CAPÍTULO 6 - O DIÁRIO

Ninguém falou por vários segundos, as palavras da mãe de Gustavo ainda ecoavam pela sala.

"Laura era sua irmã."

Gustavo permaneceu imóvel com o olhar perdido, como se tentasse reorganizar toda a própria infância.

As lembranças, as viagens do pai, as reuniões intermináveis, qs ausências inexplicáveis.

Tudo parecia ganhar um novo significado.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Não... — murmurou baixo — Meu pai não seria capaz...

Mas nem ele conseguiu terminar a frase.

Porque, no fundo, já não sabia mais do que Augusto Ferraresi era capaz.

Sua mãe abaixou os olhos.

— Eu tentei proteger você.

— Me protegendo da verdade? perguntou, e ela assentiu lentamente.

— Você era apenas um menino e eu achei que um dia seu pai criaria coragem para contar, mas esse dia nunca chegou.

Maytê aproximou-se de Gustavo e segurou sua mão, ela não disse nada. Sabia que não existiam palavras capazes de aliviar aquela dor.

Depois de alguns minutos, a mãe levantou-se. Caminhou até uma antiga cristaleira na sala e abriu uma gaveta escondida, retirou uma pequena caixa de madeira, voltando devagar.

Colocou a caixa sobre a mesa.

— Depois que Helena desapareceu... alguém deixou isto na minha porta, nunca tive coragem de abrir.

Gustavo franziu a testa.

— Por quê?

Ela sorriu com tristeza.

— Porque eu tinha medo de descobrir que tudo era verdade. — disse, empurrando a caixa em direção ao filho — Agora ela é sua.

Gustavo respirou fundo antes de abrir, dentro havia apenas um caderno de capa azul. Velho, com as bordas desgastadas.

Na primeira página, uma letra delicada.

"Diário de Helena Duarte."

Henrique soltou um longo suspiro.

— Acho que acabamos de encontrar a peça mais importante dessa história.

-

A caminho da cobertura, ninguém falou.

O diário permanecia sobre o colo de Gustavo, fechado. Ele ainda não tivera coragem de abri-lo.

Maytê observava a paisagem pela janela, seu coração estava apertado. Não apenas por Gustavo, mas por Helena, por Laura e por uma família inteira construída sobre mentiras.

Quando chegaram à cobertura, os quatro se reuniram na sala.

Gustavo colocou o diário sobre a mesa, respirando fundo e abriu a primeira página.

A letra era bonita, organizada.

A primeira anotação tinha mais de vinte anos.

«"Hoje comecei a trabalhar para Augusto Ferraresi. Todos dizem que ele é um homem brilhante, espero que também seja um homem justo."»

Gustavo fechou os olhos. Que ironia. Helena ainda acreditava nele naquele momento.

Continuaram lendo, as páginas seguintes falavam apenas do trabalho.

Reuniões, viagens, projetos.

Depois... o tom mudou.

«"Augusto está diferente, ultimamente parece preocupado. Recebe ligações escondido e manda queimar documentos antigos, perguntei o motivo, ele apenas respondeu que algumas verdades nunca devem aparecer."»

Henrique olhou para Gustavo.

— Queimar documentos?

Ele assentiu.

— Meu pai nunca mencionou isso.

Maytê virou mais algumas páginas e as anotações tornavam-se cada vez mais pesadas.

«"Hoje ouvi uma conversa que jamais deveria ter escutado, existe alguém desviando dinheiro usando empresas fantasmas. Augusto sabe."»

A sala mergulhou em silêncio, Gustavo respirou fundo, aquilo era muito mais grave do que uma traição.

Eles continuaram lendo durante horas, até que uma página chamou a atenção de Maytê.

As palavras estavam escritas com pressa, a tinta parecia borrada por lágrimas.

«"Tenho medo. Eles descobriram que eu sei demais. Augusto prometeu que vai resolver tudo, mas já não sei se posso confiar nele."»

A próxima página estava arrancada, depois outra e mais outra.

Henrique passou os dedos pelas folhas.

— Alguém retirou exatamente o trecho seguinte.

Gustavo sentiu um aperto no peito.

— As respostas estavam aqui.

Maytê virou mais algumas páginas, as anotações voltavam semanas depois, mas Helena escrevia de maneira completamente diferente. Com medo.

«"Se alguma coisa acontecer comigo, procurem Laura. Ela nunca teve culpa de nada."»

O nome apareceu outra vez. Laura.

A irmã que Gustavo nunca conheceu.

Já era quase meia-noite quando chegaram à última página preenchida, havia apenas uma frase escrita com a caligrafia trêmula.

«"Se Augusto morrer antes de contar a verdade, procure o homem chamado Dante Moreira. Só ele conhece toda a história."»

Henrique repetiu o nome em voz alta.

— Dante Moreira...

Gustavo tentou lembrar, nunca ouvira aquele nome. Sua mãe também não. Maytê pegou o celular.

— Vou pesquisar.

Digitou rapidamente, a tela exibiu poucos resultados. Quase todos antigos, nas um chamou sua atenção.

Era uma reportagem publicada anos antes, ela começou a ler e seu rosto perdeu a cor.

— Gustavo...

Ele levantou os olhos.

— O que foi?

Ela virou a tela do celular para ele.

No topo da reportagem aparecia a fotografia de um homem de aproximadamente sessenta anos.

A manchete dizia:

"Ex-executivo do Grupo Ferraresi desaparece sem deixar rastros."

A reportagem informava que Dante Moreira fora um dos homens de maior confiança de Augusto Ferraresi e desaparecera misteriosamente vinte e dois anos antes. Sem corpo, sem despedida, sem explicação.

Henrique respirou fundo.

— Então estamos procurando um homem desaparecido há mais de duas décadas.

Gustavo fechou lentamente o diário.

— Não.

Olhou novamente para a reportagem e havia algo escrito à mão no canto da imagem, uma anotação tão discreta que quase passou despercebida. Apenas duas palavras.

"Ele vive."

E, pela primeira vez desde o início daquela investigação, Gustavo teve a sensação de que alguém não queria apenas revelar o passado.

Alguém estava conduzindo cada passo deles, como se soubesse exatamente qual seria o próximo movimento.

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