Mundo ficciónIniciar sesiónA noite no chão não foi um período de descanso; foi uma vigília de dor.
Eloise permaneceu onde Aubrey a deixara, encolhida no carpete felpudo entre a cama e a porta do banheiro. O ar condicionado, programado para o conforto de um homem coberto por edredons de pluma, era implacável com a pele quase nua dela. O frio infiltrava-se em seus ossos, fazendo seus dentes baterem em um ritmo staccato que ela tentava desesperadamente abafar, mordendo o próprio braço. Ela não ousou se mover para pegar um cobertor ou mesmo uma toalha. A ordem fora clara: dormir no chão. Qualquer tentativa de buscar conforto seria uma desobediência. Acima dela, na imensidão da cama king size, ela ouvia a respiração profunda e regular de Aubrey. O som era uma tortura psicológica. Ele dormia o sono dos justos, tranquilo e intocado pela violência que acabara de perpetrar, enquanto ela jazia a poucos metros, marcada, dolorida e usando a coleira de veludo que parecia ficar mais apertada a cada hora que passava. Naquela escuridão gelada, algo dentro de Eloise terminou de morrer. A última fagulha de rebeldia, a esperança ingênua de que Riche viria, de que sua mãe se importaria, de que ela poderia lutar... tudo isso congelou e se partiu. O que restou foi um vazio oco e um medo animal, focado apenas na sobrevivência imediata. Quando a luz cinzenta da alvorada começou a infiltrar-se no quarto, Eloise estava em um estado de semi-consciência turva, os músculos travados em câimbras dolorosas. Ela sentiu o movimento na cama antes de ouvi-lo. Aubrey estava acordando. O coração dela disparou, o medo injetando uma dose ácida de adrenalina em seu sistema exausto. Ele não disse bom dia. Ele nem sequer olhou para baixo imediatamente. Ela ouviu o som dele se espreguiçando, o farfalhar dos lençóis. Então, passos pesados no carpete se aproximaram dela. Eloise prendeu a respiração, fechando os olhos, encolhendo-se ainda mais. O toque veio. Não foi um chute, mas também não foi um toque humano. Foi a ponta do pé dele, cutucando as costelas dela com a indiferença de quem afasta um objeto que está no caminho. — Acorde — a voz dele estava rouca de sono, mas carregada da autoridade habitual. — O dia já começou. Eloise abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi o pé descalço dele, grande e bem cuidado, a centímetros do rosto dela. Ela se arrastou para uma posição sentada, o corpo protestando com gemidos que ela sufocou na garganta. Aubrey já estava caminhando em direção ao banheiro, nu, as costas largas e musculosas exibindo arranhões superficiais que ela devia ter feito na noite anterior. Ele não demonstrava nenhuma vergonha, nenhuma hesitação. Ele era o dono do território. — Tire essa calcinha — ele ordenou por cima do ombro, sem parar. — E venha preparar meu banho. Eloise obedeceu. Suas mãos tremiam tanto que ela teve dificuldade em baixar a peça de algodão. Quando se levantou, nua exceto pela gargantilha preta, sentiu-se a criatura mais miserável da face da terra. A nudez não era natural; era um uniforme de vulnerabilidade. Ela o seguiu para o banheiro. O ambiente era uma caixa de mármore branco e vidro, brilhante e clínico. Aubrey estava parado diante do espelho imenso, examinando o próprio rosto. — A temperatura deve ser de 38 graus. Use os sais de sândalo. E seja rápida. Eloise foi até a grande banheira de imersão. Ela abriu as torneiras de metal polido, ajustando a temperatura com mãos desajeitadas. O vapor começou a subir, aquecendo o ar frio, um pequeno alívio físico que contrastava com o horror da situação. Ela despejou os sais, a água límpida tingindo-se de um âmbar suave. Aubrey entrou na banheira sem olhar para ela. Ele se recostou, fechando os olhos, suspirando enquanto a água quente envolvia seu corpo. Eloise ficou parada ao lado da banheira, nua, os braços cruzados sobre o peito, a água pingando de seu cabelo desgrenhado sobre os ombros frios. Ela não sabia o que fazer. Devia sair? Devia esperar? Aubrey abriu um olho, o azul gélido fixando-se nela. — O que você está esperando? Lave-me. Era o próximo nível de degradação. Não era sexual; era funcional. Ela pegou a esponja natural e o sabonete líquido caro. Ajoelhou-se no chão duro ao lado da banheira, a posição de submissão da noite anterior retornando com uma memória muscular dolorosa. Ela começou pelos braços dele. Manteve os olhos baixos, focados na espuma branca e na pele bronzeada dele. O toque era clínico, mas a intimidade forçada era sufocante. Ela teve que lavar o peito largo dele, passando a esponja sobre os mamilos planos, sentindo a batida forte e calma do coração dele sob as costelas. Ele não a ajudou. Ele permaneceu passivo, um ídolo de carne exigindo adoração. Quando ela chegou às pernas dele, ele as levantou uma de cada vez, como se ela fosse uma criada de quarto do século XIX. — O cabelo também — ele murmurou, inclinando a cabeça para trás na borda da banheira. Eloise levantou-se ligeiramente para alcançar a cabeça dele. Seus seios nus roçaram o braço dele. Ele não reagiu, o que de alguma forma tornava tudo pior. Ela não era uma mulher ali; era uma ferramenta. Ela massageou o xampu no cabelo escuro e grosso dele, enxaguando com cuidado para não deixar cair sabão nos olhos do mestre. Quando terminou, ela estava suada pelo vapor e tremendo de exaustão. Aubrey saiu da banheira, a água escorrendo de seu corpo magnífico e terrível. Ele pegou a toalha que Eloise lhe estendeu, secando-se rapidamente. Ele enrolou a toalha na cintura e caminhou até a pia, onde um kit de barbear de estilo antigo estava disposto: um pincel de texugo, sabão em uma tigela de cerâmica e uma navalha de cabo de marfim. Ele preparou a espuma com movimentos rápidos do pincel e a aplicou no rosto, cobrindo a mandíbula forte com uma camada branca e espessa. Então, ele se virou para Eloise. Ele pegou a navalha. A lâmina de aço brlhou sob as luzes implacáveis do banheiro. Ele estendeu a navalha para ela, o cabo voltado para a mão dela. Eloise olhou para o objeto. Um instrumento de precisão. Uma arma. — Faça — ele disse. A palavra era simples, a implicação, monumental. — Eu... eu nunca usei uma dessas — ela sussurrou, a voz falhando. O medo de cortá-lo era paralisante. O medo do que aconteceria se ela o cortasse era ainda pior. — Então aprenda. Agora. — Ele inclinou a cabeça para trás, expondo a garganta vulnerável, a maçã de adão proeminente sob a pele coberta de espuma. Era um teste definitivo. Ele estava colocando a própria vida — ou pelo menos a integridade física — nas mãos trêmulas da mulher que ele havia brutalizado horas antes. Era a demonstração suprema de arrogância e poder. Ele sabia que ela estava quebrada demais para usar a lâmina contra ele. Ele sabia que ela temia machucá-lo mais do que temia qualquer outra coisa. Com os dedos dormentes, Eloise pegou a navalha. Era mais pesada do que parecia. — Aproxime-se. Estique a pele com a outra mão. E mantenha o ângulo baixo. Ela obedeceu. Nua, usando apenas a coleira que ele lhe colocara, ela deu um passo à frente, invadindo o espaço dele. Sua mão esquerda, fria e trêmula, tocou a pele quente da bochecha dele, esticando-a. Sua mão direita ergueu a lâmina. A ponta de aço tocou a pele dele perto da orelha. — Sua mão está tremendo — ele observou, a voz vibrando na garganta exposta. — Controle-se, Eloise. Um erro aqui e eu vou te marcar de volta, muito mais profundamente. O terror da ameaça estabilizou a mão dela. Com uma respiração presa, ela fez o primeiro movimento descendente. O som da lâmina cortando os pelos grossos foi alto no silêncio do banheiro. Milímetro por milímetro, com uma concentração nascida do pânico absoluto, Eloise raspou a espuma e os pelos do rosto do homem que destruíra sua vida. Quando chegou ao pescoço, à área vital onde a artéria carótida pulsava logo abaixo da superfície, ela teve que parar para respirar. Aubrey não se moveu. Ele nem sequer piscou. Ele apenas esperou, confiante em seu domínio total sobre ela. Ela terminou o movimento, a lâmina passando pela garganta dele sem tirar uma gota de sangue. Quando ela baixou a navalha, estava ensopada de suor frio, as pernas quase cedendo. Aubrey passou a mão pelo rosto liso, verificando o trabalho. Ele pegou a toalha e limpou o restante da espuma. — Aceitável — ele julgou, sem olhá-la, virando-se para sair do banheiro e se vestir. — Amanhã seremos mais rápidos. Ele a deixou lá, nua, segurando a navalha, encarando seu próprio reflexo no espelho: uma mulher com olhos ocos, usando uma coleira, que acabara de provar que a vida de seu dono era agora a coisa mais importante do seu mundo. Aubrey terminou de se vestir enquanto Eloise ainda estava parada no banheiro, nua, segurando a navalha, tremendo com a descarga de adrenalina de ter tido a vida dele em suas mãos. Ele apareceu na porta, abotoando o paletó do terno cinza-chumbo, a imagem perfeita do poder corporativo intocável. — Deixe isso aí — ele ordenou, indicando a navalha com um aceno de cabeça. — E vista-se. Temos um jantar hoje à noite. Eloise piscou, a mente lenta tentando processar a mudança abrupta de cenário. De escrava de banho para... o quê? — Um jantar? — ela repetiu, a voz rouca. — Meus sócios majoritários vêm da Europa para fechar um contrato essencial. O jantar será aqui, às oito. Ele se aproximou dela, invadindo seu espaço pessoal nu, segurando seu queixo com firmeza para forçar contato visual. — Esta noite, você não será a criada chorona que dorme no chão. Você será a Sra. Eloise Van Der Mors. A anfitriã perfeita. A esposa troféu, bela, culta e silenciosa. Ele apertou o queixo dela ligeiramente. — A Sra. Valerius trará seu vestido e cuidará da sua preparação. Você vai sorrir. Você vai servir o vinho. Você vai concordar com tudo o que for dito. E, acima de tudo, Eloise, você não vai demonstrar um único traço do que acontece entre estas paredes quando estamos sozinhos. Os olhos azuis dele eram duas geleiras prometendo um inverno eterno. — Se você me envergonhar, se você deixar a máscara cair por um segundo sequer... o que fizemos no quarto ontem à noite parecerá um carinho comparado ao que farei quando o último convidado for embora. Entendido? — Sim, Aubrey — ela sussurrou. — Ótimo. Ele saiu para trabalhar, deixando-a com uma nova forma de terror: o medo do palco. O resto do dia foi uma linha de produção para transformar a mulher quebrada em uma boneca de exibição. A Sra. Valerius assumiu o comando com a eficiência de um agente funerário preparando um corpo. Eloise foi banhada novamente, desta vez com óleos perfumados, não para seu prazer, mas para que cheirasse bem para os convidados de Aubrey. Seu cabelo foi puxado e torcido em um coque arquitetônico e complexo, tão apertado que repuxava a pele de suas têmporas, garantindo uma dor de cabeça constante. Uma equipe de maquiagem e cabelo, trazida de fora e tão silenciosa quanto os empregados da casa, trabalhou em seu rosto. Camadas de base e corretivo foram aplicadas para esconder as olheiras profundas e a palidez mortal de sua pele. Blush foi usado para simular uma saúde que ela não tinha. Batom vermelho-sangue foi pintado em seus lábios, desenhando um sorriso que não existia. Quando terminou, Eloise olhou no espelho. A mulher que a encarava era deslumbrante e fria. Uma estranha perfeita. Uma máscara de porcelana sem alma. Então, veio o vestido. A Sra. Valerius trouxe uma capa de roupa preta e abriu o zíper. O vestido era de seda verde-esmeralda, pesado e luxuoso, que faria seus olhos parecerem joias. Era longo, arrastando no chão, com mangas compridas e justas. E tinha uma gola alta e rígida, estilo vitoriano, que subia até o queixo. Eloise entendeu imediatamente. — A coleira... — ela começou a levar a mão ao pescoço para tirar a gargantilha de veludo preto. — O Sr. Aubrey foi explícito — a Sra. Valerius a interrompeu, sua voz cortante como vidro. — A coleira fica. O vestido foi escolhido para cobri-la. Eloise sentiu um enjoo súbito. Ela teria que passar a noite inteira sorrindo e conversando com estranhos, sabendo que, sob a seda cara, ela usava a marca de propriedade de Aubrey. Era um segredo sujo pressionado contra sua garganta, um lembrete constante de quem ela realmente era naquela casa, independentemente do disfarce de esposa rica. Ela vestiu a seda verde. O tecido era frio e escorregadio. A gola alta cobriu perfeitamente o veludo preto, escondendo sua vergonha do mundo, mas não dela mesma. Ela sentia a pressão dupla em seu pescoço a cada engolir. Às sete e cinquenta e cinco, Eloise desceu a grande escadaria de vidro. Seus pés, ainda doloridos da noite anterior, estavam enfiados em scarpins de salto alto que combinavam com o vestido. Ela se movia com uma rigidez que poderia ser confundida com elegância aristocrática, mas que era apenas puro pavor. Aubrey a esperava no saguão. Ele estava magnífico em um smoking preto feito sob medida, a imagem do anfitrião charmoso e poderoso. Quando a viu, seus olhos não demonstraram desejo, apenas uma satisfação fria de quem avalia um ativo bem apresentado. — Adequada — ele disse, estendendo o braço para ela. — Lembre-se: Sorria. E não fale a menos que lhe perguntem algo. Eloise enganchou o braço no dele. O contato físico a fez querer vomitar, mas ela manteve a máscara de porcelana no lugar. A campainha tocou. As três horas seguintes foram um exercício surreal de dissociação. Os três sócios de Aubrey eram homens mais velhos, corpulentos, com vozes altas e risadas que cheiravam a conhaque caro e charutos. Eles olharam para Eloise com apreciação indisfarçada, parabenizando Aubrey por sua "aquisição" como se ela fosse um novo iate. — Ela é encantadora, Aubrey. Tão... dócil. Uma raridade hoje em dia — comentou um deles, um alemão de rosto vermelho, enquanto Eloise servia mais vinho tinto em sua taça com mãos que ela forçava a não tremer. — Eloise sabe o seu lugar — Aubrey respondeu com um sorriso suave, erguendo sua própria taça em um brinde zombeteiro. — Ela é a alma da nossa casa. Eloise sentiu a coleira apertar sob a gola alta. Ela sorriu, o batom vermelho esticando-se sobre seus dentes. Ela se sentia uma fraude, uma espiã em sua própria vida. Ela queria gritar para aqueles homens que ela dormia no chão, que ela era obrigada a ficar de quatro, que ela raspava a garganta daquele monstro com uma navalha. Mas ela não disse nada. Ela apenas sorriu e concordou, enquanto o medo da punição de Aubrey a mantinha na linha mais eficazmente do que qualquer corrente. Finalmente, os charutos foram fumados no terraço, os últimos acordos foram selados com apertos de mão firmes, e os carros pretos levaram os convidados embora. O som da porta da frente se fechando foi como o fim de uma peça de teatro. O silêncio voltou a reinar no saguão cavernoso. Aubrey se virou para ela. A máscara de anfitrião charmoso desapareceu instantaneamente, substituída pela frieza habitual do dono. Ele a examinou por um momento, procurando falhas na performance. Eloise prendeu a respiração, o coração batendo contra as costelas apertadas pelo vestido de seda. — Você não tropeçou — ele concedeu, sem entusiasmo. — Foi uma performance... aceitável. O alívio fez os joelhos de Eloise fraquejarem. Ela havia passado no teste. Ela não seria punida hoje. — Vá para cima — ele ordenou, já desfazendo a gravata borboleta enquanto caminhava em direção ao seu escritório. — Tire essa fantasia. E espere por mim na cama. Desta vez, você pode dormir nela. Ele parou e olhou para trás por cima do ombro. — Mas a coleira fica. Eloise subiu as escadas sozinha, o som de seus saltos ecoando na casa vazia, sentindo o peso da seda verde, da maquiagem pesada e, acima de tudo, do veludo preto escondido em seu pescoço, lembrando-a de que, mesmo dormindo na cama, ela nunca deixaria de ser a prisioneira dele. A porta do escritório se fechou, isolando Aubrey do resto da casa silenciosa. O ar ali dentro era mais frio, cheirando a couro envelhecido, papel timbrado e a uma ausência deliberada de calor humano. Ele caminhou até o bar de mogno embutido na parede. Suas mãos, que horas antes haviam segurado o quadril de Eloise com violência calculada e que durante o jantar haviam gesticulado com charme sociável, agora se moviam com precisão mecânica para servir uma dose de uísque puro. Ele não estava cansado. O jantar fora um sucesso; os alemães eram previsíveis, fáceis de manipular com vinho caro e a visão de uma esposa troféu submissa. A performance de Eloise fora... adequada. Rígida, sim, mas o medo em seus olhos passara por timidez aristocrática para os convidados bêbados. Ela estava aprendendo. Ele levou o copo à boca, o líquido âmbar queimando agradavelmente sua garganta, lavando o gosto da civilidade forçada das últimas horas. O celular pessoal dele, deixado sobre a mesa de vidro preto, vibrou. Uma única vez. Longa. Insistente. Aubrey olhou para a tela. Não havia nome, apenas um número internacional que ele conhecia bem demais. Eram duas da manhã em Las Vegas. Ele atendeu no segundo toque. — Pai. — Aubrey! Meu garoto de ouro! — A voz de Donato Van Der Mors explodiu no alto-falante, alta demais, carregada de entusiasmo alcoólico e barulho de fundo. Aubrey ouviu o tilintar inconfundível de máquinas caça-níqueis e uma risada feminina aguda e estridente. — Donato, querido, é ele? Mande um beijo meu! — A voz de Veridiana Bracho, a socialite brasileira que era o "sabor do mês" de Donato, vazou pela linha. Aubrey sentiu uma pontada de irritação na mandíbula. Seu pai estava gastando a herança da família em fichas de cassino e mulheres que custavam mil dólares o minuto, enquanto ele mantinha o império funcionando. — Estou ocupado, Donato. O que você quer? — Sempre tão sério. Você precisa relaxar, filho. Veridiana está me mostrando maravilhas que um homem da minha idade nem deveria saber que existem. — Donato riu, um som rouco de fumante inveterado. O barulho de fundo diminuiu um pouco, como se ele tivesse entrado em um local mais reservado. — Mas vamos ao que interessa. Os alemães. Eles assinaram? Aubrey tomou outro gole de uísque, olhando para a vista noturna da sua propriedade através da janela blindada. — O contrato está fechado. As ações majoritárias da petroquímica são nossas. A transferência será concluída na segunda-feira. — Excelente. Excelente! — Donato bateu em alguma superfície. — Eu sabia que você não decepcionaria. O velho Vittoria teria orgulho da forma como engolimos a empresa dele, se não estivesse ocupado demais morrendo. Houve uma pausa. Aubrey sabia que a parte fácil da conversa tinha acabado. — E falando em Vittoria... — O tom de Donato mudou. Ficou mais baixo, mais oleoso. — Como está a sua nova aquisição? A pequena Eloise Montener. Aubrey girou o gelo no copo. — Ela está cumprindo sua função. — Função... você fala como se ela fosse uma máquina de café. — Donato soltou uma risada lasciva. — Eu quero saber a verdade, Aubrey. O investimento valeu a pena? Aquela Virgínia, a mãe... que mulherzinha cara e vulgar. Uma puta de luxo que sugou o marido até o osso. A filha puxou a mãe? Ela é uma puta também, ou você ainda está tendo o trabalho de quebrá-la? Aubrey não sentiu necessidade de defender a honra de Eloise. A honra não era uma moeda que eles negociavam. — Virgínia era uma amadora gananciosa. Eloise é diferente — Aubrey disse friamente. — Ela é uma tela em branco. E eu estou pintando exatamente o que eu quero nela. Ela está aprendendo a ser o tipo certo de puta. A minha. — Hmmm. Gosto de ouvir isso. Domine-a, filho. Nunca deixe uma mulher esquecer quem paga as contas. É o único jeito de mantê-las leais. Aubrey ouviu Veridiana sussurrar algo manhoso do outro lado da linha, e Donato respondeu com um murmúrio impaciente. — Escute, Aubrey. O negócio com os alemães é ótimo, o dinheiro é ótimo. Mas você sabe que o acordo com o velho Vittoria, a razão pela qual pagamos as dívidas daquela viúva parasita, não foi apenas por uma esposa bonita na sua mesa de jantar. A atmosfera no escritório ficou mais pesada. Era a cobrança final. O verdadeiro preço de tudo. — Eu sei quais são os termos, pai. — Então cumpra-os — a voz de Donato endureceu, perdendo o tom de brincadeira bêbada. — Eu não vou viver para sempre, e com o ritmo que levo com Veridiana, talvez dure menos do que eu espero. Eu preciso de um legado. Um herdeiro. Um neto homem, Aubrey, para carregar o nome Van Der Mors quando nós dois formos comida de verme. Aubrey apertou o copo com força. — O casamento tem apenas quarenta e oito horas, Donato. — Tempo suficiente para um garanhão saudável fazer o serviço — Donato retrucou, cru e direto. — Você já começou o processo? Você está enchendo a barriga daquela garota? A imagem de Eloise na noite anterior, de quatro no carpete, a coleira no pescoço, soluçando enquanto ele a tomava, passou pela mente de Aubrey. — O processo foi iniciado — Aubrey confirmou, a voz desprovida de qualquer emoção. — Não se preocupe com o seu legado. Eu farei o que for necessário. — É bom mesmo. Mantenha-a trancada, mantenha-a ocupada e me dê um neto até o ano que vem. Agora, se me der licença, a Veridiana está ficando impaciente e as mesas de blackjack estão me chamando. A ligação caiu sem despedidas. O som de discagem ecoou no escritório vazio. Aubrey baixou o telefone lentamente. Ele terminou o uísque num único gole, sentindo o calor se espalhar pelo peito, mas sem tocar o frio que habitava seu interior. Ele olhou para o teto. Lá em cima, no quarto principal, sua esposa — sua propriedade, sua futura reprodutora — o esperava na cama, usando a coleira que ele a obrigara a manter. Ele tinha ordens a cumprir. O negócio não estava completo até que a mercadoria entregasse o produto final. Aubrey colocou o copo vazio no bar, ajeitou o paletó que não precisava de ajustes, e saiu do escritório, subindo as escadas para garantir o investimento da família.






