A Irmã Que Sempre Quis Tudo

O carro parou devagar em frente à mansão.

Sem barulho.

Sem pressa.

Só… silêncio.

Mas não era um silêncio tranquilo.

Era pesado.

Carregado.

Quase sufocante.

A fachada da casa continuava impecável, como sempre. Grande, iluminada, perfeita demais pra ser real.

Mas, naquela noite…

Aquilo não parecia um lar.

Parecia um aviso.

Lá dentro, alguém ia pagar por alguma coisa.

Enzo Vasconcellos continuou sentado por alguns segundos, sem sair.

Os dedos dele batiam de leve no banco de couro.

Um ritmo calmo.

Era assim que ele lidava com a raiva.

Não gritava.

Não perdia o controle.

Ele… guardava.

E quando agia…

Já era tarde demais pra qualquer um impedir.

— Abra.

A porta foi aberta no mesmo segundo.

Ele saiu sem olhar pra trás.

Sem hesitar.

Como alguém que já sabia exatamente o que ia fazer.

E com quem.

Assim que entrou na mansão, o contraste foi imediato.

Tudo era lindo.

Luxuoso.

Organizado.

Sem vida.

Nenhum som.

Nenhuma bagunça.

Nenhuma emoção.

Era quase como se ninguém realmente vivesse ali.

— Senhor, ela está no quarto — disse um dos funcionários, com a cabeça baixa.

Enzo não respondeu.

Só continuou andando.

Passos firmes e seguros.

Cada passo ecoando no chão como um aviso silencioso.

Quando ele chegou na porta…

Não bateu.

Só abriu.

E entrou.

Ela já estava lá.

Esperando.

Sentada na poltrona, com uma taça de vinho na mão, como se estivesse assistindo a um filme interessante.

Um sorriso apareceu devagar no rosto dela.

Satisfeito.

Quase… cruel.

— Demorou — disse ela, girando o vinho na taça.

A luz suave do quarto deixava ela ainda mais bonita.

Mas não era uma beleza leve.

Era daquelas que escondem alguma coisa.

Algo escuro e errado.

Algo que você sente… mas não consegue explicar.

Enzo fechou a porta atrás de si.

— Você viu, não foi? — perguntou, direto.

Sem rodeios e sem paciência.

Ela levou a taça aos lábios e bebeu com calma.

Como se tivesse todo o tempo do mundo.

— Claro que eu vi.

Uma pausa dramática.

Mas cheia de intenção.

— Foi melhor do que eu imaginei.

O olhar dele escureceu na mesma hora.

— Você passou do limite.

Ela riu baixo.

Como se aquilo fosse engraçado.

— Limite? — repetiu. — Eu só mostrei a verdade.

Enzo deu um passo à frente.

— Aquilo não era necessário.

Ela se levantou devagar.

Se aproximando dele com confiança.

Como se não tivesse medo nenhum.

— Era sim — disse. — Ou você achou que a Helena iria embora sozinha?

O nome saiu carregado de desprezo.

— Ela precisava de um empurrão.

O silêncio que veio depois foi estranho.

Como se o ar tivesse ficado mais difícil de respirar.

Enzo a observava.

Analisando cada detalhe.

Cada expressão.

Cada palavra.

— Você sempre foi assim — ele disse.

Ela sorriu.

Orgulhosa.

Sem vergonha nenhuma.

— E é por isso que eu consigo o que quero.

Ela parou bem na frente dele.

— Diferente dela.

Enzo não respondeu.

Mas o olhar dele… endureceu.

— Helena sempre foi fraca — continuou ela. — Emocional. Ingênua.

— Fácil de substituir.

O maxilar dele travou.

— Cuidado com o que fala.

Ela inclinou a cabeça, como se estivesse curiosa.

— Vai defender ela agora?

Silêncio.

Mas aquele silêncio… respondeu tudo.

Ela sorriu mais uma vez.

— Não… não vai.

Ela se afastou alguns passos, girando a taça entre os dedos.

Tranquila demais.

— Mas tem algo que você ainda não percebeu.

Os olhos dele se estreitaram.

— Fala.

Ela parou.

Virou lentamente.

E então disse:

— Ela não saiu sozinha.

O clima mudou na hora.

— Eu sei — respondeu Enzo. — Eu vi.

— Não… — ela corrigiu, com um sorriso leve — você não entendeu.

Uma pausa.

E então:

— Ela foi protegida.

Dessa vez, ele reagiu.

— Eu sei por quem.

— Sabe mesmo? — ela provocou.

Ela se aproximou de novo.

Os olhos brilhando de interesse.

— Então você também sabe que isso não é normal.

Silêncio.

— Um homem como aquele… — continuou — não se envolve sem motivo.

O nome não foi dito.

Mas não precisava.

Dante Moretti.

Ele estava ali.

Entre eles.

Mesmo sem estar presente.

— Vai direto ao ponto — disse Enzo, já irritado.

Ela sorriu.

Satisfeita.

— Um passarinho me contou que ela está grávida.

O silêncio caiu pesado.

Mas dessa vez…

Enzo não desmontrou alguma reação, como se ele estivesse cometido o maior erro da sua vida.

Ela percebeu na hora.

— Você não sabia?

— Não.

Frio.

Direto.

Mas ela não parou.

— Ela não te contou? ou só queria a oportunidade perfeita para ir embora?— ela começou — você acha que o filho é seu?

Agora sim.

Ele reagiu.

O olhar mudou.

Escureceu.

Ficou mais perigoso.

— Cuidado com o que diz.

Ela riu baixo.

— Eu só estou sendo lógica.

Cruzou os braços.

Como se estivesse explicando algo óbvio.

— Helena é traída… humilhada… expulsa…

Uma pausa.

— E, do nada, aparece um homem poderoso… que protege ela… leva pro hospital… e ainda te impede de trazer ela de volta...

Ela chegou mais perto.

Baixando a voz.

— Sem nem conhecer?

Silêncio.

— Coincidência? — perguntou.

Ela sorriu.

— Ou será que eles já se conheciam?

O maxilar dele travou de novo.

— Isso não faz sentido.

— Claro que faz, pare de querer se enganar.

Ela ficou ainda mais perto.

— E se o bebê… não for seu?

O ar ficou pesado.

Denso.

Difícil de respirar.

— Repete.

— E se Helena já estivesse envolvida com ele? Talvez seja por isso que ela fez todo aquele teatrinho e desapareceu...

Cada palavra saía calculada e afiada.

Como uma faca.

— Você está dizendo que ela me traiu.

— Eu estou dizendo — respondeu calma — que você poderia não ser o único.

Silêncio.

Mas não vazio.

Cheio de dúvida.

E dúvida… é a pior coisa que existe.

Ela se aproximou mais ainda.

Encostando de leve no braço dele.

— Eu imagino como ele olhou pra ela — disse. — Tenho certeza que ele não olhou para ela como uma desconhecida..

Mentira.

Mas bem contada.

— E acho que ela… não parecia surpresa.

Outra mentira.

Ainda melhor.

Enzo virou o rosto de leve.

Pensando.

Relembrando.

Ligando pontos.

— Você acha que conhece sua "noiva"?… — disse ela, quase num sussurro — mas você nunca viu quem ela realmente é.

Aquilo atingiu.

Direto.

Sem erro.

— Helena sempre quis mais — continuou. — Talvez… mais do que você podia oferecer.

E pronto.

A dúvida estava lá.

Pequena.

Mas crescendo.

Como veneno.

Ela se aproximou mais uma vez.

— Eu sempre soube… — sussurrou — que ela não era tão perfeita assim.

Ele falou:

— Diga seu nome completo.

Ela sorriu na hora.

Sabia exatamente o que aquilo significava.

— Isabella Almeida.

O nome caiu no quarto como uma bomba.

O mesmo sobrenome.

O mesmo sangue.

Mas… completamente diferente.

— Sua irmã… — murmurou Enzo.

— Só no papel — respondeu Isabella. — Porque eu nunca fui como ela.

E era verdade.

Helena sentia.

Isabella manipulava.

Helena amava.

Isabella destruía.

Um sorriso apareceu no rosto de Enzo.

Mas não era bom.

Era o tipo de sorriso que vem antes do caos.

— Então vamos descobrir.

— Descobrir o quê?

Ele virou o rosto lentamente.

Os olhos escuros.

Perigosos.

— De quem é aquele filho.

O coração de Isabella acelerou.

Mas ela não demonstrou.

— E se não for seu?

Enzo deu um passo à frente.

— Então eu destruo os dois.

O silêncio ficou pesado.

E pela primeira vez…

Isabella sentiu um arrepio de verdade.

Porque aquilo não era só uma ameaça.

Era uma promessa.

---

E em algum lugar da cidade…

Sem saber de nada…

Helena segurava a própria barriga, em silêncio.

Confusa.

Com medo.

Tentando ser forte.

Sem imaginar que…

Dentro dela…

Não existia só um bebê.

Existia o motivo de uma guerra.

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