Narrado por Catarina Smirnova
A noite nunca pareceu tão longa.
A lua, alta no céu, entrava pelas cortinas como se me observasse com pena. Faz três dias que anunciaram o casamento. Três dias desde que perdi o direito de respirar sem pedir permissão.
O quarto é enorme, mas parece uma prisão. O lustre brilha como uma ironia — luxo demais pra quem está sendo vendida.
Dizem que amanhã será uma grande celebração. A união entre a família Smirnova e a máfia italiana. A paz selada com o meu corpo.
Passei o dia tentando não chorar, mas agora o silêncio me destrói.
O vestido de noiva está pendurado perto da janela. Branco, pesado, bordado com pedras que cintilam até no escuro. Parece vivo, respirando, me esperando. Um símbolo de tudo o que eu odeio.
Fecho os olhos e vejo o rosto de Mikhail.
Lembro da primeira vez que ele me disse que me amava.
Estávamos em Moscou, numa das salas da mansão Volkov, depois de uma reunião do conselho. Eu tinha vinte e um anos, e achava que o mundo girava ao meu redo