AGORA
A chuva caĂa fina sobre SĂŁo Paulo, transformando a cidade num borrĂŁo cinza visto da janela do gabinete. Melina permanecia de pĂ©, imĂłvel, o envelope ainda aberto sobre a mesa, como se aquelas poucas palavras fossem capazes de incendiar tudo o que ela havia construĂdo.
âVocĂȘ aprendeu a lição errada.â
Ela releu a frase pela terceira vez.
Não era ameaça direta.
Era provocação psicológica.
Miguel sempre fora bom nisso: nĂŁo empurrava â cutucava feridas atĂ© que a prĂłpria pessoa se movesse.
A Mamba entrou sem bater.
â Clara estĂĄ insistindo. Diz que Ă© urgente.
Melina respirou fundo.
â Tudo Ă© urgente agora.
â Isso Ă© diferente.
Melina fechou a gaveta com força.
â Manda entrar.
Clara entrou com o rosto pålido demais para ser apenas cansaço.
â VocĂȘ mentiu pra mim â disse, sem rodeios.
Melina ergueu o olhar lentamente.
â Seja especĂfica.
Clara colocou um dossiĂȘ sobre a mesa.
â Eu cruzei datas. Nomes. Processos arquivados. Pessoas que desapareceram da cena pĂșblica logo antes