Mundo de ficçãoIniciar sessãoOliver Jones:
Passei pela cafeteria, peguei meu café preto, sem açúcar, como sempre. O líquido quente escorreu pela garganta, ajudando a acalmar o resto do corpo que ainda vibrava com a adrenalina.
Caminhei até minha sala. Queria uns minutos de silêncio antes da próxima reunião. Mas quando abri a porta, encontrei meu irmão sentado na poltrona de frente para minha mesa.
— Até que enfim, hein, doutor? — disse Ryan, erguendo uma sobrancelha, com o sorriso provocativo de sempre.
Ele estava à vontade, de terno e gravata soltos, como quem saiu do plantão da delegacia direto pro hospital. Delegado da central de homicídios, dez anos mais novo que eu, e dono de um senso de humor ácido que não combinava com aquele horário.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, apoiando o café na mesa.
— Vim te convidar. Hoje à noite tem a inauguração da boate do Kyle. Tá a fim de sair um pouco da rotina ou vai preferir costurar mais uns peitos?
Sorri de canto, pronto pra responder, mas não precisei.
A porta se abriu antes que eu dissesse qualquer coisa.
Meu pai entrou. Edward Jones. Paletó alinhado, gravata de seda, expressão de quem sempre carrega o mundo nas costas.
— Que surpresa encontrar vocês dois juntos — disse, entrando na sala sem pedir licença. — Achei que só veria esse tipo de reunião em Natal ou no funeral de alguém.
Ryan riu, recostando-se na cadeira.
— Relaxa, pai. Não é uma conspiração familiar. Vim só chamar o Oliver pra sair.
Meu pai cruzou os braços, ignorando o comentário.
— Você devia largar essa vida de delegado e assumir o hospital, Ryan.
O sorriso do meu irmão aumentou.
— Isso é pro Oliver, não pra mim. Eu gosto do meu trabalho.
— Ah, claro. Prender criminosos na madrugada deve ser muito mais divertido do que cuidar do hospital da família, né?
Ryan deu de ombros, debochado.
— Pelo menos me mantém acordado.
Suspirei, apoiando as costas na cadeira. Já sabia onde aquela conversa ia parar.
Meu pai respirou fundo, como sempre faz quando está prestes a dar um sermão.
— Não sei se fico feliz ou triste com os filhos que criei — disse, olhando para nós dois. — O mais velho prefere operar corações ao invés de assumir o legado da família. O do meio virou juiz e também não quer saber do hospital. E você, Ryan, se enfia nessa vida policial perigosa como se fosse hobby.
— Talvez seja porque a gente gosta do que faz — respondi, sem me mexer.
— E quem disse que eu não gosto? — ele rebateu. — Eu gosto de fazer o Memorial crescer, de garantir que continue sendo o melhor hospital do país. Isso também salva vidas, Oliver.
Permaneci em silêncio. Ele sabia exatamente como me provocar.
— Só não quero te ver com as mãos tremendo daqui a uns anos, pensando que perdeu o tempo de assumir o lugar que é seu por direito.
Ryan se levantou da cadeira, esticando o terno.
— Pronto, agora sim virou sermão. Eu vou embora antes que sobre pra mim.
Meu pai olhou pra ele, sério.
— Pelo menos você podia convencer o irmão mais velho.
— Ah, não. Isso aí é briga de vocês. Eu tô fora — respondeu Ryan, piscando pra mim. — A propósito, Oliver… pensa na boate mais tarde. Vai fazer bem.
Ele saiu da sala, deixando o ambiente pesado e um rastro de sarcasmo no ar.
Meu pai permaneceu parado por alguns segundos, me encarando.
— Você não vai operar pra sempre, filho.
— Eu sei.
— Só espero que, quando chegar o dia, não seja tarde demais pra fazer a transição.
Quando ele saiu, a porta fechou devagar.
Fiquei sozinho na sala, o café já quase frio na mesa.
Lá fora, o hospital despertava mais uma vez.
E eu continuava exatamente onde sempre quis estar.
***
A música vibrava nas paredes. Grave, intensa, preenchendo o ambiente com uma energia quase palpável. Luzes de neon cortavam a penumbra da boate recém-inaugurada. No bar, copos tilintavam, corpos se esbarravam na pista, e o cheiro de álcool misturado a perfume caro dominava o ar.
Entrei mais por insistência do Ryan do que por vontade própria. Ainda usava o blazer escuro por cima da camisa social, mesmo com o calor abafado da casa noturna. Atravessei o salão, ignorando os olhares femininos que me acompanhavam.
— Achei que não vinha — disse Ryan, surgindo ao meu lado com um copo de gin tônica na mão. — Perdi uma aposta com o juiz, aliás.
— Que aposta? — perguntei, levando o uísque à boca.
— De que você ia inventar uma desculpa qualquer e sumir no último minuto. Como sempre.
Dessa vez, quem apareceu foi Thomas, o filho do meio. Terno alinhado, olhar sério demais pra um sábado à noite.
— Confesso que tô surpreso — disse ele — Oliver Jones… numa balada. Isso devia ser notícia no jornal.
— E vocês dois têm o hábito de frequentar esse tipo de lugar agora? — retruquei, lançando um olhar entre eles.
— De vez em quando, sim. A vida não é só processos, nem bisturi — respondeu Thomas.
— E nem criminosos presos às três da manhã — completou Ryan, rindo.
Balancei a cabeça, mas antes que pudesse responder, algo desviou completamente minha atenção.
Do outro lado do salão, perto do bar, uma silhueta me prendeu o olhar.
Vestido preto curto. Cabelos soltos em ondas leves. Um sorriso tímido enquanto conversava com a amiga que dançava ao lado. Ela parecia deslocada ali, como se não pertencesse ao ambiente... e, ao mesmo tempo, como se tudo tivesse sido feito sob medida pra ela.
Não sei como a reconheci tão rápido. Talvez tenha sido o modo como seus olhos brilhavam sob as luzes piscando. Ou a maneira como ela olhava ao redor, atenta, mas tentando parecer indiferente.
Ela não me viu.
Mas meu corpo reagiu antes mesmo de eu perceber. O calor subiu pelas veias. A lembrança dela de camisola curta, no parapeito do prédio, invadiu minha mente como um soco.
— Terra chamando Oliver — disse Ryan, estalando os dedos diante do meu rosto. — O que foi agora?
— Nada — menti, virando o rosto e tomando mais um gole do uísque..
— Tá encarando alguém, é? — Thomas perguntou, com um tom provocador.
— Tô observando. Não é a mesma coisa.
— Cara, relaxa. Hoje não é plantão. Hoje é diversão.
Tentei me concentrar na conversa, mas a verdade é que minha atenção já tinha sido sequestrada. Ela ria de algo que a amiga dizia, e o som, mesmo abafado pela música, parecia doce demais pra ser ignorado.
O pior de tudo? Eu ainda não sabia o nome dela.
E isso só aumentava a vontade







