Mundo de ficçãoIniciar sessãoO quarto mergulhou em um silêncio absoluto, ninguém respirava.
O velho gravador continuava sobre a cadeira, enquanto a fita girava lentamente. A voz da mulher voltou a ecoar pelo cômodo. — Se você está ouvindo esta gravação... significa que eu falhei em manter a verdade escondida. Gustavo permaneceu imóvel, sentia as pernas pesadas. Maytê aproximou-se discretamente e segurou sua mão, ela estava gelada. Henrique aumentou o volume do gravador, a voz prosseguiu. — Meu nome é Helena, trabalhei durante muitos anos para Augusto Ferraresi. Todos acreditavam que eu era apenas sua secretária... — pausou — Mas eu era muito mais do que isso. Gustavo fechou os olhos. Seu pai. Outra mentira. Outra parte da vida que ele desconhecia. — Durante anos, ajudei Augusto a esconder decisões que destruíram famílias, vi pessoas perderem tudo, vi documentos desaparecerem, vi inocentes pagarem por crimes que nunca cometeram. Maytê levou a mão à boca, a voz tremia, era a voz de alguém que carregava culpa. — Eu deveria ter contado a verdade muito antes,, mas tive medo. — a gravação chiou e depois voltou — Quando finalmente decidi falar, já era tarde. Henrique olhou ao redor do quarto. — Isso foi gravado há muitos anos. Gustavo apenas assentiu, os olhos permaneciam fixos no gravador. — Existe uma prova. — a frase fez os três prenderem a respiração — Uma prova capaz de revelar tudo o que Augusto Ferraresi fez. Se essa prova ainda existir, não deixe que caia nas mãos erradas. A gravação foi interrompida por um forte ruído e depois... silêncio. A fita chegou ao fim. - Ninguém falou durante quase um minuto, foi Henrique quem quebrou o silêncio. — Então seu pai... Gustavo levantou a mão. — Não. — sua voz saiu baixa — Eu não vou condená-lo sem saber toda a verdade. Maytê olhou para ele, orgulhou-se daquela resposta. Meses atrás, Gustavo teria reagido com raiva. Agora... escolhia primeiro entender. Ela apertou sua mão. — Vamos descobrir juntos. Ele sorriu de leve. — Juntos. - Henrique começou a examinar o quarto, havia uma estante antiga. Alguns livros cobertos de poeira, uma escrivaninha de madeira. As gavetas estavam vazias ou quase. Na última delas, encontrou uma chave pequena e enferrujada, com uma etiqueta presa por um barbante. Nela estava escrito apenas: Arquivo 12. — Acho que isso não estava aqui por acaso. Gustavo pegou a chave, era antiga. Muito antiga. — Arquivo do quê? Ninguém sabia. - Enquanto os dois examinavam o cômodo, Maytê caminhou até a janela. A vista dava para o jardim abandonado da fazenda, as árvores escondiam boa parte da propriedade. Foi então que ela viu um reflexo, como a luz do sol batendo em um vidro, mas desapareceu no mesmo instante. Ela estreitou os olhos, tentando encontrar novamente. Nada. Mesmo assim, sentia que havia alguém ali, observando. — Gustavo... — chamou, e ele virou-se imediatamente. — O que foi? — Acho que não estamos sozinhos. Henrique caminhou até a janela, olhou para o jardim. Silêncio. Então, um galho quebrou. Os três se entreolharam, Henrique não esperou e saiu correndo escada abaixo. Gustavo foi logo atrás, Maytê também. Quando chegaram ao lado de fora, o jardim estava vazio. Apenas o vento balançava as folhas. Henrique caminhou alguns metros e parou, abaixando-se. — Vejam isso. No chão havia marcas recentes de pneus, alguém estivera ali há pouco tempo e tinha ido embora às pressas. Voltaram para dentro da casa, a tensão aumentava a cada minuto. Gustavo guardou cuidadosamente o gravador e a chave na mochila. — Vamos levar tudo. disse, e Henrique concordou. — Pode ser importante. Quando já se preparavam para sair, Maytê percebeu um quadro torto pendurado na parede do corredor. Era estranho. Todo o restante da casa estava abandonado, mas aquele quadro parecia ter sido mexido recentemente. Ela o retirou da parede, atrás dele havia um pequeno compartimento escondido e dentro, um envelope. Gustavo abriu cuidadosamente, havia apenas uma folha dobrada escrita à mão. A caligrafia era a mesma da fotografia. "Se encontraram isto, significa que chegaram antes deles." — o coração de Gustavo acelerou, continuou lendo — "Não confiem em ninguém que trabalhou diretamente para Augusto Ferraresi." Henrique respirou fundo. — Isso reduz bastante nossa lista de suspeitos. Mas a última frase fez o sangue de todos gelar. "O homem que destruiu minha vida ainda está vivo." Maytê levantou lentamente os olhos. — Achei que estivéssemos investigando alguém morto. Gustavo dobrou a carta, seu rosto estava sério, muito sério. — Acho que estamos investigando alguém... que nunca deixou de agir. Naquele instante, um forte barulho ecoou do lado de fora. Os três correram até a porta, o carro de Henrique, os quatro pneus estavam completamente cortados e preso ao para-brisa havia um novo bilhete. Apenas duas palavras. "Vocês demoraram."






