O som das engrenagens da fechadura do sótão ecoou como um disparo de canhão no silêncio do quarto. Helena, encolhida na poltrona velha perto da janela, não se mexeu. Ela observava os carros de luxo chegando à mansão lá embaixo, como besouros negros e brilhantes sob o sol de fim de tarde. Marta entrou com passos pesados. Seus olhos estavam inchados, denunciando que ela passara a última hora chorando escondida na despensa. Em suas mãos, ela carregava o vestido lavanda, agora passado e impecável, pendurado em um cabide de cetim. — Está na hora, meu passarinho — sussurrou a babá, a voz embargada. — Precisamos transformá-la na dama de honra que seu pai exige. Helena levantou-se mecanicamente. Ela se olhou no espelho de corpo inteiro e sentiu um estranhamento profundo. A moça refletida ali tinha uma beleza que parecia ferida. Helena possuía um rosto angelical, de traços finos e delicados, emoldurado por uma cascata de cabelos castanhos escuros, quase negros, que caíam em ondas sedosas até
Ler mais