Mundo de ficçãoIniciar sessãoBárbara Silveira nunca teve escolha. Criada em meio à escassez, ao peso das culpas que nunca foram suas e à urgência de sustentar uma família destruída, ela aprende cedo que sobreviver vem antes de sonhar. Desempregada, desesperada e sem perspectivas, Bárbara aceita um trabalho incomum: ser babá. Mas não de uma criança. Eduardo Montenegro tem 27 anos, é CEO de uma das maiores empresas do país… e vive à beira do colapso. Temperamental, explosivo e emocionalmente quebrado, ele afasta todos que tentam se aproximar. Trancado em sua própria dor, ele não precisa de uma babá, precisa de alguém que sobreviva a ele. E Bárbara aceita esse desafio. Entre confrontos intensos, silêncios carregados e feridas que se recusam a cicatrizar, uma relação improvável começa a nascer. Ela enxerga o homem por trás do caos. Ele encontra nela algo que nunca teve: alguém que não foge. Mas amar Eduardo Montenegro não será simples. Segredos do passado, traumas não resolvidos e uma linha perigosa entre cuidado e dependência ameaçam consumir tudo. Porque, às vezes, salvar alguém pode significar se perder no processo. E Bárbara terá que descobrir: Até onde vale a pena lutar por alguém… Que pode destruí-la?
Ler maisAcredito que, antes de eu vir ao mundo, Deus olhou para mim e disse:
“Essa aqui vai descer à Terra para servir de exemplo às pessoas sofridas.” Procuro emprego na minha área há três meses e não tive nenhum retorno. Sou formada em Enfermagem, mas ainda não consegui uma oportunidade. Tenho meus motivos para estar desesperada por um trabalho, como todo mundo tem. Moro em uma casa pequena, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O problema não é o tamanho da casa, mas a quantidade de pessoas. Somos oito ao todo: três meninas, três meninos, meu pai e minha mãe. Sou a mais velha, tenho 25 anos. Depois de mim vem Bianca, com 20; Beatriz, com 16; Bruno, com 15; Lorran, com 14; e o mais novo, Enzo, de 12. Meu pai está muito doente. Câncer de próstata. Minha mãe está perdida, triste, sem forças nem para trabalhar. Bianca ajuda como pode, trabalhando como babá. Por isso, resolvi deixar meu currículo como babá em alguns sites. Vou mirar em qualquer alvo. O importante é conseguir alguma coisa. Já estava quase desistindo quando recebi uma ligação. Uma mulher, de voz doce, me convidou para uma entrevista. Fiquei animada. Animada como não ficava há muito tempo. Depois de pronta, calça jeans preta, blusa azul bebê de mangas e sapatilhas, faço uma maquiagem leve, só para não parecer um zumbi. — Estou saindo — aviso, olhando para o amontoado de pessoas na sala. Meus pais apenas me encaram por um segundo antes de voltarem a atenção para a TV. Já tentei explicar que não tenho culpa da vida que levamos. Mesmo assim, eles insistem em dizer que tudo começou a dar errado depois que nasci. Isso dói, mas eu finjo que me acostumei. Saio de casa e vou direto para o ponto de ônibus. Está lotado. Pessoas espremidas umas contra as outras, disputando espaço. Quando desço, tento ajeitar minhas roupas amarrotadas. — Nossa… — murmuro. A casa à minha frente é simplesmente linda. Parece mais um palácio. Aperto o interfone do grande portão preto, de grades grossas. Uma voz baixa responde do outro lado: — Residência Montenegro. Em que posso ajudar? — Olá, vim para a entrevista da vaga de babá. — Vou liberar sua entrada. Dois homens altos, vestindo ternos pretos impecáveis, aparecem no portão. Entro, intimidada. A grandiosidade daquele lugar faria qualquer um se sentir pequeno. Permaneço de pé, segurando firme minha pasta surrada. — Boa tarde. Sente-se, senhorita Silveira. Sorrio, educada, para a mulher de idade avançada. Seu rosto tem rugas suaves e um ar elegante. Ela nitidamente é a chefe desse lugar. — Já sei algumas coisas sobre você, mas preciso confirmar. Qual o seu nome? — Bárbara Silveira da Costa. — Idade? _ Ela pergunta sem levantar os olhos. — Vinte e cinco. Ela faz anotações em uma prancheta. — Formação? — Sou formada em Enfermagem e tenho certificado em inglês. — Tem filhos? Ela levanta o olhar por cima dos óculos redondos. — Não. — Alguma doença crônica? — Não, senhora. — Possui passaporte? — Não. Ela faz mais algumas anotações antes de continuar. — Certo, senhorita Silveira. Agora vou explicar alguns detalhes, e você poderá decidir se aceita ou não. Seu perfil se encaixa no que meu neto precisa… mas talvez você não se interesse, por conta da idade dele e do comportamento. Ela dá uma pausa, antes de continuar. _ Peço perdão, mas tive que pedir que investigasse sua vida. É a vida do meu neto e eu precisava de informações sobre quem iria colocar em minha casa. — Entendo. — Seu salário será de sete mil e oitocentos reais, com um adicional de mil reais por viagem. Caso seja internacional, o valor aumenta. O número ecoa na minha mente. Sete mil e oitocentos. Isso mudaria tudo. Mudaria a vida da minha família. — Porém… — ela continua — meu neto não tem um temperamento fácil. Ele não tem controle emocional. Quando perde a paciência, destrói o que tiver ao alcance. Não agride pessoas, mas quebra coisas, e já teve três acompanhantes em apenas três meses. Ela desvia o olhar, como se lembrasse de algo doloroso. — Quando perdi meu filho, o pai dele… foi devastador. Mas Eduardo sofreu ainda mais. Ele era tudo o que ele tinha. Ela respira fundo. — Você precisará acompanhá-lo pela manhã, antes do trabalho, e também à tarde e à noite. Franzo a testa. — Trabalho? — Sim. Esse é o ponto que costuma afastar as candidatas. Eduardo tem 27 anos. É um homem feito, mas precisa de acompanhamento. Passo a mão no rosto, tentando processar. Vinte e sete anos. E eu babá dele? Mas então o valor volta à minha cabeça. Eu preciso disso. Minha família precisa disso. — A senhorita pode pensar com calma e me dar uma resposta depois — ela sugere. Não posso perder essa chance. Seria muita burrice da minha parte, desperdiçar esse trabalho depois de muito tempo procurando. — Eu aceito. O sorriso dela surge, sincero. Quase aliviado. — Há mais uma condição. Você precisará morar aqui. Terá folga às terças e, ocasionalmente, aos sábados. Não penso muito. Ficar longe de casa, talvez até seja bom. Talvez seja assim que meus pais sentirão minha falta e finalmente perceberão que eu não sou tão pedra no sapato como eles imaginam. — Não tenho objeções. — Ótimo. Amanhã você assina o contrato e começa. — Certo. — Se ele sair da greve de fome — acrescenta ela, com naturalidade. — Está trancado no quarto há dois dias. Assinto, sem saber exatamente como reagir. — Espero que ele fique bem. — Ele vai ficar. Eu espero que vocês se dêem bem. Isso seria o suficiente. Nos despedimos. Quando saio pelos grandes portões, paro por um momento, tentando recuperar o fôlego. Essa seria a chance que eu precisava para ter algo sólido em minha vida. Algo que poderia realmente me fazer uma mulher. Talvez minha liberdade. Ter 25 anos e ainda morar com os pais, não é algo que alguém possa se orgulhar. Mas não foi por falta de tentativa, eu tentei. Tentei muito conseguir um emprego e ajudar mamãe e papai. Agora com esse trabalho, irei focar em formas possíveis e impossíveis para ganhar a confiança do CEO. Estou com medo, mas não por ser babá, mas por ser... Um homem. Vinte e sete anos. Agressivo. Em greve de fome. E eu… Serei a babá de um CEO.Eduardo e eu ficamos algum tempo em Madrid, mas depois que o trabalho que ele veio fazer terminou, voltamos para casa.O caminho foi longo.Eduardo pensava o tempo todo, pois a história com a mãe estava longe de ser concluída.Mas a minha e a dele... Estava apenas começando.Nossas mãos não se desgrudavam.E, principalmente eu, não sei como daremos essa notícia para Dona Laura.Estou há um certo tempo imaginando como irei conduzir esse namoro.Não sei se conto para minha família.Minha mãe ficaria muito decepcionada, porque tem uma visão muito rígida sobre relacionamentos entre empregado e patrão.E, para dizer a verdade, eu também pensava assim...Até me envolver emocionalmente com Eduardo e sentir que cada pedaço dele é um quebra-cabeça perdido que se encaixa nos meus.Não vou mais mentir para mim. Não vou mais me mascarar.Não vou apagar nada que complete minha felicidade, ou que a esteja começando.Posso dizer que Eduardo melhorou muito depois que me conheceu.Eu vejo isso. Nitida
O clima continuava tenso.Eduardo e a mãe ainda conversavam. Eu estava ao lado de Eduardo, e Emília ao lado da mãe.Patrícia chorava feito criança, pedindo perdão ao filho.Ao filho que sofreu tanto por ter sido deixado pela mãe.Os olhos de Eduardo estavam vermelhos. Acredito que ele segurava as lágrimas que se acumulavam.Ele estava sofrendo.Ela estava sofrendo.E eu e Emília não podíamos fazer nada além de observar.Eduardo via Patrícia como uma ameaça, como alguém que o fazia sofrer.Eu sei que ele está tentado a aceitar a volta dela para sua vida. Mas também sei que ele está com medo.Medo do abandono. Medo de ficar sozinho de novo.Mesmo tendo pessoas ao lado. Eduardo tinha Laura. Teve um pai, mesmo que o tenha perdido pouco tempo depois.E, ainda assim, sofreu. Ainda assim, carregou tantos traumas.Era notável o peso na consciência de Patrícia, tanto que ela tentava o tempo todo pedir perdão ao filho.— Eduardo... eu sei que está sendo difícil. Eu imagino, meu filho. Mas, por
Patrícia está por alguns segundos olhando para o nada, apenas deixando lágrimas escorrerem dos seus olhos, enquanto Emília, sua filha, aparece às suas costas, acalentando a mãe depois que eu disse que Vinícius queria vê-la.O silêncio no quarto era constrangedor, doloroso, como se ela estivesse se lembrando e passando para mim todo o sofrimento que eles tiveram durante a infância de Eduardo.Era nítida a vontade da mãe de ver o filho, mas também o medo era visto a olho nu nos olhos dela.O marido não estava no quarto. Também não sei onde estava, nem sequer perguntei. Mas a filha Emília, que estava do lado da mãe, chorava ansiosa para o encontro com o irmão. O irmão com quem conversou há poucos dias, alegando ser apenas uma amiga da amiga, da então namorada dele.Ainda não me acostumei com a palavra namorada, mas futuramente irei me conformar.Até porque eu sinto que Vinícius nasceu para mim e eu nasci para ele.Sendo assim, mesmo Patrícia sendo a mãe dele, eu não irei permitir que nin
Eduardo estava com uma cor pálida, como se o sangue do seu corpo não estivesse mais ali.Meu corpo entrou em alerta, pois acabei de ser pedida em namoro e ele já vai terminar comigo.Apenas alguns minutos de namoro.— Você... como?Eduardo estava gaguejando e começou a suar frio. Ele não podia ter uma crise agora.A mãe dele é o motivo de todos os traumas. Com essa situação, a crise pode ser uma das mais severas, e eu tenho muito medo de não conseguir pará-lo.— Ei, Eduardo... Olha pra mim. Respira. Não pensa nela, só olha pra mim e pensa em qualquer outra coisa.Seguro o rosto dele entre minhas duas mãos, sentindo a pele fria.Nunca pensei que eu pudesse, um dia, ter uma atitude dessas. Eu vou beijar uma pessoa por vontade própria.Eu estou segura para isso... e quero passar minha segurança para Eduardo.Encosto meus lábios nos dele. No início, ele meio que recua com o susto, mas logo para e fica bem quietinho.Dou alguns selinhos rápidos nos lábios de Eduardo e acaricio seu rosto.A










Último capítulo