Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs passos continuavam acima deles, lentos e pesados. Como se a pessoa soubesse exatamente onde estavam.
Ninguém se mexeu. O porão mergulhou em um silêncio sufocante. Maytê apertou a mão de Gustavo, ela podia sentir o coração dele acelerado. Henrique fez um gesto pedindo silêncio. Outro passo, depois outro. A madeira do piso rangia, alguém caminhava pela casa sem pressa, como quem procurava alguma coisa ou alguém. Gustavo aproximou a boca do ouvido de Henrique. — Quantas pessoas sabem que estamos aqui? — perguntou, num sussurro. — Só nós três. — respondeu, quase inaudível. Maytê sentiu um frio percorrer sua espinha. Então quem estava lá em cima? Cinco minutos pareceram uma eternidade, os passos cessaram. Veio outro silêncio, até que... o som de uma porta se fechando com força ecoou pela casa. Henrique esperou mais alguns segundos e acendeu novamente a lanterna. — Vamos. Subiram a escada lentamente. Gustavo foi o primeiro a colocar a cabeça para fora da porta escondida, o corredor estava vazio, a casa permanecia em silêncio, mas havia algo diferente. A mochila dele que estava sobre a mesa da sala, estava aberta e os documentos haviam sido revirados. — Alguém esteve aqui. — Maytê olhou rapidamente ao redor — Mas não levou nada. — Ainda não sabemos. — Henrique discordou. Começaram a conferir tudo: a fotografia, a carta, a chave, a fita. Tudo continuava ali ou quase, o gravador havia desaparecido. Gustavo sentiu um aperto no peito. — Não... Henrique confirmou. — Levaram justamente a gravação de Helena. Maytê respirou fundo. — Então quem entrou aqui sabia exatamente o que procurava. Eles deixaram a fazenda pouco depois. Henrique conseguiu pedir socorro usando o telefone de um caminhoneiro que passava pela estrada. Enquanto esperavam o reboque, ninguém falou muito. Cada um estava perdido nos próprios pensamentos. Quando finalmente voltaram para a cidade, já era noite. Gustavo deixou Maytê em casa e antes que ela saísse do carro, segurou sua mão. — Promete uma coisa? — Depende. — ela sorriu levemente. — Se perceber qualquer coisa estranha... me liga imediatamente. — Você também. — disse, acariciando o rosto dele. No dia seguinte, Gustavo tomou uma decisão. Precisava conversar com a única pessoa que talvez conhecesse parte daquele passado, sua mãe. Ela morava em uma casa tranquila, longe do centro da cidade. Quando abriu a porta e viu o filho, sorriu. Mas o sorriso desapareceu ao notar sua expressão. — O que aconteceu? Gustavo entrou, sentou-se na sala e colocou a fotografia sobre a mesa. A mãe olhou, seu rosto perdeu completamente a cor e suas mãos começaram a tremer. — Onde você conseguiu isso? Ele percebeu imediatamente, ela conhecia aquela mulher. — Quem é ela? Silêncio. Ela fechou os olhos por alguns segundos e depois respondeu baixinho. — Helena. O nome saiu quase como um sussurro. — Você sabia? Ela assentiu, as lágrimas começaram a escorrer. — Sim. — Quem era ela? A mulher respirou profundamente, como se estivesse criando coragem para abrir uma ferida antiga. — Ela trabalhou para seu pai durante muitos anos. Era muito competente, muito inteligente e muito leal. Gustavo permaneceu olhando para ela, esperando. — Só isso? Ela abaixou a cabeça. — Não. — outro silêncio — Ela também era minha amiga. A revelação pegou Gustavo de surpresa. — Sua amiga? — Sim. Durante muitos anos. Maytê, que permanecia sentada ao lado dele, franziu a testa. — Então por que ela desapareceu? A mãe de Gustavo enxugou as lágrimas. — Porque um dia, ela descobriu uma coisa que jamais deveria ter descoberto. O coração de Gustavo acelerou. — O quê? A mulher olhou diretamente para o filho. — Seu pai tinha uma segunda família. O mundo pareceu parar. Gustavo ficou completamente imóvel. — Não... — disse, quase sem voz — Isso não pode ser verdade. Ela fechou os olhos novamente. — Eu também não quis acreditar, mas era. Henrique, que acabara de chegar à casa para buscar Gustavo, ouviu apenas a última frase. — O que era? Os três olharam para ele, foi Maytê quem respondeu, ainda tentando aceitar a revelação. — Augusto Ferraresi escondia uma segunda família. Henrique ficou sem reação, mas a mãe de Gustavo ainda não havia terminado, ela respirou fundo e disse algo que fez o chão desaparecer sob os pés de Gustavo. — E a menina chamada Laura... não era apenas filha de Helena, era filha do seu pai. Ou seja, Laura era irmã de Gustavo e ele acabara de descobrir que tinha uma irmã cuja existência lhe fora escondida durante toda a vida.






