Capítulo 05: Rejeitada

Renata

A porta da sala de Erick bateu atrás de mim, mas o som continuou ecoando por dentro.

Eu caminhei pelo corredor da Monteiro Holdings com a bolsa apertada contra o peito, como se ali dentro eu ainda carregasse aqueles dois testes queimando minha dignidade. Minha respiração estava descompassada. O chão parecia instável sob meus saltos. Eu queria correr, mas me obriguei a andar.

Eu não daria esse espetáculo para eles.

Não para Erick.

Não para Helena Monteiro.

Não para ninguém.

Mas, quando cheguei ao banheiro feminino, tranquei-me na primeira cabine e desabei.

Levei a mão à barriga, ainda sem forma, ainda tão silenciosa, e tentei respirar por nós dois.

— Desculpa… — sussurrei, com as lágrimas descendo sem controle. — Desculpa por ele.

A frase doía porque eu não queria odiá-lo. Não ainda. Uma parte idiota de mim ainda lembrava da noite em que Erick me tocou como se eu fosse a única coisa capaz de fazê-lo sangrar por dentro. Mas a versão dele que ficou diante de mim naquela sala não era o homem da madrugada.

Era o chefe de gelo.

O herdeiro dos Monteiro.

O homem que olhou para a gravidez como se eu tivesse colocado uma arma sobre sua mesa.

Lavei o rosto, retoquei o batom com mãos trêmulas e voltei para minha mesa. Cada passo parecia uma guerra pequena. Os funcionários cochichavam perto da copa. Talvez não soubessem de nada. Talvez soubessem tudo. Em empresas grandes, segredos tinham pernas mais rápidas que elevadores.

Sentei-me diante do computador e tentei abrir a agenda de Erick, como se ainda fosse possível fingir normalidade.

Cinco minutos depois, meu ramal tocou.

Atendi com a voz presa.

— Renata.

A voz dele.

Fria. Controlada. Sem rachaduras.

— Minha sala. Agora.

Meu estômago embrulhou. Por um instante, pensei em não ir. Em desligar e sair pela porta principal sem olhar para trás. Mas havia uma parte de mim que precisava ouvir o fim. Precisava ver até onde Erick Monteiro era capaz de ir.

Quando entrei, ele estava de pé diante da janela. Helena não estava mais ali, mas sua presença parecia impregnada no ar, como perfume caro e veneno.

— Sente-se — ele disse.

— Prefiro ficar em pé.

Erick virou o rosto devagar. Os olhos dele estavam escuros, duros demais. Havia olheiras discretas sob a frieza, mas eu não me permiti sentir pena.

— Falei com o jurídico.

Meu corpo gelou.

— Jurídico?

Ele pegou uma pasta sobre a mesa e a empurrou na minha direção.

— Você será afastada por tempo indeterminado.

A palavra afastada me atingiu como tapa.

— Afastada?

— Com compensação financeira.

Ri, mas o som saiu quebrado.

— Você está me comprando?

— Estou evitando que isso vire um problema maior.

— Isso? — Apontei para minha barriga, a voz falhando de raiva. — Você está chamando meu filho de isso?

A mandíbula dele travou.

— Não distorça minhas palavras.

— Você nem precisou. Elas já nasceram podres.

Vi algo passar pelo rosto dele, rápido demais. Dor, talvez. Culpa. Mas Erick esmagou tudo antes que parecesse humano.

— Renata, seja racional.

— Racional? Eu fui racional quando vim te contar antes de qualquer pessoa. Eu fui racional quando não gritei na sua cara. Eu fui racional quando saí daqui sem fazer um escândalo. Mas você… — minha voz tremeu — você chamou advogados.

Ele desviou o olhar por um segundo.

E foi isso que me destruiu mais.

Não a crueldade. A covardia.

— Minha família acha melhor que você deixe a empresa imediatamente — ele disse.

— E você?

O silêncio dele respondeu antes da boca.

— Eu concordo.

Senti o chão sumir.

Por alguns segundos, não ouvi mais nada. Nem o ar-condicionado. Nem a cidade atrás do vidro. Nem meu próprio coração. Só aquelas duas palavras girando dentro de mim.

Eu concordo.

Engoli a dor como se fosse vidro.

— Você quer que eu desapareça.

— Quero que você se afaste até tudo ser esclarecido.

— Não mente para mim, Erick. Não agora. Você quer apagar a funcionária grávida antes que ela manche sua imagem perfeita.

Ele se aproximou da mesa, os dedos apoiados na madeira.

— Você não entende o que está em jogo.

— Eu entendo muito bem. Seu nome. Sua empresa. Seu conselho. Sua mãe. Tudo tem valor para você, menos eu.

Os olhos dele endureceram.

— Cuidado com o que diz.

— Ou quê? Vai me demitir grávida? Vai mandar seguranças me tirarem daqui? Vai dizer para todo mundo que eu tentei prender você com um filho?

Ele ficou imóvel.

E, nesse silêncio, eu soube.

— Meu Deus… — sussurrei. — Você já pensou nisso.

— Renata…

— Não fala meu nome.

Peguei a pasta e abri. Havia termos de confidencialidade, valores, cláusulas frias que tentavam transformar minha dor em acordo.

Rasguei a primeira folha ao meio.

Erick deu um passo brusco.

— Não faça isso.

Rasguei outra.

— Eu não sou sua vergonha assinada em papel.

— Você está cometendo um erro.

— Não. — Joguei os pedaços sobre a mesa. — O erro foi achar que existia algum homem por trás desse sobrenome.

Ele respirou fundo, como se eu tivesse acertado onde doía.

Por um segundo, pensei que ele fosse pedir desculpas.

Mas Erick apertou um botão no telefone.

— Peça ao segurança para acompanhar a senhorita Renata até a saída.

Meu sangue esfriou.

Senhorita Renata.

Não a mulher que ele beijou.

Não a mãe do filho que ele se recusava a aceitar.

Apenas uma funcionária sendo retirada.

Eu ergui o queixo, mesmo com os olhos ardendo.

— Não precisa. Eu conheço o caminho.

Saí da sala antes que ele visse minha última lágrima cair.

Na minha mesa, recolhi poucas coisas: uma caneta, uma foto antiga com minha irmã, meu casaco. Os olhares vieram de todos os lados. Curiosos. Famintos. Alguns com pena. Outros com aquela satisfação feia de quem vê uma mulher cair.

O segurança apareceu perto do elevador.

— Senhorita, eu…

— Não encosta em mim — falei, baixa, firme.

Ele recuou.

Entrei no elevador sozinha. Quando as portas começaram a se fechar, vi Erick no fim do corredor.

Parado. Imóvel. Pálido.

Ele não veio atrás de mim.

E foi assim que eu entendi: algumas rejeições não gritam. Algumas apenas ficam paradas, assistindo você ir embora.

A porta se fechou.

Levei a mão à barriga.

— Nós vamos ficar bem — prometi, mesmo sem saber como. — Eu e você.

Quando saí do prédio, a chuva começava a cair sobre a cidade.

E, pela primeira vez desde que conheci Erick Monteiro, eu não olhei para trás.

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