O Homem Errado na Hora Certa

A chuva caía forte.

Forte demais.

Como se o céu tivesse simplesmente desistido de se segurar.

Como se tudo estivesse desmoronando… junto com ela.

Cada gota batendo no chão fazia barulho.

Um som constante.

Pesado.

Irritante.

E, de alguma forma, parecia ecoar dentro do peito dela.

Como se a dor tivesse encontrado um ritmo.

E não quisesse mais parar.

Ela não sabia há quanto tempo estava andando.

Não fazia ideia.

Podiam ser minutos, horas ou uma vida inteira.

Nada mais fazia sentido mesmo.

Seus passos eram automáticos.

Um na frente do outro.

Sem pensar.

Sem destino.

Sem vontade.

A cidade continuava viva ao redor.

Carros passando.

Luzes acesas.

Gente rindo, falando, vivendo, fofocando e casais felizes.

Mas pra ela…

Era tudo meio apagado.

Como se alguém tivesse tirado a cor de tudo.

Cinza.

Frio.

Vazio.

Exatamente como ela se sentia.

E pior…

A cena não saía da cabeça.

Não saía.

Não importava o quanto ela tentasse.

Eles.

Na cama.

Aquela cama.

O sorriso da irmã.

Aquela cara… de satisfeita.

Como se tivesse ganhado alguma coisa.

Como se tivesse conquistado algo importante.

E ele…

Tão frio.

Como se ela nunca tivesse sido nada.

Como se nunca tivesse existido.

Como se tudo que viveram fosse… só um negócio.

“Quase tudo, mas o resto foi mentira.”

A frase voltou.

Alta e clara.

Como se alguém tivesse gritado dentro da cabeça dela.

Ela apertou os olhos com força.

— Para… — sussurrou, quase sem voz.

Mas não adiantou.

Não adiantava.

Quanto mais tentava afastar aquilo…

Mais forte vinha.

Mais real.

Mais doloroso.

Seu corpo começou a tremer.

Ela nem sabia dizer se era de frio.

Ou de choque.

Ou de tudo junto.

Seus braços se envolveram automaticamente, tentando se abraçar, como se isso fosse ajudar.

Mas não ajudava.

Nada ajudava.

E então…

Sem nem perceber…

A mão dela foi até o ventre.

Um gesto automático.

Quase instintivo.

Como se o corpo soubesse antes da mente.

Ela parou no meio da calçada.

A chuva caía sobre ela, encharcando tudo — cabelo, roupa, pele — mas ela nem ligava.

Respirou fundo.

Com dificuldade.

O peito doía.

— Eu… não estou sozinha… — sussurrou.

A voz quase sumiu no barulho da chuva.

Mas ela ouviu.

Ela sentiu.

E aquilo…

Aquilo mudou alguma coisa.

Pequena.

Mas mudou.

Ela não podia simplesmente cair.

Não podia se perder.

Não agora.

Não mais.

Não quando…

Tinha alguém ali.

Dependendo dela.

Mesmo que ainda fosse tão pequeno.

Tão invisível.

Mas real.

Muito real.

Ela fechou os olhos por um segundo.

Tentando se segurar.

Tentando… não chorar.

Mas antes que conseguisse dar outro passo—

Tudo girou.

De repente.

Sem aviso.

Seu corpo vacilou.

As pernas ficaram fracas.

A visão embaçou.

As luzes da cidade se misturaram, viraram manchas.

— Não… — murmurou.

Mas já era tarde.

O chão parecia muito perto.

Ou ela que estava caindo rápido demais.

E então…

Escuridão.

--

— Senhor… ela desmaiou.

A voz veio distante.

Como se estivesse debaixo d’água.

Difícil de entender.

Difícil de alcançar.

— Tire-a daqui.

Essa voz…

Era diferente.

Mais firme e mais autoritária.

Do tipo que não pede.

Manda.

E é obedecida.

Braços fortes a levantaram do chão.

Ela sentiu.

Ou quase.

Seu corpo estava leve e pesado ao mesmo tempo.

Sem controle.

Sem força.

Sem reação.

O cheiro mudou.

Antes era chuva.

Asfalto molhado.

Agora…

Couro.

Carro.

Porta abrindo.

Movimento.

Ela sendo colocada em algum lugar.

Um banco, macio.

Porta fechando.

E depois…

Silêncio.

Quando abriu os olhos…

Tudo estava branco.

Branco demais.

O teto.

As paredes.

A luz.

Até o cheiro.

Limpo e forte de... Hospital.

Seu coração disparou na hora.

Ela levou a mão até o ventre antes de qualquer outra coisa.

Antes mesmo de pensar.

Antes de respirar direito.

Ainda estava ali.

Ela soltou o ar devagar.

Um alívio estranho.

Silencioso.

Mas forte.

— Finalmente acordou.

A voz fez o corpo dela travar.

Não era suave.

Não era acolhedora.

Não era de enfermeira.

Nem de médica.

Era masculina.

Grave.

Controlada.

Ela virou o rosto devagar.

E quando viu…

Prendeu a respiração.

Ele era alto, moreno, barba intocável e um corpo completamente escultural.

Postura perfeita.

Terno escuro, impecável, como se tivesse saído de uma reunião importante.

Ou de um lugar onde pessoas como ela… não pertenciam.

Os olhos dele…

Eram frios.

Mas não só frios.

Eram atentos.

Como se estivessem lendo ela.

Analisando.

Entendendo tudo.

Cada detalhe.

Como se ela fosse um problema.

Ou algo interessante demais pra ignorar.

— Q-quem é você…? — ela perguntou.

A voz saiu fraca.

Quase falhando.

Ele não respondeu na hora.

Claro que não.

Só ficou olhando.

Em silêncio.

E aquele silêncio…

Era pesado.

Desconfortável.

Quase sufocante.

— Eu poderia perguntar o mesmo — disse, finalmente.

A voz dele era calma e doce.

Mas tinha algo ali.

Algo perigoso.

Ela tentou se levantar.

Mas o corpo não ajudou.

Tudo doía.

Tudo estava fraco.

— Fica.

Uma palavra só.

Mas…

Ela ficou.

Sem nem perceber.

Como se não tivesse escolha.

— Você desmaiou na rua — ele continuou. — Quase foi atropelada.

Ela engoliu seco.

— Eu… não lembro.

— Eu imagino.

O olhar dele desceu.

Rápido.

Até o ventre dela.

Mas foi o suficiente.

Ela percebeu.

E o coração acelerou.

— O médico disse que você precisa descansar — ele continuou. — Principalmente considerando sua condição.

O corpo dela gelou.

— Q-que condição…?

Ela já sabia.

Mas mesmo assim perguntou.

Como se negar fosse mudar alguma coisa.

Ele inclinou levemente a cabeça.

Observando ela.

— Gravidez.

Silêncio.

Total.

O mundo simplesmente… parou.

Ela não conseguiu respirar por um segundo.

— Eu… — tentou falar.

Negar.

Mentir.

Fugir.

Mas não conseguiu.

Porque era verdade.

E agora…

Ele sabia.

Um estranho.

Um homem que claramente não era qualquer um.

Um homem que… não parecia alguém que você simplesmente ignora.

— Quem é você? — ela perguntou de novo.

Mais firme.

Mesmo com medo.

Ele a observou mais um pouco.

E então—

— Alguém que acabou de salvar a sua vida.

Direto.

Sem emoção.

Sem nome.

Sem explicação.

— Eu não pedi ajuda — ela disse, quase na defensiva.

Um leve sorriso apareceu nos lábios dele.

Mas não era gentil.

Era… diferente.

Perigoso.

— Não — ele disse. — Mas precisava.

Ela odiou o fato de ele estar certo.

— Eu já estou melhor — disse, tentando parecer forte. — Pode ir.

Mas ele não se mexeu.

Nem um pouco.

— Não.

Simples.

Como se fosse óbvio.

— Como assim “não”?

— Você não tem para onde ir.

Ela travou.

O coração apertou.

— Isso não é da sua conta.

— Agora é.

Aquilo foi… estranho.

E assustador.

— Eu posso me virar — ela insistiu.

Ele deu um passo.

Depois outro.

E de repente…

Ele estava perto demais.

A presença dele era intensa.

Pesada.

Difícil de ignorar.

— Você está grávida. Sozinha. Abalada e sem direção.

Cada palavra era precisa.

Como se ele estivesse observando ela desde do começo.

— E acha que pode simplesmente sair andando?

Ela abriu a boca.

Mas não tinha resposta.

Porque ele estava certo.

De novo.

— Quem te fez isso? — ele perguntou.

Ela congelou.

— Isso não importa.

— Importa pra mim.

O tom mudou.

Mais sério.

Mais… pessoal.

— Por quê?

Silêncio.

Ela achou que ele não responderia.

Mas respondeu.

— Porque eu não gosto de ver pessoas sendo descartadas.

Aquilo pegou ela desprevenida.

Completamente.

Ela não sabia o que dizer.

— Você não me conhece — disse.

— Ainda não, mas sua situação diz muito sobre você.

O coração dela falhou uma batida.

— E nem quero. -disse ela.

Outro pequeno sorriso

— Isso pode ser um problema.

Ela respirou fundo.

Tentando manter o controle.

— Eu vou embora.

Tentou levantar e conseguiu.

Mas estava fraca.

E antes de dar um passo—

Ele segurou o braço dela.

Firme.

Quente.

— Eu disse… não.

O coração disparou.

— Me solta.

Mas ele não soltou.

Se aproximou mais.

Perto demais.

— Você pode ir — disse, baixo. — Mas lá fora… vai voltar pra mesma vida sem rumo que lhe encontrei.

Ela engoliu seco.

— Ou pior.

Os olhos dele estavam presos nos dela.

Intensos.

— Pode escolher isso…

Uma pausa.

— Ou pode escolher ficar.

O silêncio ficou pesado.

Carregado.

Confuso.

— Ficar… com você?

— Por enquanto.

Nada seguro.

Nada confiável.

Mas… Melhor que nada.

Ela odiava estar pensando nisso.

— E o que você ganha com isso?

Ele sorriu.

De verdade dessa vez.

Lento e calculado.

— Interesse.

O coração dela apertou.

— Interesse em quê?

Ele se inclinou levemente.

E disse, baixo:

— Em você.

O ar sumiu.

— Isso não faz sentido…

— Vai fazer.

Ele soltou o braço dela.

Mas o olhar…

Ainda estava lá.

— Você entrou em algo maior do que imagina.

Um arrepio percorreu o corpo dela.

— Do que você está falando?

Ele se afastou.

Voltando a ser frio.

Controlador e Distante.

— Descanse — disse. — Depois conversamos.

E virou as costas.

Caminhou até a porta.

E antes de sair—

Parou.

Sem olhar pra trás.

— Ele não vai te deixar em paz.

O coração dela travou.

— Quem?

Silêncio.

Então—

— O homem que te traiu.

A porta se fechou.

E ela ficou ali.

Sozinha.

Com o coração acelerado.

A cabeça confusa.

E uma certeza crescendo devagar…

Aquilo não tinha acabado.

Nem de longe.

E, pela primeira vez…

Ela teve medo.

Não só do que já aconteceu.

Mas do que ainda estava por vir.

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