Ele Veio Buscar o Que é Dele

O quarto ainda estava silencioso.

Mas não era aquele silêncio bom.

Não era paz.

Era… estranho.

Como se o ar estivesse cheio de alguma coisa invisível.

Como se algo fosse acontecer a qualquer momento.

Helena estava parada perto da janela, abraçando o próprio corpo, olhando a cidade lá embaixo.

As luzes continuavam lá.

Carros passando.

Gente vivendo.

Tudo normal.

Como se o mundo não tivesse acabado.

Como se a vida dela não tivesse simplesmente desmoronado em poucas horas.

Era estranho pensar nisso.

Tudo ainda parecia meio… falso.

Como se fosse um pesadelo horrível.

Ou de uma realidade que ela ainda não conseguiu acordar.

A traição.

A cena.

Aquela imagem que insistia em voltar.

Ele.

A irmã.

A cama.

Ela fechou os olhos com força.

— Para… — murmurou.

Mas não parava.

Nunca parava.

E como se não fosse suficiente…

A gravidez.

Aquilo ainda parecia impossível.

Irreal.

Assustador.

Sua mão foi até o ventre, devagar.

Com cuidado.

Quase com medo.

Como se tocar fosse confirmar tudo.

Ela respirou fundo.

O peito apertou.

— Eu vou te proteger… — sussurrou.

A voz saiu baixa.

Fraca.

Mas sincera.

Mesmo sem saber como.

Mesmo sem ter nada.

Nem dinheiro.

Nem casa.

Nem apoio.

Nem ninguém.

Ou…

Era o que ela achava.

Porque agora tinha ele.

O homem estranho.

O homem que apareceu do nada.

Que ajudou.

Que sabia.

Que não parecia alguém comum.

Ela não entendia aquilo.

Nada fazia sentido.

E, no fundo…

Aquilo dava medo.

Um medo diferente.

Como se ela tivesse entrado em algo que não conseguia controlar.

Como se estivesse sendo puxada pra dentro de uma história que não era dela.

Ainda.

Um som interrompeu tudo.

Passos.

Firmes.

Mas decididos.

Vindo do corredor.

O coração dela disparou.

Instantaneamente.

Sem motivo lógico.

Mas o corpo dela…

Reconheceu.

Antes da mente.

Antes de qualquer pensamento.

Ela ficou imóvel.

O ar preso na garganta.

E então—

A porta se abriu com força.

Sem bater.

Sem aviso.

Sem respeito.

E ele entrou.

O mundo travou.

O ar sumiu.

O corpo dela gelou.

Ele.

Ali.

Na frente dela.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se ele não tivesse destruído ela poucas horas antes.

Impecável.

Como sempre.

Terno perfeito.

Postura impecável.

Olhar frio.

Distante.

Intocável.

Como se fosse dono de tudo.

Como se fosse dono dela.

— Então é aqui que você está.

A voz dele veio calma.

Calculada.

Helena deu um passo pra trás.

Sem nem perceber.

— Como você me encontrou…?

A voz dela saiu baixa.

Mas firme o suficiente.

Ele soltou um riso.

Curto.

Sem graça.

Sem emoção.

— Você realmente achou que poderia desaparecer?

O coração dela apertou.

Ela odiava aquilo.

O jeito que ele falava.

Como se ela fosse… ingênua.

Como se fosse pequena.

— Eu não quero te ver — disse, tentando se manter firme.

Mesmo com as mãos tremendo.

Os olhos dele escureceram levemente.

— Engraçado… — ele respondeu, dando um passo à frente. — porque eu não vim perguntar o que você quer.

Cada passo dele parecia diminuir o espaço.

Deixar o ar mais pesado.

Mais difícil de respirar.

— Vai embora — ela disse, mais forte agora. — Você não tem direito de estar aqui.

Ele inclinou a cabeça.

Observando ela.

Como se estivesse analisando.

Como se estivesse vendo algo curioso.

— Direito? — repetiu. — Você ainda não entendeu, Helena? Eu sou seu noivo e de acordo com sua família, você me deve satisfação e obediência.

O nome dela na boca dele…

Doeu.

Muito mais do que deveria.

— Você é minha responsabilidade.

Ela travou.

O coração falhou uma batida.

— Eu não sou nada sua, depois daquela cena.

Ele ignorou.

Como sempre fazia quando não gostava de ouvir algo.

— Você saiu sem avisar — continuou. — Sem explicação.

Ele deu mais um passo.

Mais perto.

— Isso foi um erro.

E foi aí que algo dentro dela virou.

Raiva.

De verdade.

Pura.

— Erro? — ela soltou, quase rindo de nervoso. — Eu te peguei na cama com a minha irmã!

O silêncio caiu pesado.

Mas ele…

Nem se mexeu.

Nem piscou.

— E?

Aquilo foi como um tapa.

— E?! — a voz dela falhou. — Você destruiu tudo!

— Você está exagerando.

O mundo girou.

Sério.

Ela quase perdeu o equilíbrio.

— Eu estou exagerando?!

— Sim — ele respondeu, simplesmente. — Você sempre foi emocional demais e outra... ela não significou nada para mim.

Aquele choque doeu.

Muito.

Porque não era só frieza.

Era insensibilidade.

— Eu não vim discutir isso — ele continuou, claramente impaciente. — Arrume suas coisas. Você vai voltar comigo.

O coração dela travou.

— O quê?

— Você ouviu.

Ele estava perto demais agora.

— Sua ausência já está chamando atenção. Isso não é bom pra mim e nem para os negócios.

Claro.

Sempre sobre ele.

Sobre a imagem dele.

Sobre o controle dele.

— Eu não vou voltar — ela disse.

E dessa vez…

Foi firme.

Real.

Sem hesitar.

Silêncio.

Os olhos dele se estreitaram.

— Repete.

Ela respirou fundo.

O peito subindo e descendo rápido.

— Eu não vou voltar com você.

O ar mudou.

Ficou pesado e perigoso.

— Você está esquecendo seu lugar.

— Não — ela respondeu. — Eu estou lembrando.

E aquilo…

Foi o suficiente.

Num movimento rápido, ele segurou o braço dela.

Forte.

Doloroso.

Ela soltou um pequeno som de dor.

— Você não decide isso — ele disse, baixo.

Perigoso.

O medo subiu pela garganta dela.

Mas junto com ele…

Veio algo novo.

Algo que ela não sentia antes.

Coragem.

— Me solta.

Ele apertou mais.

— Você vai voltar. Por bem… ou por mal.

O coração dela disparou.

Ela abriu a boca pra falar, mas uma voz lhe interrompeu.

— Soltar ela.

A voz cortou o ar.

Autoritária.

Os dois viraram ao mesmo tempo.

E ele estava lá.

Encostado na porta.

Como se já estivesse ali há um tempo.

Observando.

Esperando...

O homem que a encontrou.

O homem que ajudou.

O homem que… dava medo de um jeito diferente.

Os olhos dele estavam fixos no braço dela.

Onde o outro ainda segurava.

— Solta — repetiu.

Mais baixo.

Mais perigoso.

O noivo dela soltou um riso curto.

— E você é…?

Silêncio.

Tensão.

Dava pra sentir no ar.

Como se algo fosse explodir a qualquer momento.

— Alguém sem paciência — respondeu.

Simples.

Direto.

E aquilo mudou tudo.

O clima.

O ar.

Tudo.

Era como se dois predadores estivessem no mesmo espaço.

E nenhum deles fosse recuar.

— Isso não é da sua conta — disse o noivo, soltando o braço dela devagar.

Mas sem tirar os olhos do outro.

— Agora é.

Sem hesitar.

Sem medo.

Eles se encararam.

E Helena sentiu um arrepio.

Aquilo era grande.

Muito maior do que ela.

— Você não faz ideia com quem está lidando — disse o noivo.

Um leve sorriso apareceu no rosto do outro.

— Faço.

Uma pausa.

— E não me impressiona.

Aquilo foi o suficiente.

A tensão estourou.

— Última chance — disse o noivo, olhando pra Helena. — Vem comigo.

O coração dela disparou.

Mas dessa vez…

Ela não pensou.

— Não.

Simples.

Firme.

Os olhos dele escureceram.

— Você vai se arrepender disso.

Ela não respondeu.

Não precisava.

Porque ela já tinha escolhido.

Ele deu um passo pra trás.

Arrumou o terno.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se não tivesse acabado de ameaçar ela.

— Isso não acabou.

E então saiu.

Mas antes—

Olhou diretamente pro outro homem.

Um aviso.

Uma ameaça silenciosa.

A porta se fechou.

E o silêncio voltou.

Mas não era o mesmo.

Nunca mais seria.

Helena ainda tremia.

O corpo todo.

O coração acelerado.

Confuso.

Dolorido.

— Você está bem?

A voz dele veio mais baixa agora.

Doce e suave.

Ela respirou fundo.

— Eu… acho que sim.

Mas não estava.

Nem perto.

— Ele vai voltar — disse ela.

— Eu sei.

Aquilo deu um frio na espinha.

— Quem é você…?

Ela perguntou de novo.

Precisava saber.

Dessa vez…

Ele não desviou.

Os olhos dele encontraram os dela.

Firmes e intensos.

— Dante Moretti.

O nome caiu pesado.

Como se significasse alguma coisa.

Como se tivesse peso.

Poder.

Perigo.

O coração dela acelerou.

Sem motivo lógico.

Só… instinto.

— E você… — ele começou, se aproximando devagar — acabou de entrar na minha guerra.

O ar sumiu.

— Eu não quero guerra nenhuma…

Ele parou bem na frente dela.

Perto demais.

— Não importa o que você quer.

Os olhos desceram até o ventre dela.

Por um segundo.

— A partir de agora…

Uma pausa.

— Você tem alguém que depende de você para sobreviver.

O coração dela travou.

Porque naquele momento…

Ela entendeu.

Aquilo não era só sobre traição.

Nem sobre amor.

Nem sobre dor.

Era sobre um ser que esteja se desenvolvendo dentro dela.

E agora…

Não tinha mais volta.

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