Mundo de ficçãoIniciar sessãoO vento levou o bilhete alguns centímetros antes que Gustavo o segurasse, as palavras eram curtas, mas suficientes para fazer o silêncio pesar sobre os três.
"Vocês demoraram." Henrique passou a mão pelos cabelos. — Quem fez isso ainda está por perto. Instintivamente, olhou para a estrada de terra. Nada. Nenhum carro, nenhum movimento. A fazenda permanecia tão silenciosa quanto antes, silenciosa demais. Maytê sentiu um arrepio percorrer seus braços, era como se alguém os observasse de um lugar escondido, esperando apenas o momento certo para agir. Gustavo dobrou o bilhete cuidadosamente e o colocou no bolso. — Vamos sair daqui. Henrique apontou para o carro. — Com quatro pneus furados? Os três olharam para o veículo, não havia como seguir viagem. O celular de Gustavo estava sem sinal, o de Henrique também, Maytê tentou o dela. Nada. Estavam completamente isolados. — A casa. Henrique foi o primeiro a falar. — Deve haver um telefone antigo ou alguma forma de comunicação. Gustavo concordou. Não gostava da ideia de voltar para dentro, mas também não tinham outra escolha e entraram novamente. Agora, porém, a casa parecia diferente. Mais escura, mais fria e cada rangido da madeira fazia os três prenderem a respiração. Começaram a vasculhar os cômodos do térreo. A cozinha estava praticamente vazia, a sala principal tinha móveis cobertos por lençóis. No escritório, encontraram apenas papéis antigos completamente deteriorados. Foi Maytê quem percebeu algo estranho. Uma estante. Grande demais para aquele espaço, ela passou a mão pela madeira e bateu levemente. O som era oco. — Gustavo... Ele aproximou-se, os dois empurraram a estante juntos. Ela deslizou alguns centímetros e atrás dela havia uma porta estreita, escondida. Henrique iluminou o local com a lanterna. — Isso definitivamente não estava no projeto original. Gustavo girou a maçaneta, trancada. Lembrou-se imediatamente da pequena chave encontrada no quarto, retirou-a do bolso. A etiqueta continuava presa, arquivo 12. Respirou fundo, encaixou a chave, um clique e a porta se abriu lentamente. Uma escada estreita descia para um porão. O ar era úmido, cheirava a papel velho. Os três desceram devagar, no fim da escada havia uma pequena sala. Estantes ocupavam todas as paredes, centenas de caixas de arquivo, algumas identificadas por números. Outras, apenas por letras. Henrique passou a lanterna sobre as etiquetas. — Arquivo Três... Sete... Dez... Onze... Até que Gustavo encontrou, arquivo 12. A caixa estava no canto mais afastado, coberta de poeira, mas alguém a havia mexido recentemente. A marca na poeira era evidente. Gustavo ajoelhou-se, abriu a tampa. Dentro havia dezenas de documentos, fotografias, recortes de jornais, contratos e uma pasta vermelha. Na capa estava escrito apenas um nome. Helena Duarte. Maytê franziu a testa. — Duarte? Gustavo também percebeu, aquele sobrenome lhe parecia familiar. Muito familiar. Abriu a pasta. Na primeira página havia uma ficha de admissão. Nome: Helena Duarte. Cargo: Assistente administrativa. Data de contratação: 1994. Henrique continuava examinando os papéis. — Espera... Tem mais. Retirou uma certidão de nascimento amarelada, seus olhos percorreram o documento lentamente. Depois ele empalideceu. — Gustavo, você precisa ver isso. Gustavo pegou a certidão, leu uma vez e depois outra. Seu coração pareceu parar. No campo "Filiação" estava escrito: Mãe: Helena Duarte. O nome do pai estava em branco. Mas o nome da criança, fez suas mãos tremerem. Laura Duarte. Ele olhou para Henrique, confuso. — Quem é Laura? Henrique balançou a cabeça. — Eu não sei. Maytê permaneceu observando a certidão, algo naquela data chamou sua atenção. — Gustavo... — ela apontou para o ano — Essa menina nasceu quando você tinha onze anos. Ele respirou fundo, as peças começavam a surgir, mas ainda não se encaixavam. Enquanto examinavam o restante da caixa, Henrique encontrou um envelope lacrado. Na frente, uma única frase. "Entregar somente para Gustavo Ferraresi." Ele o entregou ao amigo. — Acho que isto é para você. Gustavo rompeu o lacre, dentro havia apenas uma carta escrita à mão. A mesma caligrafia dos outros bilhetes. «"Gustavo, Se está lendo esta carta, significa que finalmente encontrou o Arquivo 12. Laura existe e, se ela ainda estiver viva... corre perigo por sua causa. Ela nunca teve culpa das escolhas do seu pai. Antes de procurar respostas, encontre Laura. Porque eles já começaram a procurá-la."» O silêncio foi interrompido por um som metálico, uma porta batendo. Os três levantaram a cabeça ao mesmo tempo, o barulho viera do andar de cima. Henrique apagou a lanterna por instinto. No escuro absoluto, ouviram passos lentos e pesados. Alguém havia entrado na casa e, dessa vez, essa pessoa não fazia questão de esconder sua presença.






