Mundo ficciónIniciar sesiónOliver Jones:
Emma foi a primeira a quebrar o contato, não se afastou bruscamente, não me empurrou. Apenas recuou um passo, como se o ar entre nós tivesse se tornado denso demais para respirar.
— Então é isso que o senhor chama de erro? — murmurou, a voz baixa, carregada de ironia, os lábios curvados num sorriso quase imperceptível.
Virou-se em direção à porta e caminhou com passos lentos, como se tivesse total consciência de que cada movimento seu me mantinha preso. Ao chegar ao vão, olhou por cima do ombro.
— Boa tarde, doutor Jones — disse, como se estivesse selando o momento.
A porta se fechou atrás dela e o silêncio voltou a dominar a sala. Apoiei as mãos na mesa, inclinando o corpo para frente, tentando recuperar o fôlego que ela tinha arrancado de mim.
No centro cirúrgico, minhas mãos nunca tremem. Sempre mantenho o controle absoluto. Mas com ela… tudo é diferente. O controle se desfaz, e no lugar dele surge algo bruto, urgente, impossível de conter.
Passei os dedos pelo cabelo, tentando reorganizar meus pensamentos. O cheiro dela ainda estava ali, impregnado na minha pele, na minha respiração. Quanto mais eu tentava afastá-lo, mais ele me invadia.
O beijo não era apenas lembrança, era vívido, pulsante, como se ainda estivesse acontecendo.
E, pior, a necessidade de senti-lo de novo já me consumia.
Eu deveria encerrar isso agora, antes que se tornasse perigoso.
Mas, no fundo, eu sabia: o perigo começou no instante em que nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.
Emma
Saí da sala sem olhar para trás, mesmo sabendo que ele continuava ali, parado, me observando.
Minhas pernas seguiam firmes, mas por dentro… o corpo inteiro ainda vibrava pelo que tinha acabado de acontecer.
O corredor parecia mais longo do que o normal. Cada passo ecoava alto demais. A respiração, descompassada, me denunciava, e eu precisava recuperar o controle antes que alguém percebesse.
Apoiei a mão no balcão de recepção por alguns segundos, fingindo folhear uma ficha qualquer. Mas, na verdade, eu só queria me recompor. O gosto dele ainda estava na minha boca, quente, quase viciante.
O problema não era só o beijo.
Era a forma como ele me tocou, como se me conhecesse há muito mais tempo do que conhecia. Como se pudesse atravessar qualquer barreira que eu tentasse erguer.
E eu deixei.
Apertei os lábios, como se isso pudesse apagar a sensação. Não funcionou.
Sabia que deveria tratá-lo apenas como meu professor — ainda que ele mal tenha dado aulas até agora, por causa das cirurgias e transplantes. Mas, na minha cabeça, Oliver Jones nunca foi só “o doutor Jones”.
Era o homem que mora no apartamento ao lado.
O homem que me olha como se enxergasse coisas que eu mesma tento esconder.
O homem que não deveria ter cruzado aquela linha… mas cruzou.
Peguei o fichário que precisava na enfermaria e segui para a próxima ala, mantendo o rosto neutro. Por dentro, eu queimava.
Talvez ele quisesse acreditar que foi um erro. Talvez até quisesse que eu esquecesse. Mas não havia como.
E, se ele acha que pode simplesmente se afastar… está muito enganado.
***
O corredor estava quase vazio, mergulhado naquele silêncio pesado que só acontece tarde da noite no hospital. O som dos meus passos ecoava baixo, acompanhado pelo farfalhar suave das folhas do prontuário que eu segurava. Eu tentava manter a atenção nele e nas anotações, nos números, em qualquer coisa que me mantivesse longe dos pensamentos que insistiam em voltar para ele.
Mas bastou um instante para que tudo caísse por terra, eu senti antes de ver.
O ar pareceu mudar, ganhar peso. Levantei os olhos e encontrei o que vinha tentando evitar: Oliver Jones.
Ele caminhava na minha direção com a mesma segurança com que cruza a sala de cirurgia. Jaleco aberto sobre a camisa escura, postura imponente, olhar fixo, um olhar que não era só profissional, não comigo. E mesmo que ele tentasse esconder, eu sabia que havia algo ali. Algo perigoso.
Meu coração acelerou. Minhas mãos apertaram o prontuário com força, como se aquele pedaço de papel fosse capaz de me ancorar.
Quando finalmente nos encontramos, minha voz saiu baixa demais.
— Doutor Jones. — Ele manteve o olhar cravado em mim, e aquela troca silenciosa foi mais intensa do que qualquer toque.
— Temos um transplante. Vou precisar de foco máximo — disse, com a voz grave, quase um comando.
Assenti devagar, tentando controlar a respiração. Eu queria responder algo simples, formal… mas a verdade é que a proximidade dele me deixava vulnerável demais. Olhei para o chão por um instante, tentando me recompor.
Mas, mesmo sem tocar, ele me atingia, era como se estivesse sob minha pele.
Ele se afastou, caminhando até a porta do centro cirúrgico. Eu deveria simplesmente deixá-lo passar, mas, antes de entrar, ele se virou para mim. O olhar era frio e, ao mesmo tempo, incendiário.
— Isso não acabou — falou, com a voz baixa, quase um sussurro que só eu poderia ouvir.
Por um segundo, esqueci onde estava. Meu corpo respondeu antes que minha mente processasse: um arrepio subiu pela minha espinha, e minha respiração travou.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele desapareceu para dentro da sala.
Fiquei ali, parada, sozinha no corredor, sentindo o impacto daquelas três palavras.
E ele estava certo, não tinha acabado.
Mas o pior ou o melhor, é que eu não sabia se queria que acabasse.







