Capítulo 03

O restante do dia passou como um borrão elegante e sufocante.

Depois da conversa com Lion Volkov, Helena me conduziu pelos corredores principais da galeria enquanto explicava minhas funções de maneira objetiva demais para alguém aparentemente acostumada a lidar com pessoas novas. Ela falava com educação impecável, mas existia certa rigidez em sua postura, como se cada palavra precisasse ser cuidadosamente calculada antes de sair de sua boca, aquilo apenas aumentava a estranha sensação de desconforto crescendo dentro de mim desde o instante em que havia entrado naquele lugar.

A Volkov Art Gallery era gigantesca.

Muito maior do que eu imaginava.

Os andares inferiores eram destinados às exposições abertas ao público, sempre impecavelmente organizadas e silenciosas, frequentadas por turistas ricos, colecionadores discretos e empresários influentes que circulavam pelo espaço com taças de champanhe nas mãos e olhares críticos direcionados às obras.

Mas os andares superiores eram diferentes.

Mais silenciosos.

Mais reservados.

Mais vigiados.

Havia portas protegidas por senha eletrônica, corredores monitorados por câmeras em todos os ângulos e seguranças posicionados discretamente próximos às áreas restritas. Alguns deles usavam fones transparentes escondidos atrás das orelhas, observando cada movimentação ao redor como predadores pacientes.

Nada daquilo parecia normal para uma simples galeria de arte.

Mesmo milionária.

Mesmo famosa.

Enquanto caminhava ao lado de Helena carregando uma pasta de documentos contra o peito, tentei ignorar a inquietação insistente dentro da minha cabeça.

— O leilão da próxima semana será um dos maiores eventos da temporada — explicou ela enquanto atravessávamos outro corredor revestido por esculturas modernas absurdamente caras. — Colecionadores internacionais estarão presentes. A segurança será reforçada durante todo o evento.

Segurança reforçada.

Outra vez.

Tudo naquele lugar parecia girar em torno disso.

— Imagino que obras tão valiosas atraiam muitos problemas — comentei casualmente, tentando soar natural.

Helena não respondeu imediatamente.

Seus saltos continuaram ecoando pelo piso escuro antes que ela finalmente falasse:

— O senhor Volkov prefere não correr riscos.

Aquilo não respondeu minha pergunta.

Mas percebi rapidamente que insistir talvez fosse uma péssima ideia.

Continuamos andando em silêncio até chegarmos numa enorme sala onde dezenas de funcionários organizavam catálogos, listas de convidados e contratos sobre mesas extensas de vidro.

O ambiente parecia mais leve ali.

Quase normal.

Quase.

Passei as horas seguintes auxiliando na revisão de documentos do leilão enquanto tentava absorver o máximo possível sobre o funcionamento da galeria. Alguns funcionários eram simpáticos, outros excessivamente reservados, mas todos compartilhavam algo em comum:

Pareciam nervosos demais quando o assunto envolvia Lion Volkov.

Ninguém mencionava o nome dele casualmente.

Ninguém fazia piadas.

Ninguém parecia confortável o suficiente para relaxar completamente dentro daquela galeria.

Era como se todos estivessem constantemente atentos à possibilidade de errar.

E isso me deixava cada vez mais inquieta.

No fim da tarde, depois de revisar dezenas de contratos entediantes, decidi levantar para buscar café.

Precisava desesperadamente respirar um pouco.

A sala de funcionários ficava no final de um corredor mais vazio do terceiro andar. Caminhei lentamente até lá enquanto massageava discretamente o pescoço dolorido.

Foi então que ouvi vozes.

Baixas.

Mas alteradas.

Parei automaticamente antes da esquina do corredor.

— Isso não estava nos planos — alguém murmurou com tensão evidente.

Outra voz respondeu imediatamente:

— O senhor Volkov já resolveu.

Meu corpo ficou imóvel.

Volkov.

Sem perceber, aproximei-me alguns centímetros da parede.

— Resolveu como? — perguntou o primeiro homem outra vez.

Houve silêncio.

Então:

— O comprador aceitou pagar o dobro depois da ameaça.

Um arrepio percorreu minha espinha lentamente.

Ameaça?

Franzi a testa imediatamente.

Talvez eu tivesse entendido errado.

Precisava ter entendido errado.

Inclinei o corpo minimamente para enxergar quem estava conversando.

Dois homens vestidos de preto permaneciam próximos a uma porta fechada. Um deles segurava uma pasta escura enquanto falava em tom baixo demais para que eu conseguisse compreender o restante da conversa.

Mas então ouvi outra frase.

E dessa vez não havia como interpretar errado.

— O carregamento precisa sair do país antes da inspeção.

Meu coração disparou.

Carregamento.

Outra vez aquela palavra.

Antes que eu pudesse processar aquilo adequadamente, um dos homens virou levemente o rosto na minha direção.

Meu sangue gelou imediatamente.

Afastei-me rápido demais, sentindo o salto quase falhar contra o chão enquanto tentava parecer natural.

Continue andando.

Continue andando.

Meu coração martelava violentamente dentro do peito enquanto atravessei o corredor fingindo não ter ouvido absolutamente nada.

Não olhei para trás.

Não respirei direito.

Só parei quando alcancei a pequena copa vazia.

Fechei a porta atrás de mim imediatamente.

Então apoiei as duas mãos na bancada fria de mármore.

Meu reflexo no vidro escuro da cafeteira denunciava claramente meu nervosismo.

Aquilo era absurdo.

Talvez estivessem apenas falando sobre transporte de obras internacionais.

Sim.

Devia ser isso.

Inspeções alfandegárias existiam.

Segurança reforçada também.

Eu estava criando teorias ridículas porque aquele lugar inteiro parecia misterioso demais.

Respirei fundo.

Depois outra vez.

Precisava parar com aquilo.

Passei os dedos trêmulos pelos cabelos antes de pegar um copo descartável para servir café. O líquido quente ajudou minimamente a aliviar a tensão dentro do meu peito.

Até a porta da copa abrir atrás de mim.

Quase derrubei o café.

Virei-me rápido demais.

E encontrei Lion Volkov parado na entrada.

Meu coração simplesmente esqueceu como funcionava por alguns segundos.

Ele continuava usando preto.

Dessa vez, porém, o paletó havia desaparecido, deixando apenas a camisa escura ajustada perigosamente ao corpo forte. As mangas dobradas até os antebraços revelavam músculos firmes sob a pele morena, enquanto o relógio sofisticado preso ao pulso brilhava discretamente sob a luz fria do ambiente.

O primeiro botão da camisa permanecia aberto.

E Deus.

Aquele homem era intimidador demais de perto.

Os olhos escuros deslizaram lentamente pelo meu rosto.

Observando.

Analisando.

Como sempre.

— Senhorita Beck.

Sua voz grave fez meu estômago apertar sem motivo.

— Senhor Volkov.

Ele entrou na copa lentamente, e o espaço pequeno pareceu ainda menor com sua presença.

Não consegui evitar notar o perfume sofisticado que o acompanhava — algo amadeirado, intenso e perigosamente masculino.

Lion aproximou-se da bancada enquanto afrouxava discretamente o relógio no pulso.

Então me encarou novamente.

— Está se adaptando à galeria?

A pergunta parecia simples.

Mas havia algo em seu olhar que me deixava nervosa demais para responder normalmente.

— Sim.

Ele permaneceu em silêncio.

Esperando mais.

Engoli em seco.

— Ainda estou tentando entender como tudo funciona.

— E o que exatamente parece difícil de entender?

A pergunta veio calma demais.

Meu coração acelerou instantaneamente.

Por um segundo, tive a sensação absurda de que ele sabia.

Sabia que eu havia escutado a conversa no corredor.

Sabia que eu estava desconfiada.

Sabia absolutamente tudo.

Desviei o olhar rapidamente para o café em minhas mãos.

— É uma galeria muito maior do que estou acostumada.

Silêncio.

Pesado.

Lento.

Quando voltei a encará-lo, Lion ainda me observava atentamente.

Então ele se aproximou mais.

Apenas um passo.

Mas foi suficiente para que meu corpo inteiro ficasse tenso.

— A curiosidade pode ser perigosa aqui dentro, Lara.

Meu nome dito por ele causou um arrepio involuntário na minha pele.

Porque aquela foi a primeira vez que ele me chamou assim.

Sem formalidade.

Sem distância.

Apenas Lara.

Levantei lentamente os olhos até os dele.

— Não entendi.

E aquilo era parcialmente verdade.

Lion inclinou levemente a cabeça, me analisando de uma maneira quase sufocante.

Então seus olhos escuros desceram discretamente até o copo em minhas mãos.

— Suas mãos estão tremendo.

Droga.

Tentei esconder imediatamente.

— Muito café.

A mentira saiu rápido demais.

O canto da boca dele se moveu minimamente.

Não exatamente um sorriso.

Algo pior.

Como se ele soubesse que eu estava mentindo e achasse aquilo interessante.

Lion pegou uma xícara vazia sobre a bancada antes de continuar falando calmamente:

— Pessoas inteligentes sobrevivem mais tempo quando aprendem a distinguir curiosidade de prudência.

Meu coração disparou outra vez.

Aquela definitivamente não parecia uma conversa normal entre chefe e funcionária.

O silêncio voltou a crescer dentro da pequena copa.

Lion Volkov não intimidava apenas por ser poderoso.

Ele intimidava porque parecia enxergar coisas demais.

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