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Capítulo 3 - Dr. Gostoso

Oliver Jones:

Fechei a porta da cobertura sem disfarçar o peso do dia nas costas. Depois de quatro horas em cirurgia, mais um paciente salvo por milímetros e uma discussão inútil com meu pai no corredor, tudo o que eu queria era silêncio.

Mas o silêncio não trouxe descanso. Trouxe lembranças.

O elevador. O cheiro doce de alguém que eu ainda não conhecia, a garota do jaleco branco. O olhar que atravessou o meu por segundos, como se tivesse o poder de me desarmar.

Soltei o ar devagar e caminhei até o banheiro. Ligar o chuveiro foi quase um ato mecânico, tão automático quanto o copo de uísque que mais tarde levaria à varanda.

A água quente escorria pelos ombros, mas não lavava o pensamento repetitivo que me consumia por dentro. A imagem dela voltava como um reflexo, sem esforço. A forma como mordeu o lábio inferior, a tensão no ar quando nossos corpos dividiram o mesmo espaço no elevador.

Minha mão deslizou pelo abdômen até onde o desejo já latejava. Encostei as costas na parede fria, o vapor embaçando o box, enquanto o prazer invadia cada músculo.

Não pedi licença à consciência. Fechei os olhos e deixei acontecer.

O orgasmo foi intenso, rápido demais, mas não trouxe alívio. O corpo cedeu, mas a cabeça ficou inquieta.

Saí do banho enxugando o rosto, os fios molhados grudando na testa. Escolhi uma calça de moletom, a primeira que vi, e deixei o peito nu. Queria sentir o ar da noite contra a pele. Talvez isso ajudasse.

Na varanda, o copo de uísque gelou minha mão enquanto as luzes da cidade pulsavam lá embaixo. O barulho dos carros era um ruído distante, incapaz de me distrair.

O celular vibrou no bolso, atendi no segundo toque.

— Doutor Jones? — A voz da central de transplantes entrou firme no meu ouvido. — O coração chegou. O helicóptero decola em breve. Estamos acertando os detalhes.

A notícia trouxe foco, mas não afastou o torvelinho dentro do peito.

— Assim que o órgão estiver a caminho, me liguem direto — girei o copo entre os dedos, atento —, não esperem. O transplante precisa ser feito assim que possível.

— Entendido, doutor. Pode deixar.

Desliguei e guardei o celular no bolso da calça. Olhei para o lado, quase por instinto.

E lá estava ela, a residente do elevador, na varanda ao lado, vestindo uma camisola curta demais para o vento gelado da noite. Os cabelos castanhos e soltos caiam pelos ombros, e os olhos pareciam hipnotizados pelo céu da cidade.

Ela ergueu a barra do tecido, tentando se proteger do frio. O gesto inocente só deixou mais pele à mostra, e meu corpo respondeu no mesmo instante.

Segurei o copo com mais força, tentando controlar o impulso de chamá-la pelo nome que eu ainda não sabia.

Mas antes que eu dissesse mais alguma coisa, uma voz feminina rompeu o ar.

— Amor? Cadê você? — fechei os olhos por um segundo, já imaginando quem era.

Megan surgiu do outro lado da varanda da cobertura, usando um vestido dourado justo, decotado demais, brilhante demais para aquela hora da noite. A maquiagem pesada, o batom vermelho impecável, tudo em contraste com o momento que ela invadia.

Aproximou-se de mim como se ainda tivesse esse direito, pendurando-se no meu braço com aquele sorriso ensaiado.

— Ah, tá aqui! Vem pra dentro, amor. Tá frio.

O problema não era o frio e sim ela, quando virei o rosto, a garota da camisola já não estava mais lá.

Megan continuava falando, mas minha mente permanecia onde queria estar: naquela varanda ao lado.

Soltei meu braço de forma firme, rompendo o contato sem rodeios.

— Vai embora, Megan.

Ela deu uma risada curta, sem acreditar no que ouvia.

— Oliver, você está tenso demais. Vamos conversar.

Mantive a expressão fria.

— Não tem mais conversa. Vai embora agora — o sorriso desapareceu dos lábios dela, dando lugar ao olhar ferido que usava sempre que perdia o controle.

— Eu ainda te amo.

— E eu não amo mais você.

Girei o copo com força. O gelo tilintou de leve, mas minha raiva era maior do que o som do cristal.

— Fica com a mansão, Megan. Já deixei claro. Mas a cobertura não.

Ela cruzou os braços, desafiando.

— Você não vai fazer isso.

— Amanhã mesmo troco as fechaduras.

Virei as costas, encerrando o assunto, e ela permaneceu imóvel por alguns segundos antes de sair, batendo a porta com mais força do que o necessário.

Fiquei sozinho, mas não estava em paz, o meu corpo estava na varanda da cobertura.

Mas minha mente… continuava presa no apartamento vizinho, na garota da camisola curta, na residente desconhecida que, sem esforço algum, já havia mexido com tudo em mim.

***

As horas seguintes passaram como uma névoa.

A madrugada avançava quando o celular vibrou de novo, tirando-me do torpor. Atendi sem pensar, já esperando a notícia.

— Doutor Jones? O helicóptero pousou. O coração está aqui.

A voz do enfermeiro da central de transplantes soou firme, mas eu percebi a tensão por trás do tom profissional. Sabiam que aquele procedimento seria meu. Sempre é.

— Preparem tudo. Estou a caminho.

Vesti a calça social e a camisa preta de botões, sem nem secar o cabelo direito. Passei a mão no rosto, peguei a chave do carro e desci pelo elevador, ainda pensando nela. Na garota da camisola.

Mas quando cheguei no hospital, o foco tomou conta do resto.

Na sala de cirurgia, o tempo sempre desacelera.

O silêncio pesa. Os olhos da equipe me observam como se eu fosse uma entidade à parte. Nenhuma palavra é dita além do necessário.

Vesti o avental estéril, fiz a assepsia e calcei as luvas, enquanto o anestesista monitorava os sinais vitais. O paciente já estava preparado. O coração antigo descansava em falência. O novo pulsava, na máquina de preservação, dentro da caixa ao meu lado.

A mão do instrumentador me entregou o instrumento com precisão. Não precisei olhar para saber quem era. Já conheço os toques, os ritmos, os gestos.

Iniciei a abertura do tórax com calma absoluta, como quem desenha uma linha exata entre a vida e a morte.

As horas correram sem pressa. Cada sutura era feita com concentração total, cada vaso ligado com perfeição.

Durante o processo, a equipe mal respirava.

Só quando conectei o novo coração e vi as primeiras contrações do órgão pulsando sob as minhas mãos, o ar voltou a circular pela sala.

— Retirem a pinça da aorta — ordenei, mantendo o tom firme.

O sangue fluiu, preenchendo as artérias. O coração novo começou a bater no compasso certo.

Ali, naquele momento, é onde eu me sinto vivo, o monitor cardíaco marcou o ritmo. O pulso do paciente se estabilizou, olhei para o visor, respirei fundo e recuei um passo.

— Fechem, por favor.

Agradeci à equipe com um aceno discreto. Não costumo fazer isso sempre, mas naquela madrugada, fiz questão.

— Bom trabalho, pessoal.

Alguns sorriram aliviados. Outros baixaram a cabeça, respeitando o silêncio típico do pós-cirurgia.

Saí da sala com os músculos ainda tensos. Tirei o jaleco, a máscara e as luvas, lavei as mãos com calma. O relógio marcava quase cinco da manhã. A cidade lá fora despertava devagar, mas dentro do hospital, a rotina nunca dorme.

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