Capítulo 06: A Imagem Perfeita

Erick

Renata foi embora às onze e quarenta e três da manhã.

Eu sabia o horário exato porque, depois que as portas do elevador se fecharam levando-a para longe de mim, olhei para o relógio como se aquilo pudesse me dar algum tipo de controle. Como se números ainda servissem para organizar alguma coisa dentro da minha cabeça.

Não serviram.

A pasta rasgada continuava espalhada sobre minha mesa. Pedaços de cláusulas, valores e confidencialidade pareciam restos de uma guerra pequena, mas brutal. No centro de tudo, havia uma frase que ela não disse, mas deixou cravada no ar:

Você me rejeitou.

Ajeitei o paletó, respirei fundo e voltei para a cadeira. Eu tinha feito o certo. Era isso que eu precisava repetir.

Fiz o certo.

Renata havia surgido com uma gravidez inesperada, em um momento impossível. O conselho estava de olhos abertos sobre mim. Meus concorrentes esperavam qualquer rachadura para me atacar. A imprensa financeira adoraria transformar minha vida íntima em manchete suja.

Eu não podia permitir.

Não podia deixar uma noite de fraqueza destruir anos de construção.

Abri o notebook e tentei ler o relatório de aquisição da empresa de logística. As letras se misturaram. Números, gráficos, projeções. Tudo parecia absurdamente irrelevante diante da lembrança dela no corredor, segurando a bolsa contra o peito como se carregasse o último pedaço de dignidade.

A porta se abriu sem aviso.

Minha mãe entrou.

Helena Monteiro nunca batia. Para ela, portas eram apenas detalhes arquitetônicos.

— Você fez o que precisava ser feito — disse, antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa.

Ergui os olhos.

— E desde quando isso deveria me consolar?

Ela caminhou até a mesa, impecável em seu vestido claro, o colar de pérolas no pescoço e aquela expressão fria de quem aprendeu a vencer sem se sujar.

— Consolação é para pessoas que podem se dar ao luxo de sentir demais, Erick. Você não pode.

Fechei o notebook com força.

— Ela está grávida.

Minha mãe não piscou.

— Ela diz que está grávida.

A raiva subiu quente.

— Não trate como se fosse uma mentira comprovada.

— E você não trate como se fosse uma verdade absoluta. Mulheres inteligentes sabem onde mirar.

Levantei devagar.

— Cuidado.

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Está me ameaçando por causa da sua secretária?

A palavra me atingiu errado.

Secretária.

Como se Renata fosse só isso. Como se eu não lembrasse do gosto da pele dela, da forma como me encarou mesmo tremendo, da coragem que teve ao entrar na minha sala com um medo que eu mesmo piorei.

— Ela não é esse tipo de mulher — falei, baixo.

Minha mãe me observou por alguns segundos, e havia algo quase satisfeito em seus olhos.

— Então você já está envolvido demais.

O silêncio caiu pesado.

Ela contornou a mesa e parou diante de mim.

— Escute bem. Você é Erick Monteiro. Carrega um nome que muita gente quer derrubar. Hoje você cortou um problema antes que ele virasse escândalo. Amanhã, quando tudo esfriar, vai agradecer por não ter sido fraco.

Fraco.

A palavra sempre funcionava comigo.

Meu pai a usava quando eu era criança. Minha mãe, quando eu hesitava. O conselho, quando queria me dobrar. Fraco era o insulto que moldava homens como eu até eles esquecerem como se pedia desculpa.

— Ela saiu chorando — eu disse, sem saber por que aquilo escapou.

Helena suspirou.

— Mulheres choram. Empresas quebram. Escolha qual desastre você prefere.

Aquilo deveria ter encerrado o assunto.

Mas não encerrou.

Porque, quando ela saiu, a sala ficou vazia demais.

E então eu percebi o primeiro detalhe: a mesa de Renata estava silenciosa. Nenhum toque rápido no teclado. Nenhuma voz anunciando reuniões. Nenhum passo firme entrando na minha sala com café sem açúcar, exatamente como eu tomava, mesmo antes de eu pedir.

À tarde, uma assistente temporária apareceu com minha agenda impressa de forma errada. Errou o horário da ligação com um investidor, esqueceu de anexar documentos ao e-mail e deixou café com açúcar na minha mesa.

Olhei para o copo como se ele tivesse me ofendido.

— Está errado — falei.

A moça empalideceu.

— Desculpe, senhor Monteiro. Eu posso trocar.

— Não precisa.

Ela saiu quase correndo.

Fiquei encarando o café intocado.

Renata nunca errava.

Essa constatação me irritou mais do que deveria. Não era saudade, disse a mim mesmo. Era apenas hábito. Eficiência. Dependência profissional. Qualquer coisa menos a falta dela.

Mas quando entrei na sala de reuniões, ainda senti o cheiro do perfume dela preso na memória do ambiente.

Quando abri a gaveta, encontrei um bloco de notas com a letra dela, pequena e organizada.

Quando peguei o telefone para chamá-la, meu dedo parou sobre o ramal antes que eu lembrasse: ela não estava mais ali.

E talvez nunca mais voltasse.

No fim do expediente, o conselho se reuniu em emergência. Homens de ternos caros e sorrisos falsos falavam sobre riscos, imagem e estabilidade. Eu respondi com precisão. Cortei objeções. Aprovei medidas. Fiz tudo que Erick Monteiro deveria fazer.

Por fora, perfeito.

Por dentro, uma pergunta sangrava:

E se o filho for meu?

A imagem veio sem permissão. Renata com a mão na barriga. Os olhos cheios de lágrimas. A voz quebrada dizendo:

— Eu preciso proteger meu filho.

Meu.

A palavra rasgou alguma coisa.

Quando voltei para minha sala, encontrei minha mãe me esperando perto da janela.

— Você está pálido — ela comentou.

— Estou cansado.

— Não. Você está pensando nela.

Não respondi.

Helena se aproximou, tocando meu ombro com uma delicadeza ensaiada.

— Esqueça Renata. Esqueça a gravidez até que exista prova. O que você fez hoje foi necessário.

Olhei para a cidade lá embaixo. Luzes frias, prédios altos, pessoas pequenas. O mundo que eu comandava parecia intacto.

Mas minha sala não.

Minha empresa não.

Eu não.

— Necessário nem sempre é certo — falei.

Minha mãe retirou a mão do meu ombro.

— Esse tipo de pensamento destrói homens poderosos.

Talvez.

Mas, naquela noite, quando todos foram embora e o prédio ficou em silêncio, caminhei até a mesa vazia de Renata.

A cadeira dela estava no lugar. A caneta favorita, esquecida ao lado do teclado. Um elástico de cabelo dentro da gaveta aberta.

Peguei o elástico e fechei os dedos ao redor dele como um idiota.

Eu tinha mandado Renata desaparecer.

Então por que parecia que quem estava sumindo era eu?

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