Mundo ficciónIniciar sesiónEmma Carter
Os dias foram se arrastando desde aquela noite, o hospital parecia o mesmo para todo mundo… menos para mim.
Oliver continuava afastado das aulas. A justificativa oficial eram os transplantes urgentes e a agenda sobrecarregada, e de fato eu sabia que ele passava horas no centro cirúrgico. Mas, para mim, a ausência dele tinha outro peso.
No seu lugar, estava o professor substituto. Ele dava as aulas com competência, mas sem aquela intensidade silenciosa que Oliver carregava. Eu fingia que não me importava, que era até melhor assim.
Mentira.
Porque todas as vezes que eu lembrava dele… meu corpo reagia de um jeito estranho, quase incontrolável. Era como se só a lembrança do seu olhar pudesse incendiar minha pele.
E, pior, algumas noites eu acordava ofegante, depois de sonhar que ele me empurrava contra a parede, me prendendo com o corpo, e nós estávamos prestes a…
Eu odiava admitir, mas esses sonhos estavam ficando cada vez mais vívidos.
E, quando a madrugada voltava ao silêncio, eu ficava ali, sozinha na cama, sentindo o coração disparar e o corpo implorar por algo que eu não deveria querer.
No hospital, eu tentava me proteger como podia.
Quando o via nos corredores, mudava de rota. Às vezes entrava em uma sala de prontuários, outras desviava por alas menos movimentadas. Era mais seguro do que encarar aquele olhar de novo.
Foi numa tarde comum que um rosto novo apareceu entre nós. Um residente recém-chegado, de sorriso fácil e olhar atento demais. Não demorou para ele começar a puxar conversa comigo. Primeiro sobre casos do hospital, depois sobre música, cinema… qualquer assunto que prolongasse o tempo que passávamos lado a lado.
E então veio o convite.
Estávamos no corredor do hospital, quase na hora da troca de plantão, quando ele se aproximou mais do que deveria.
— Emma, o que acha de sairmos depois do plantão? — disse ele, com um sorriso confiante.
Antes que eu pudesse responder, ele ergueu a mão e, num gesto íntimo demais para dois colegas, afastou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. O toque foi rápido, mas suficiente para me deixar desconfortável. Ele permaneceu perto, tão perto que eu pude sentir o calor da sua respiração.
E foi exatamente nesse momento que senti aquele arrepio familiar.
Olhei por cima do ombro do novo residente e vi Oliver Jones parado no fim do corredor. O olhar dele era… perigoso.
Ele começou a caminhar na nossa direção com passos firmes, o silêncio dele pesando mais do que qualquer palavra. Quando chegou perto, a voz grave cortou o ar:
— Senhorita Carter — disse, encarando primeiro o outro residente e depois voltando para mim. — Precisa me acompanhar até minha sala. Agora.
O novo residente pareceu engolir seco, recuando um passo. Eu fiquei imóvel por um instante, sentindo o coração martelar no peito, antes de finalmente assentir e seguir Oliver.
E, no fundo, eu sabia que aquela não seria uma conversa qualquer.
Oliver Jones:
Quando Emma fechou a porta atrás de si, o clique do trinco ecoou baixo. Eu girei a chave, trancando-a. Não era o tipo de conversa que eu queria que alguém interrompesse.
— O que você estava fazendo com o novo residente? — perguntei, sem rodeios.
— O nome dele é… — ela começou, mas eu a cortei.
— Não quero saber quem ele é. Quero saber o que vocês têm.
— Isso não é da sua conta. — O tom dela foi firme, quase desafiador. — Talvez o senhor devesse cuidar da sua vida.
Meu maxilar travou, e comecei a me mover: lento, um, dois passos. Ela recuou meio passo, instintivamente.
Os olhos dela me seguiam, atentos, calculando cada centímetro que nos separava — e que eu diminuía.
— Engraçado… — murmurei, parando a poucos centímetros do seu corpo. Meu olhar prendeu-se ao dela como um grilhão. — Porque não foi o que pareceu quando você estava com a minha boca na sua.
— Você mesmo disse que foi um erro. — Ela respirou fundo, mas não desviou.
— Cala a boca. — Inclinei meu rosto para mais perto, tão perto que senti o hálito quente dela.
A frase saiu quase como um rosnado, segurei seu rosto e a beijei. O primeiro toque de lábios foi uma explosão contida. A tensão que nos segurou por dias, agora queimava de dentro para fora. Minhas mãos deslizaram para sua cintura, puxando-a contra mim. Ela reagiu sem pensar e tomou impulso e cruzou as pernas na minha cintura, colando-se ao meu corpo como se não quisesse nunca mais se separar.
A mesa estava logo atrás. Dei dois passos e a sentei sobre ela, o impacto derrubando canetas, pastas e um copo. Nada importava além do gosto dela.
Minha boca explorava cada centímetro da sua, como se eu quisesse apagar qualquer lembrança de outro homem, as mãos dela subiram para minha nuca, puxando meus cabelos, e o movimento me arrancou um baixo gemido.
Puxei o uniforme azul por cima, revelando um sutiã vermelho com tule transparente. O tecido delicado contra minha pele só me deixou mais duro, pressionei meu pau entre as pernas dela por cima da calça, sentindo-a ofegar. Beijei o pescoço, os ombros, a curva dos seios, enquanto minhas mãos buscavam o fecho do sutiã.
E então três batidas secas na porta.
— Oliver! — A voz grave e autoritária do meu pai quebrou o ar denso.
Eu congelei. Ainda com as mãos no corpo dela, o peito arfando, ciente de que estávamos perigosamente perto de um ponto sem retorno.
A voz do meu pai ecoou como um balde de água fria, mas o calor entre nós continuava queimando.
Me afastei de Emma lentamente, respirando fundo para recuperar o controle. As mãos dela ainda seguravam minha camisa, e seu peito subia e descia rápido.
— Vista-se — murmurei, baixo, quase um comando.
Ela desceu da mesa, puxando o uniforme para cobrir o corpo, tentando ajeitar o cabelo, mas eu sabia… o vermelho das bochechas dela não era apenas vergonha. Peguei as coisas que estavam no chão e organizei na mesa o mais rápido possível.
Girei a chave e abri a porta, meu pai estava lá, impecável como sempre, o terno alinhado, o olhar crítico percorrendo meu rosto como se pudesse adivinhar no que eu estava metido segundos antes.
— Interrompo alguma coisa? — ele perguntou, seco.
— Trabalho — respondi sem hesitar, mas minha voz soou mais rouca do que deveria.
— Certo… — Ele desviou o olhar para Emma, que estava a um passo atrás de mim, tentando parecer neutra — Senhorita Carter.
Ela apenas assentiu, com um leve sorriso educado, antes de sair pela porta sem dizer nada. Não olhou para mim. Não parou.
E aquilo me irritou mais do que deveria, meu pai entrou, falando sobre um jantar com investidores e insistindo para que eu assumisse a presidência do hospital. Eu o ouvia pela metade. Minha mente ainda estava presa à sensação do corpo dela contra o meu, ao gosto da boca dela, ao toque quente da pele revelada por aquele sutiã vermelho.
O nome dela era uma faca que me cortava de dentro para fora.
Quando meu pai saiu, a sala voltou ao silêncio, eu olhei para a porta fechada e percebi que estava mais frustrado do que antes. E, no fundo, sabia que aquilo não ia acabar ali.
Nem de longe.
***
O plantão da noite já estava na metade quando o celular vibrou no bolso do meu jaleco.
Era a central de transplantes. Um coração havia chegado e a cirurgia precisaria começar imediatamente.
Peguei o prontuário, revisei os exames e caminhei em direção ao centro cirúrgico. Enquanto andava pelos corredores silenciosos, senti aquele arrepio conhecido na pele, antes mesmo de vê-la: Emma.
Ela estava parada perto da ala de emergência, conversando com uma enfermeira e anotando algo em seu caderno. O cabelo preso deixava o pescoço exposto, a curva delicada da clavícula aparecendo por baixo do jaleco.
Quando me viu, ela congelou por um instante, como se também sentisse o impacto.
Eu não diminuí o passo.
— Senhorita Carter — falei, baixo, quando parei diante dela.
— Doutor Jones — respondeu formal, mas os olhos… os olhos diziam outra coisa.
Ficamos alguns segundos apenas nos encarando. Nenhum dos dois cedia. O corredor parecia estreitar ao nosso redor.
Eu devia seguir para a cirurgia, mas o que fiz foi dar um passo a mais.
— Está de plantão até que horas? — perguntei.
— Até às seis — respondeu, e mordeu o lábio inferior.
Meu olhar desceu para aquela boca, e por um momento imaginei como seria beijá-la ali mesmo, contra a parede fria do hospital.
— Fique longe do novo residente — falei por fim, sem explicar, sem justificar.
— Não sabia que isso fazia parte do protocolo médico. — Ela ergueu as sobrancelhas, quase sorrindo.
— Não faz — inclinei-me o suficiente para que minha boca roçasse perto da orelha dela. — Mas eu não ligo.
Afastei-me antes que pudesse responder, e ela ficou me olhando enquanto eu caminhava até a porta dupla do centro cirúrgico. Eu podia sentir seus olhos queimando minhas costas. E, naquele momento, soube que estava me colocando num jogo perigoso demais…
E que eu não queria, nem por um segundo, sair dele.







