Mundo ficciónIniciar sesiónEmma Carter
A música vibrava pelo chão, pulsando sob meus pés como se acompanhasse a batida do meu coração. Eu estava de costas para o balcão, os olhos fixos na pista, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o homem que havia me tirado do eixo mais cedo naquele dia.
— Emma, vou ali. O Caio chegou — avisou Júlia, já indo ao encontro do namorado, com um sorriso animado nos lábios.
Assenti, fingindo indiferença, mas por dentro me sentia desprotegida. Estar sozinha ali, com os pensamentos mergulhados no que tinha acontecido, era quase um convite para o caos.
Virei de volta para o bar, buscando apoio no balcão de madeira escura. Pedi uma água com gelo, na tentativa frustrada de me refrescar, mas quando levantei os olhos, o mundo pareceu desacelerar.
Oliver estava a poucos metros, ele não dizia nada. Só me olhava. Olhar firme, frio, calculado… e ao mesmo tempo, carregado de algo mais. Algo que esquentava meu estômago e deixava minha respiração curta.
Seu copo vazio, girava entre os dedos, como se ele estivesse decidindo o próximo movimento de um jogo. A distância entre nós parecia encurtar a cada passo lento que ele dava em minha direção, como se medisse o impacto de cada centímetro conquistado.
Meu corpo enrijeceu. Ele não podia estar vindo até mim, mas estava.
E quando parou ao meu lado, era impossível ignorar sua presença.
O perfume amadeirado se misturava com o cheiro do uísque em sua pele quente. Ele se apoiou no balcão com o antebraço, inclinando o corpo levemente na minha direção.
— Você não deveria estar aqui — disse, finalmente, com a voz rouca e baixa, como se cada palavra tivesse sido cuidadosamente controlada antes de sair.
Não era um tom de reprovação. Era um aviso.
Virei devagar para encará-lo. A pouca luz do ambiente, destaca os traços marcados do seu rosto, os cabelos perfeitamente penteados para trás, agora um pouco bagunçados pela noite. A mandíbula estava contraída.
— E você deveria? — respondi, tentando manter a voz firme, apesar do nó na garganta.
Seus olhos baixaram por um segundo, percorrendo meu rosto, pescoço, a curva dos ombros à mostra. Quando voltaram aos meus, estavam mais escuros.
— Eu vim arrastado — murmurou, com um meio sorriso enviesado. — Você?
— Júlia — respondi. — Meu par de más decisões.
Ele riu, e aquilo me pegou desprevenida. O som era grave e abafado, quase como se ele mesmo estivesse surpreso por ter deixado escapar. Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas o silêncio entre nós não era vazio. Era carregado.
Ele se endireitou, terminando o que restava no copo e deixando-o sobre o balcão. Os olhos ainda em mim.
— Eu deveria saber seu nome — disse, mais para si mesmo do que pra mim. — Mas ainda não tive tempo de olhar a lista dos novos residentes.
Minha respiração prendeu no peito. Ele sabia. Claro que sabia. Mas não completamente. E isso deixava tudo ainda mais instável.
— Talvez seja melhor assim — respondi, numa tentativa desesperada de colocar um limite que eu mesma não sabia se queria.
Ele se aproximou mais um passo. Seu ombro quase roçava o meu agora.
— Não tenho certeza se concordo.
Ficamos ali. Olhares presos e corações acelerados.
A balada ao redor sumiu. As vozes, a música, as luzes — tudo virou ruído de fundo.
Até que alguém chamou o nome dele de longe. Um dos irmãos, talvez um amigo. E num piscar de olhos, ele se afastou, mas não sem antes lançar um último olhar, como um aviso silencioso de que aquilo não tinha acabado.
Júlia reapareceu no meio da multidão, com os cabelos bagunçados e um sorriso bobo no rosto. Estava colada ao namorado, que a mantinha pela cintura como se o resto da balada não existisse.
— Emma, vou dormir na casa do Caio — ela se aproximou no meio da música, os olhos brilhando. Caio já estava ali, segurando-a pela cintura com um sorriso de quem sabia exatamente como a noite deles terminaria. — Quer que a gente te leve?
— Não precisa — respondi, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Vou ficar mais um pouco e peço um carro pelo aplicativo.
— Tem certeza? — Júlia franziu a testa, desconfiada.
— Absoluta. Vocês dois aproveitem — assenti, sorrindo.
— Qualquer coisa, é só mandar mensagem que a gente volta pra te buscar — Caio soltou um riso baixo.
— Prometo que me viro.
— Então me liga quando chegar. Sério, Emma. — Júlia ainda me olhou com aquele ar protetor de sempre.
— Tá bem.
Pedi um drink e deixei meus dedos tamborilando no mármore, enquanto esperava. O barulho dos copos, o cheiro de álcool misturado ao perfume adocicado que vinha de algum lugar próximo, o som abafado da música… tudo era cenário.
Porque eu já sentia o seu olhar, levantei a cabeça e lá estava ele.
Na parte de cima, na área VIP, encostado na sacada como se fosse dono do lugar. Um copo de uísque descansava na mão, os dedos firmes segurando o vidro. Oliver Jones. Os olhos fixos em mim, tão intensos que a sensação era física. Pesavam sobre mim, queimavam como se quisessem atravessar minha pele.
Ele não sorria. Não mexia um músculo. Só me observava, cada segundo calculado.
O barman colocou meu drink na frente e, sem pensar duas vezes, virei tudo de uma vez. O álcool queimou minha garganta, mas não apagou o calor que ele já tinha acendido dentro de mim. Apoiei o copo vazio no balcão, peguei minha bolsa e segui para a saída.
O ar frio da madrugada bateu no meu rosto como um choque, mas antes que pudesse abrir o aplicativo para pedir um carro, aquela voz grave e próxima demais cortou o silêncio.
— Vai embora sozinha? — virei devagar. Ele estava ali. Mais perto do que eu esperava.
— Estou bem. Ia pedir um carro.
— Não precisa. A gente mora no mesmo lugar. Posso te levar — ele se aproximou um passo, a sombra do seu corpo misturando-se com a minha.
— Ah… é verdade. Nos encontramos no outro dia — dei de ombros, tentando disfarçar a tensão.
— Cobertura 1801. Eu sou o 1802.
As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas. Eu deveria dizer não. Era o certo. Mas alguma parte de mim queria saber até onde isso ia dar.
O manobrista se aproximou, entregando a ele a chave de um carro preto esportivo que parecia custar o suficiente para comprar um apartamento. Oliver abriu a porta do passageiro e apenas me esperou.
E eu… entrei.
O couro frio do banco contrastava com o calor que subia pela minha pele. Ele fechou a porta com firmeza, deu a volta e se acomodou no banco do motorista. O perfume amadeirado invadiu o pequeno espaço, e minha respiração ficou mais pesada.
Enquanto ele ligava o carro, a luz suave do painel desenhava seu rosto, realçando a linha da mandíbula e o olhar concentrado. Não falamos nada nos primeiros minutos. O silêncio não era confortável e era carregado, quase sufocante.
A cada farol, eu sentia minha própria pulsação mais forte. Foi quando, ao manobrar para sair de uma rua estreita, o braço dele se moveu e a mão encostou na minha perna.
Não foi proposital. Mas poderia ter sido.
O toque breve disparou uma corrente elétrica pelo meu corpo, e a sensação se espalhou rápido demais. O carro pareceu encolher, o ar ficou mais quente.
Ele percebeu. Não comentou nada. Apenas manteve a mão no câmbio, perto demais da minha pele, como se quisesse me lembrar de que estava ali.
E eu… não consegui me mexer.
Cada segundo ao lado dele me fazia sentir como se estivesse à beira de algo proibido. Algo que eu sabia que poderia me destruir, e mesmo assim, eu não queria que acabasse.
O carro deslizou pelas ruas quase vazias, e o silêncio entre nós era mais intenso do que qualquer conversa. Cada vez que seu braço se movia para trocar de marcha, o calor da sua mão perto da minha perna me deixava em alerta, como se minha pele estivesse em chamas.
Quando estacionamos na garagem do prédio, ele saiu primeiro e abriu minha porta. O gesto foi simples, mas carregado de algo que me fez engolir em seco. Caminhamos lado a lado até o elevador.
O espaço pequeno nos cercou como uma armadilha silenciosa. O ar parecia mais quente e pesado. Eu me encostei na parede, tentando manter distância, mas era impossível não sentir o perfume amadeirado que vinha dele.
Oliver apertou o botão do 18º andar e manteve as mãos nos bolsos. Seus olhos, mesmo quando não me encarava diretamente, pareciam me estudar. Meu coração acelerava.
De repente, as luzes piscaram. O elevador deu um tranco seco e parou. Um pequeno grito escapou da minha garganta antes que eu pudesse me controlar, e meus pés se moveram instintivamente para ele.
— Calma… — sua voz grave soou perto do meu ouvido, baixa e rouca.
Senti suas mãos firmes tocarem meus braços, como se quisessem ancorar meu corpo ao dele. Mas então… ele fez algo que me roubou o fôlego.
Com delicadeza, mas com uma autoridade silenciosa, segurou meu rosto entre as mãos. Seus dedos quentes roçaram minha pele, e o polegar deslizou levemente pelo meu maxilar. Eu respirei fundo, quase sem ar.
A tensão era esmagadora. O mundo inteiro parecia ter desaparecido, restando apenas nós dois e aquele instante prestes a se romper.
Ele inclinou o rosto, e por um segundo eu jurei que ele ia me beijar. Meu corpo inteiro respondeu antes mesmo de acontecer, o meu coração disparado, o estômago em um redemoinho, o calor se espalhando pela pele.
Mas então… o elevador voltou a funcionar com um solavanco. As luzes se estabilizaram, e ele soltou meu rosto com um movimento lento, quase relutante.
Eu não consegui olhar para ele. Meu corpo tremia, não pelo susto, mas pelo que quase aconteceu.
As portas se abriram no 18º andar. Ele saiu primeiro, o silêncio denso entre nós dizendo mais do que qualquer palavra. Caminhamos pelo corredor até às nossas portas.
— Boa noite, vizinha — a voz dele soou baixa, quase um sussurro carregado de algo que não se apagaria tão cedo.
— Boa noite… — respondi, ainda sem recuperar o fôlego.
E quando fechei a porta atrás de mim, percebi que não havia como voltar atrás.







