Mundo de ficçãoIniciar sessãoO "sim" de Isabela e Ricardo ecoou pelo jardim como uma sentença de prisão para Helena. Enquanto as pétalas de rosas brancas eram lançadas sobre o casal, ela permanecia estática no altar, sentindo o peso do olhar de Eros Cavalcanti em suas costas. Mas, assim que a cerimônia terminou e os convidados se dirigiram para o salão de festas, algo mudou.
Eros, o homem que a possuíra com uma fome devastadora há três meses, o homem que a olhara com posse segundos atrás, tornou-se uma estátua de gelo. Durante a recepção, ele se moveu entre a elite empresarial com uma elegância fria e impenetrável. Helena o observava de longe, o coração martelando contra as costelas, esperando por um sinal, um gesto, uma palavra. Mas Eros a ignorou completamente. Era como se ela tivesse voltado a ser a mobília da mansão Duarte. Ele passava por ela sem que seus olhos azul-escuros desviassem um milímetro. A indiferença dele era mais dolorosa do que o tapa de sua mãe. Antes mesmo do jantar ser servido, Helena viu Eros se aproximar de Otávio Duarte. Ele apertou a mão de seu pai com uma cortesia mecânica, trocou palavras breves com o irmão, Ricardo, e se despediu. Ele não olhou para trás. Ele não procurou Helena entre a multidão. Ele simplesmente saiu da festa, deixando para trás um rastro de perfume amadeirado e um vazio gélido que fez Helena estremecer. No centro do salão, Ricardo e Isabela pareciam a imagem da felicidade perfeita. Ricardo ria, ostentando sua nova esposa como um troféu, enquanto Isabela brilhava sob os candelabros de cristal, desfrutando de cada segundo de adoração. Seus pais, Otávio e Beatriz, erguiam taças de champanhe, celebrando a fusão de dois impérios. Helena olhou para aquela cena e a compreensão a atingiu como um soco: ela não pertencia àquele mundo. Ela era a falha no sistema, o erro na fotografia. Ninguém ali se importava com o que ela sentia ou com a vida que agora pulsava em seu ventre. Para eles, ela era apenas um problema a ser administrado. Sem ser notada, Helena abandonou a festa. Ela subiu as escadas, fugindo das risadas e da música, até alcançar a porta do sótão. Ao entrar em seu pequeno refúgio, o silêncio a abraçou de forma cruel. Ela arrancou o vestido lavanda, sentindo nojo do tecido que a obrigava a fingir uma normalidade que não existia. Encolhida em sua cama estreita, Helena chorou. Chorou pela humilhação de Ricardo, pela frieza de Eros e pela rejeição de seus pais. O choro foi silencioso, abafado pelo travesseiro, até que a exaustão física e emocional finalmente a venceu, mergulhando-a em um sono sem sonhos, onde ela era apenas um rastro de fumaça desaparecendo na noite. Na manhã seguinte, o sol entrou pelas frestas do sótão com uma claridade agressiva. Helena acordou com o estômago revolto, a náusea agora agravada pelo gosto amargo da solidão. A mansão estava estranhamente silenciosa, o barulho da festa da noite anterior substituído pelo som abafado dos empregados limpando os restos da opulência. Ela soube, por Marta, que Isabela e Ricardo já haviam partido para a lua de mel no Havaí. A "Rosa de Ouro" começava sua vida de luxo, enquanto Helena permanecia enterrada nas sombras da casa. Quando Helena desceu para o escritório, atendendo ao chamado do pai, encontrou Otávio e Beatriz sentados como juízes em um tribunal. Não havia café da manhã, não havia "bom dia". Apenas o desprezo bruto gravado em seus rostos. — Sente-se — ordenou Otávio, sem tirar os olhos de alguns documentos. Helena obedeceu, mantendo as mãos escondidas sob a mesa para que não vissem seu tremor. — Já decidimos o seu futuro — disse Beatriz, a voz cortante. — Não permitiremos que sua condição manche o início do casamento de sua irmã. Assim que Isabela retornar do Havaí, daqui a duas semanas, você será enviada para a fazenda da família no interior de Minas Gerais. Helena sentiu o sangue fugir do rosto. A fazenda era um lugar isolado, cercado por mato e silêncio, onde a família Duarte escondia tudo o que considerava vergonhoso. — Vocês vão me exilar? — Helena sussurrou. — Vamos esconder o seu erro — corrigiu Otávio, levantando os olhos azuis gélidos, tão diferentes dos olhos de Eros. — Você ficará lá até a criança nascer. Depois, daremos um destino ao bastardo e você poderá voltar, se souber se comportar. Até lá, você é um fantasma. O desespero subiu pela garganta de Helena. Eles queriam tirar seu filho. Eles queriam apagá-la do mundo. Ao sair do escritório, Helena correu para a cozinha, encontrando Marta. Em prantos, ela contou o plano dos pais. A babá a segurou pelos ombros, a expressão subitamente endurecida por uma determinação que Helena nunca vira. — Eles não vão levar você, Helena. Nem você, nem esse bebê — Marta disse, a voz baixa e firme. — Ouça-me bem, passarinho. Você é inteligente. Você estudou, tem diplomas que eles ignoram. Você precisa fugir. — Fugir? Para onde, Marta? Eu não tenho nada. — Você tem a mim — Marta tirou um pequeno envelope do bolso do avental. Eram economias de uma vida inteira. — Pegue isso. Vá para a capital. Use o seu nome do meio, use seus estudos. Você é uma excelente administradora, Helena. Consiga um emprego. Mostre que você não precisa do sobrenome Duarte para existir. Helena olhou para o dinheiro e depois para a mulher que era sua única mãe de verdade. O medo ainda estava lá, mas uma centelha de rebeldia começou a arder em seu peito. Se ela ficasse, perderia o filho e a si mesma. Se fugisse, teria uma chance. — Vá hoje à noite, enquanto eles estiverem no clube — instruiu Marta. — Eu arrumarei uma mala pequena. Não leve nada que brilhe, leve apenas o que é essencial. Vá e não olhe para trás. Naquela noite, sob a luz pálida da lua, Helena Duarte atravessou o jardim que fora palco de sua entrega e de sua dor. Com uma mala simples e o coração disparado, ela deixou a mansão. Ela não sabia para onde o destino a levaria, mas sabia que, pela primeira vez na vida, ela estava escolhendo o seu próprio caminho. Ela não imaginava que seu caminho a levaria diretamente para o covil do lobo. Ela buscaria emprego na maior empresa da cidade, sem saber que o nome na porta da presidência era o mesmo nome que ela tentava esquecer: Eros Cavalcanti.






