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Capítulo 6 - Dr. Gostoso

Emma Carter

Assim que a porta do meu apartamento se fechou, encostei as costas nela e fiquei parada, como se precisasse de alguns segundos para processar o que tinha acabado de acontecer. Ainda sentia o calor das mãos dele segurando meu rosto, o peso do seu olhar, a quase certeza de que ele ia me beijar… até o elevador voltar a funcionar.

Meu corpo inteiro estava em alerta. A respiração curta. O coração batendo rápido demais.

Fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água quente escorrer pela pele, tentando acalmar algo que não tinha nada a ver com medo. Era desejo. Cru, urgente, proibido.

Fechei os olhos e a lembrança da sua voz grave, do calor do seu corpo tão próximo, me fez morder o lábio. Tentei afastar a imagem, mas ela voltou com mais força. Só saí do chuveiro quando percebi que estava começando a tremer e não era de frio.

Escolhi um pijama curto, quase impróprio para ser visto por qualquer vizinho. Um tecido fino, leve, que cobria apenas o necessário. Não era proposital… ou talvez fosse, mas eu não queria admitir nem para mim mesma.

Peguei uma taça de vinho e fui até o parapeito da varanda. A noite estava fria, mas o céu limpo deixava as estrelas mais nítidas. Apoiei os cotovelos na mureta, fechando os olhos por um instante, respirando o ar gelado.

Foi então que ouvi passos, virei o rosto e lá estava ele.

Oliver, com o cabelo molhado penteado para trás, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Sem camisa. O peito largo e definido, iluminado pela luz suave que vinha de dentro do apartamento dele. Um copo de uísque na mão.

— Parece que não sou o único com dificuldade pra dormir — disse, a voz grave cortando o silêncio.

— Talvez — respondi, tentando manter o tom leve, mas a tensão era palpável.

Ele deu um passo mais perto da mureta que separava nossas varandas. Os olhos passearam por mim de um jeito que fez minha pele inteira se arrepiar.

— Esse pijama… — A pausa dele foi calculada, o olhar demorando mais do que deveria nas minhas pernas. — Vai acabar matando algum vizinho do coração.

— Ainda bem que não tem tantos por aqui — sorri de canto.

Ele se aproximou mais, até que a distância entre nós parecia ridícula. Então, com um movimento calmo, colocou o copo sobre a mureta e apoiou as mãos nela. Num impulso, saltou para o meu lado.

Meu corpo reagiu imediatamente. O ar pareceu sumir. Ele ficou perto o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava da sua pele.

— Você sabe que isso é errado… — murmurei, mas minha voz saiu mais como um suspiro do que como uma advertência.

— Eu sei — respondeu, a voz grave quase roçando meus lábios. — Mas eu não consigo parar.

E antes que eu pudesse pensar em qualquer resposta, a mão dele deslizou para a minha nuca, puxando-me para mais perto. Seu corpo encostou no meu, firme, seguro… e então ele me beijou.

Não foi um beijo calmo. Foi faminto, urgente, como se ele tivesse segurado esse momento desde o segundo em que me viu pela primeira vez. Minhas mãos subiram para o seu peito quente, sentindo cada músculo se contrair sob meus dedos.

O mundo sumiu. Só existia o sabor dele, o toque firme, o cheiro intoxicante que me envolvia inteira.

Quando ele finalmente se afastou, meus lábios ainda ardiam e minhas pernas pareciam incapazes de me sustentar.

— Boa noite, vizinha — sussurrou, como se soubesse que tinha acabado de atravessar uma linha da qual nenhum de nós voltaria.

Oliver Jones:

Ela ainda estava encostada na mureta quando eu recuei um passo. Os lábios dela… ainda quentes contra os meus. O sabor doce misturado ao álcool. O olhar meio perdido, as bochechas coradas pelo frio ou pelo que acabamos de fazer.

Eu não deveria ter feito aquilo. Mas no momento em que meus dedos tocaram a pele macia da nuca dela, eu já não tinha mais escolha.

Pulei de volta para minha varanda, o coração batendo rápido demais para um homem que vive com as mãos dentro de um corpo aberto, na sala de cirurgia. Apoiei as costas na parede, tentando recuperar o controle.

O cheiro dela ainda estava em mim. E isso me irritava.

Irritava porque eu sabia que aquela garota, aquela residente que nem sei o nome, está a vinte anos de distância da minha vida, do meu mundo, do meu passado. Irritava porque, mesmo assim, meu corpo reagia a ela como se fosse inevitável.

Passei a mão no cabelo molhado, sentindo a frustração crescer. Peguei o copo de uísque e virei o restante de um gole só. O líquido queimou a garganta, mas não levou embora a sensação dela nos meus braços.

Voltei para dentro e fechei as cortinas, como se isso fosse suficiente para colocar uma barreira entre nós. Mas minha mente já tinha guardado cada detalhe — a forma como ela me olhou quando atravessei a mureta, o jeito como seu corpo colou no meu durante o beijo, a respiração acelerada.

E, pior de tudo… eu queria mais.

Joguei a calça de moletom sobre a poltrona e fui para o chuveiro novamente, deixando a água quente bater nos ombros. Eu precisava de clareza. Precisava lembrar quem sou e o que está em jogo.

Mas cada vez que fechava os olhos, era o rosto dela que surgia. Os lábios entreabertos. Os olhos grandes, cheios de algo entre medo e desejo.

Terminei o banho sem pressa, sequei o cabelo com as mãos e fui para a cama. Liguei o abajur, encarei o teto por alguns minutos… e entendi que não haveria sono naquela noite.

Porque eu tinha cruzado uma linha, e agora… não tinha mais volta.

***

Cheguei ao Memorial mais cedo do que o habitual. Não dormi. Passei a madrugada virando na cama, revivendo aquele beijo como uma maldita obsessão.

O corredor principal estava silencioso, iluminado pelas luzes brancas e frias que eu conhecia bem. Cumprimentei alguns médicos de forma automática e segui direto para minha sala. Precisava revisar o caso do transplante de coração que poderia chegar a qualquer momento.

Mas não importava o quanto eu tentasse focar nos exames e relatórios… minha mente me traía. Voltava sempre para o toque dela. Para a forma como sua respiração acelerou quando segurei seu rosto. Para a maciez dos lábios contra os meus.

— Oliver! — A voz do meu irmão soou na porta, quebrando minha concentração. Ele entrou com aquele ar relaxado de quem nunca leva nada muito a sério. — Vi que você sumiu da balada ontem.

— Tinha coisas mais importantes pra fazer — respondi seco, sem tirar os olhos do computador.

— Mais importante do que se divertir? É a sua cara — ele riu.

Não respondi.

Minutos depois, já no centro cirúrgico, revisei a agenda do dia. Foi então que ela entrou.

A primeira vez que a vi no hospital à luz da manhã. Jaleco branco impecável, crachá pendurado no bolso, cabelos presos num coque frouxo. Emma Carter. Finalmente li o nome dela no distintivo, e ele ficou gravado como se tivesse sido marcado na pele.

Ela conversava com outro residente, mas seus olhos me encontraram por cima da máscara pendurada no queixo. Não foi um olhar casual. Havia reconhecimento. Memória.

E algo mais, ela desviou rápido, mas eu percebi. Percebi o leve rubor nas bochechas, o jeito como suas mãos mexeram no caderno de anotações como quem busca distração.

— Doutor Jones, tudo pronto para a cirurgia das dez — anunciou minha instrumentadora, trazendo-me de volta para a realidade.

Assenti e caminhei até a pia para a antissepsia. Mas, ao lavar as mãos, vi meu reflexo no vidro e entendi que aquela manhã não era como as outras.

Porque, agora, eu conhecia o gosto da minha residente, e isso mudava tudo.

A cirurgia foi um sucesso. Um transplante limpo, sem complicações. Ainda assim, o peso da responsabilidade pulsava nos meus ombros. Lavei as mãos, retirei o jaleco cirúrgico e segui para a sala dos médicos, levando comigo o prontuário de um paciente grave na UTI.

O ambiente estava ocupado por alguns residentes, espalhados em cadeiras, folheando prontuários e digitando anotações apressadas. Alguns levantaram os olhos quando entrei e logo se remexeram nos assentos, desconfortáveis. Era sempre assim. A minha presença silenciava conversas.

Foi então que ela apareceu. Emma Carter entrou na sala como se não carregasse a marca do que tinha acontecido na noite anterior. Jaleco aberto, uniforme azul-claro debaixo, cabelo preso de forma prática. Ela cruzou o espaço sem sequer olhar para mim e pegou algo na bancada como um fichário, talvez, ou algum material médico, o suficiente para me obrigar a notar cada movimento dela.

Quando alguns residentes perceberam que eu estava ali, começaram a sair. Primeiro dois, depois mais um. Em poucos segundos, éramos só nós dois.

E foi quando ela virou para ir embora que minha voz saiu, mais grave do que eu queria.

— Carter! — Ela parou, mas não se virou de imediato. Depois, lentamente, me olhou por sobre o ombro.

— Sim, doutor? — fechei o prontuário nas mãos, tentando organizar as palavras.

— O que aconteceu ontem à noite… foi um erro — mantive o tom frio, controlado —, eu sou seu professor. Apesar de não estar ministrando as aulas agora, por causa das cirurgias e transplantes, ainda assim sou seu instrutor.

Ela arqueou uma sobrancelha, e o canto da boca se curvou num quase sorriso.

— Não faço ideia do que o senhor está falando. — Sua voz veio carregada de ironia. — Somos apenas vizinhos. E, pelo que sei, isso não é crime.

O ar no ambiente pareceu mais denso.

Ela me tratava como se nada tivesse acontecido. Como se aquele beijo não tivesse roubado o fôlego dos dois. Eu deveria agradecer. Afinal, era exatamente isso que eu queria: distância. Limites.

Mas, por algum motivo, aquilo me irritou profundamente.

— Mais alguma coisa, doutor? — Ela deu um passo em direção à porta, mordendo o lábio inferior como se fosse um gesto inocente. Mas não era. Ela sabia.

O calor subiu pelo meu corpo. Minha paciência se rompeu.

Cruzei o espaço entre nós em dois passos e, antes que ela pudesse sair, minha mão segurou sua nuca e minha boca encontrou a dela.

O beijo foi bruto, carregado de tudo o que eu estava tentando negar. Ela respondeu na mesma intensidade, como se tivesse esperado por aquilo desde que nossas bocas se tocaram pela primeira vez.

Minhas mãos deslizaram para a sua cintura, apertando-a contra mim. Uma delas subiu por baixo do uniforme azul que ela usava, encontrando a pele quente da sua lombar.

O gosto dela invadiu todos os meus sentidos. O mundo sumiu. Só restava aquele contato proibido, aquele calor que não deveria existir.

Quando finalmente nos afastamos, nossas respirações estavam pesadas. Ela manteve os olhos fixos nos meus, sem um pingo de medo.

E eu sabia que estava perdido.

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