos, acompanhei Helena em reuniões relacionadas ao leilão e passei horas revisando catálogos de obras que seriam expostas durante o evento principal da semana.

Nenhuma conversa suspeita.

Nenhum segurança estranho me observando.

Nenhum comentário inquietante.

Quase comecei a acreditar que minha mente realmente havia exagerado tudo no dia anterior.

Quase.

Porque Lion Volkov continuava sendo impossível de ignorar.

Mesmo sem vê-lo diretamente durante a maior parte do dia, sua presença parecia dominar cada andar daquela galeria. Funcionários mudavam imediatamente de postura quando ele aparecia pelos corredores. Reuniões inteiras ficavam silenciosas ao simples som de sua voz vindo do outro lado das portas.

Era como se todos orbitassem ao redor dele.

E aquilo continuava me incomodando profundamente.

Já passava das oito da noite quando Helena surgiu ao lado da minha mesa.

— O senhor Volkov quer vê-la no escritório dele.

Meu estômago apertou imediatamente.

Outra vez.

Tentei ignorar a tensão enquanto me levantava.

— Agora?

— Sim.

Ótimo.

Atravessei os corredores silenciosos tentando controlar a ansiedade crescente dentro do peito. Diferente do dia anterior, porém, o último andar parecia ainda mais vazio naquela noite.

Mais escuro.

Mais frio.

Quando bati na porta do escritório, a voz grave dele respondeu quase imediatamente:

— Entre.

Respirei fundo antes de abrir.

Lion estava sentado atrás da enorme mesa escura, observando alguns documentos espalhados diante dele. Vestia preto outra vez.

Sempre preto.

A camisa escura ajustava-se perfeitamente aos ombros largos, enquanto a gravata afrouxada deixava sua aparência perigosamente menos formal do que deveria. As mangas dobradas até os antebraços revelavam novamente músculos firmes sob a pele morena.

Mas o que mais chamava atenção era sua expressão.

Séria.

Fria.

Completamente concentrada.

Os olhos escuros levantaram lentamente até mim.

— Sente-se.

Obedeci sem questionar.

Lion empurrou alguns papéis na minha direção.

— Quero alteração das obras do salão principal.

Peguei os documentos rapidamente.

Plantas do evento.

Mapeamento da exposição.

Franzi a testa enquanto analisava as marcações feitas por ele.

— O senhor quer trocar completamente toda a ala central?

— Sim.

Ergui os olhos imediatamente.

— Mas aquela sequência foi pensada para criar uma progressão histórica entre as escolas artísticas. Se mudarmos essas peças de lugar, o conceito inteiro da exposição perde sentido.

Silêncio.

Lion permaneceu me observando calmamente.

— Faça a alteração mesmo assim.

Meu incômodo cresceu instantaneamente.

— Com todo respeito, isso vai prejudicar a experiência visual do evento.

— Não perguntei sua opinião sobre a experiência visual.

A resposta seca me atingiu imediatamente.

Meu maxilar se contraiu.

Ali estava novamente a arrogância irritante dele.

A postura de homem acostumado a controlar absolutamente tudo sem ser questionado.

Respirei fundo antes de responder:

— Então talvez o senhor devesse contratar pessoas que apenas concordem com tudo sem entender nada de arte.

O silêncio que tomou conta do escritório foi imediato.

Pesado.

Denso.

Percebi o que havia acabado de fazer no mesmo instante.

Droga.

Helena provavelmente teria um ataque cardíaco se estivesse ali.

Porque eu acabara de responder Lion Volkov.

E não apenas responder.

Confrontar diretamente.

Por alguns segundos, ele não disse absolutamente nada.

Apenas me encarou.

Os olhos escuros fixos nos meus de maneira quase sufocante.

Mas então algo inesperado aconteceu.

Lion inclinou levemente a cabeça e pude ver surpresa real atravessar sua expressão fria.

Pequena.

Quase imperceptível.

Ainda assim, estava lá.

Como se ninguém jamais ousasse falar daquela forma com ele.

Meu coração disparou violentamente, mas me recusei a desviar o olhar.

Lion permaneceu em silêncio por mais alguns segundos antes de finalmente se recostar lentamente na cadeira.

Então o canto de sua boca se moveu minimamente.

Quase divertido.

— Você sempre responde seus chefes dessa maneira, senhorita Beck?

Engoli em seco.

Mas sustentei o olhar dele mesmo assim.

— Apenas quando eles estão errados.

—Acha que estou errado?— ele me encarou, sério.

— Bom, o que eu acho não parece ter tanta importância não é mesmo? Amanhã retorno com o projeto que pediu.

Peguei os papéis e sai da sala.

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