Inicio / Romance / Grávida do irmão Errado / CAPÍTULO 8: A FUGA PARA A SOBREVIVÊNCIA
CAPÍTULO 8: A FUGA PARA A SOBREVIVÊNCIA

O sol da manhã seguinte não pediu licença. Ele invadiu as frestas do sótão com uma claridade agressiva, quase cruel, expondo cada partícula de poeira que dançava no ar parado daquele quarto que se tornara uma cela. Helena despertou não com o frescor de um novo dia, mas com o estômago revirando em um nó de ferro. A náusea matinal, agora um lembrete biológico constante de sua nova realidade, veio acompanhada pelo gosto amargo da solidão absoluta.

​Ela permaneceu imóvel por alguns minutos, ouvindo o silêncio da mansão. O barulho ensurdecedor da festa de ontem — as risadas falsas, o tilintar dos cristais, a música que celebrava a união das famílias Duarte e Cavalcanti — fora substituído pelo som abafado e metódico dos empregados. Era o som da limpeza; estavam varrendo os restos da opulência, apagando os vestígios da noite em que a "Rosa de Ouro" partira para sua vida de rainha.

​Marta entrou no quarto pouco depois, trazendo uma bandeja com chá e biscoitos que Helena sabia que teria dificuldade em engolir.

​— Eles já foram — sussurrou a babá, os olhos vermelhos de uma noite mal dormida. — Isabela e Ricardo partiram para o aeroporto ao amanhecer. Havaí. Dizem que ficarão quinze dias em um resort privado.

​Helena sentou-se na cama, sentindo um peso no peito. Enquanto sua irmã voava em direção ao paraíso, carregando um sobrenome que agora também pertencia ao homem da biblioteca, Helena permanecia enterrada viva sob o teto da casa que deveria ser seu lar.

​— O senhor Otávio quer vê-la no escritório. Agora — completou Marta, sua voz falhando.

​Helena sentiu um calafrio. Ela se vestiu com o vestido mais simples que possuía, lavou o rosto para tentar apagar o rastro do choro e desceu as escadas. Cada degrau parecia levá-la mais fundo em direção ao próprio julgamento. Ao entrar no escritório de carvalho escuro, o cheiro de charuto e papel antigo a atingiu. Otávio e Beatriz estavam sentados atrás da imensa escrivaninha, como juízes em um tribunal de inquisição. Não havia café da manhã à mesa, não havia um "bom dia" ou um olhar de preocupação pela saúde da filha. Havia apenas o desprezo bruto, esculpido em cada linha de seus rostos aristocráticos.

​— Sente-se — ordenou Otávio. Ele não levantou os olhos dos documentos que assinava, tratando a presença de Helena como uma interrupção burocrática incômoda.

​Helena obedeceu, sentando-se na beira da cadeira de couro, mantendo as mãos escondidas sob a saia para que eles não vissem o tremor incontrolável de seus dedos.

​— Já decidimos o seu futuro — disse Beatriz, sua voz cortante como uma lâmina de vidro. — Não permitiremos que sua condição pecaminosa manche o início do casamento de sua irmã ou a reputação que os Duarte mantêm há gerações. Assim que Isabela retornar da lua de mel, daqui a duas semanas, você será enviada para a fazenda da família no interior de Minas Gerais.

​O sangue fugiu do rosto de Helena. A fazenda era um lugar de isolamento total, cercado por quilômetros de mato e silêncio. Era para lá que os Duarte enviavam "parentes inconvenientes" ou cavalos que não serviam mais para a sela.

​— Vocês vão me exilar? — o sussurro de Helena saiu carregado de pavor.

​— Vamos esconder o seu erro — corrigiu Otávio, finalmente levantando os olhos. Eram olhos azuis gélidos, mas secos, desprovidos da profundidade oceânica e magnética que ela vira em Eros Cavalcanti. — Você ficará lá até a criança nascer, sob a vigilância de funcionários de minha confiança. Depois que o bastardo vier ao mundo, daremos um destino adequado a ele. Uma adoção fechada, longe daqui. Então, e só então, você poderá voltar, se souber se comportar e mostrar arrependimento. Até lá, para a sociedade, você está em um intercâmbio na Europa. Você é um fantasma, Helena.

​O ar pareceu faltar nos pulmões dela. O desespero subiu pela garganta como ácido. Eles não queriam apenas escondê-la; eles planejavam roubar seu filho. Queriam apagar qualquer rastro daquela vida que ela já sentia pulsar dentro de si, por mais que tivesse sido gerada no caos.

​— Vocês não podem fazer isso... é meu filho — ela tentou dizer, mas Otávio bateu a mão na mesa, fazendo os tinteiros saltarem.

​— Nesta casa, você não tem querer! Você nos desonrou! Agradeça por eu não a jogar na rua com as roupas do corpo! Agora saia da minha frente. Marta cuidará dos preparativos para sua partida.

​Helena saiu da sala em transe. Suas pernas a levaram mecanicamente até a cozinha, o único lugar onde o calor humano ainda existia naquela tumba de mármore. Ao ver Marta, Helena desabou. Em prantos, entre soluços que cortavam o ar, ela contou o plano macabro de seus pais.

​A babá a segurou pelos ombros com uma força que Helena não sabia que aquela senhora possuía. A expressão de Marta, geralmente suave e complacente, endureceu-se com uma determinação feroz, uma faísca de ódio dirigida aos patrões que servira por tanto tempo.

​— Eles não vão levar você, Helena. Nem você, nem esse bebê — Marta disse, a voz baixa, vibrando com uma urgência mortal. — Ouça-me bem, passarinho. Eu vi o que eles fizeram com você a vida inteira. Eu vi você estudar escondida naquela biblioteca, eu vi os diplomas que você conquistou pela internet e que eles ignoram como se fossem lixo. Você é mais inteligente que Isabela e Otávio juntos. Você é uma excelente administradora. Você precisa fugir.

​— Fugir? Para onde, Marta? Eu não tenho dinheiro, não tenho amigos... eu não tenho nada além desse sótão! — Helena exclamou, desesperada.

​— Você tem a mim — Marta enfiou a mão no bolso fundo de seu avental e tirou um envelope pardo, volumoso e gasto. — Pegue isso. São as economias de uma vida inteira de serviço. Eu guardei cada centavo para o meu funeral, mas prefiro morrer na miséria a ver você ser destruída por esses monstros.

​Helena olhou para o envelope como se fosse uma granada.

— Eu não posso aceitar, Marta...

​— Você vai aceitar! — a babá insistiu, empurrando o dinheiro contra o peito dela. — Vá para a capital. É o único lugar onde uma pessoa pode se esconder à vista de todos. Use o seu nome do meio, Santos. Use seus estudos. Consiga um emprego em uma empresa grande onde você seja apenas um número até conseguir se estabilizar. Mostre a esse mundo que você não precisa do sobrenome Duarte para ser alguém. Seja a dona da sua vida, Helena. Pela primeira vez, voe.

​O medo ainda rugia dentro de Helena, mas uma pequena centelha de rebeldia, uma semente de fúria plantada por anos de rejeição, começou a arder. Se ficasse, ela seria aniquilada. Se fugisse, teria uma chance de ser mãe, de ser livre.

​— Vá hoje à noite — instruiu Marta, limpando as lágrimas do rosto de Helena. — Eles têm jantar no clube e a segurança estará relaxada. Eu arrumarei uma mala pequena. Não leve nada que brilhe, nada de joias que eles possam dizer que você roubou. Leve apenas o essencial e seus documentos. Vá e não olhe para trás, Helena. Se olhar, o sal da dúvida vai transformar você em estátua.

​Naquela noite, sob a luz pálida e cúmplice de uma lua minguante, Helena Duarte atravessou o jardim da mansão. Seus pés pisaram na grama onde, três meses atrás, ela se entregara a um desconhecido em uma tentativa desesperada de sentir algo além de dor. Agora, o jardim era o palco de sua fuga.

​Com uma mala simples de lona e o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado, ela cruzou os portões laterais. Ao chegar à estrada e sinalizar para o ônibus que a levaria para a rodoviária, ela sentiu um calafrio de liberdade que quase a fez perder o fôlego. Ela não sabia para onde o destino a levaria, mas sabia que o ciclo de sombras havia sido quebrado.

​O que Helena não podia prever, enquanto o ônibus se afastava das luzes da mansão no Vale dos Cristais, era que sua trajetória de sobrevivência a lançaria diretamente para o centro do império que ela mais deveria temer. Ela buscaria o anonimato na maior corporação da capital, sem ter a menor ideia de que o nome gravado em letras de aço na porta da presidência — o homem que seria seu futuro patrão e juiz — era o mesmo nome que ela sussurrara entre suspiros naquela noite de tempestade: Eros Cavalcanti.

​O lobo estava à espera, e a fênix, sem saber, voava diretamente para o seu domínio.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP