CAPÍTULO 3 - A MULHER DA FOTO

O quarto mergulhou em um silêncio absoluto, ninguém respirava.

O velho gravador continuava sobre a cadeira, enquanto a fita girava lentamente.

A voz da mulher voltou a ecoar pelo cômodo.

— Se você está ouvindo esta gravação... significa que eu falhei em manter a verdade escondida.

Gustavo permaneceu imóvel, sentia as pernas pesadas.

Maytê aproximou-se discretamente e segurou sua mão, ela estava gelada.

Henrique aumentou o volume do gravador, a voz prosseguiu.

— Meu nome é Helena, trabalhei durante muitos anos para Augusto Ferraresi. Todos acreditavam que eu era apenas sua secretária... — pausou — Mas eu era muito mais do que isso.

Gustavo fechou os olhos. Seu pai. Outra mentira. Outra parte da vida que ele desconhecia.

— Durante anos, ajudei Augusto a esconder decisões que destruíram famílias, vi pessoas perderem tudo, vi documentos desaparecerem, vi inocentes pagarem por crimes que nunca cometeram.

Maytê levou a mão à boca, a voz tremia, era a voz de alguém que carregava culpa.

— Eu deveria ter contado a verdade muito antes,, mas tive medo. — a gravação chiou e depois voltou — Quando finalmente decidi falar, já era tarde.

Henrique olhou ao redor do quarto.

— Isso foi gravado há muitos anos.

Gustavo apenas assentiu, os olhos permaneciam fixos no gravador.

— Existe uma prova. — a frase fez os três prenderem a respiração — Uma prova capaz de revelar tudo o que Augusto Ferraresi fez. Se essa prova ainda existir, não deixe que caia nas mãos erradas.

A gravação foi interrompida por um forte ruído e depois... silêncio. A fita chegou ao fim.

-

Ninguém falou durante quase um minuto, foi Henrique quem quebrou o silêncio.

— Então seu pai...

Gustavo levantou a mão.

— Não. — sua voz saiu baixa — Eu não vou condená-lo sem saber toda a verdade.

Maytê olhou para ele, orgulhou-se daquela resposta.

Meses atrás, Gustavo teria reagido com raiva. Agora... escolhia primeiro entender. Ela apertou sua mão.

— Vamos descobrir juntos.

Ele sorriu de leve.

— Juntos.

-

Henrique começou a examinar o quarto, havia uma estante antiga.

Alguns livros cobertos de poeira, uma escrivaninha de madeira. As gavetas estavam vazias ou quase.

Na última delas, encontrou uma chave pequena e enferrujada, com uma etiqueta presa por um barbante.

Nela estava escrito apenas: Arquivo 12.

— Acho que isso não estava aqui por acaso.

Gustavo pegou a chave, era antiga. Muito antiga.

— Arquivo do quê?

Ninguém sabia.

-

Enquanto os dois examinavam o cômodo, Maytê caminhou até a janela. A vista dava para o jardim abandonado da fazenda, as árvores escondiam boa parte da propriedade.

Foi então que ela viu um reflexo, como a luz do sol batendo em um vidro, mas desapareceu no mesmo instante.

Ela estreitou os olhos, tentando encontrar novamente. Nada.

Mesmo assim, sentia que havia alguém ali, observando.

— Gustavo... — chamou, e ele virou-se imediatamente.

— O que foi?

— Acho que não estamos sozinhos.

Henrique caminhou até a janela, olhou para o jardim.

Silêncio.

Então, um galho quebrou.

Os três se entreolharam, Henrique não esperou e saiu correndo escada abaixo.

Gustavo foi logo atrás, Maytê também.

Quando chegaram ao lado de fora, o jardim estava vazio. Apenas o vento balançava as folhas.

Henrique caminhou alguns metros e parou, abaixando-se.

— Vejam isso.

No chão havia marcas recentes de pneus, alguém estivera ali há pouco tempo e tinha ido embora às pressas.

Voltaram para dentro da casa, a tensão aumentava a cada minuto.

Gustavo guardou cuidadosamente o gravador e a chave na mochila.

— Vamos levar tudo. disse, e Henrique concordou.

— Pode ser importante.

Quando já se preparavam para sair, Maytê percebeu um quadro torto pendurado na parede do corredor.

Era estranho.

Todo o restante da casa estava abandonado, mas aquele quadro parecia ter sido mexido recentemente.

Ela o retirou da parede, atrás dele havia um pequeno compartimento escondido e dentro, um envelope.

Gustavo abriu cuidadosamente, havia apenas uma folha dobrada escrita à mão.

A caligrafia era a mesma da fotografia.

"Se encontraram isto, significa que chegaram antes deles." — o coração de Gustavo acelerou, continuou lendo — "Não confiem em ninguém que trabalhou diretamente para Augusto Ferraresi."

Henrique respirou fundo.

— Isso reduz bastante nossa lista de suspeitos.

Mas a última frase fez o sangue de todos gelar.

"O homem que destruiu minha vida ainda está vivo."

Maytê levantou lentamente os olhos.

— Achei que estivéssemos investigando alguém morto.

Gustavo dobrou a carta, seu rosto estava sério, muito sério.

— Acho que estamos investigando alguém... que nunca deixou de agir.

Naquele instante, um forte barulho ecoou do lado de fora.

Os três correram até a porta, o carro de Henrique, os quatro pneus estavam completamente cortados e preso ao para-brisa havia um novo bilhete. Apenas duas palavras.

"Vocês demoraram."

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