AGORA
SĂŁo Paulo nunca dorme completamente.
Ela apenas muda de mĂĄscara.
Melina observava a cidade do alto, sentada no chĂŁo do gabinete, os joelhos dobrados, o blazer largado ao lado. O relĂłgio marcava 03h11, mas o tempo parecia suspenso â como se o mundo estivesse aguardando a prĂłxima decisĂŁo dela para continuar girando.
O telefonema da mulher desconhecida ainda ecoava na cabeça.
O corpo que vocĂȘ acha que Ă© o problema⊠nĂŁo Ă© o Ășnico.
Ela fechou os olhos.
Era assim que o passado começava a cobrar:
não com acusaçÔes diretas,
mas com lembranças que exigiam ser revisitadas.
Melina nunca foi do tipo nostĂĄlgica.
Mas naquela noite, sem perceber, deixou que a memĂłria a puxasse para trĂĄs.
Muito antes de Miguel.
Muito antes da HEM.
Ela tinha vinte e dois anos.
Morava em um apartamento pequeno, mal iluminado, numa rua barulhenta demais para permitir descanso real. Trabalhava durante o dia em um escritĂłrio jurĂdico medĂocre, fazendo cafĂ©, organizando pastas e ouvindo homens que se achavam brilhant