5. Treinamento

​O refúgio do quarto principal parecia agora uma cela de isolamento de luxo. Depois de constatar a impossibilidade da fuga, Eloise subiu as escadas correndo, como se o próprio diabo estivesse em seus calcanhares, e trancou a porta atrás de si. Um gesto inútil, ela sabia. Aubrey tinha a chave mestra.

​Ela se encostou na porta de madeira maciça, o peito arfando, o coração batendo dolorosamente contra as costelas. Eram apenas dez horas da manhã. Faltavam nove horas para as sete da noite. Nove horas para o início do seu "treinamento".

​O tempo, que na noite anterior havia se dissolvido em borrões de pânico e dor, agora se arrastava com uma lentidão sádica.

​Eloise tentou se deitar. A cama king size estava impecavelmente feita, os lençóis de algodão egípcio esticados sem uma única ruga. Era como se a violência da noite anterior nunca tivesse acontecido. A limpeza era mais uma forma de gaslighting, uma tentativa de apagar a realidade do que ela sofrera.

​Ao encostar a cabeça no travesseiro, o cheiro dele a invadiu. Sândalo e algo metálico, frio. Mesmo trocada, a roupa de cama retinha a essência do dono. Eloise levantou-se num pulo, a náusea subindo pela garganta.

​Ela começou a andar. Do banheiro para a janela, da janela para o closet, do closet para a porta trancada. Cinco passos para um lado, dez para o outro. O carpete grosso abafava seus passos, tornando sua inquietação silenciosa.

​Sua mente, sem ter para onde fugir, começou a reprisar as palavras de Aubrey num loop torturante.

​Incompetente. Tediosa. Puta particular. De joelhos.

​Cada frase era uma chicotada. A humilhação de ter sido julgada "insuficiente" na sua própria violação ardia mais do que os hematomas físicos em seus pulsos e coxas. Ele não apenas tomara seu corpo; ele o avaliara e o descartara como defeituoso.

​A fome veio e passou, ignorada. O estômago dela estava tão apertado de ansiedade que a ideia de comer parecia impossível.

​A luz do sol começou a mudar. O cinza da manhã deu lugar a um amarelo pálido no início da tarde, e depois, lentamente, o céu começou a sangrar.

​O pôr do sol foi espetacular e aterrorizante. Através da parede de vidro, Eloise viu o céu acima da floresta tingir-se de tons violentos de laranja, vermelho e roxo. O quarto foi banhado por essa luz dramática, transformando as sombras em poças de sangue alongadas.

​Eram seis horas.

​A ordem de Aubrey ecoou em sua mente: Esteja pronta, banhada e me esperando.

​Como um autômato, movida pelo medo da desobediência, Eloise foi para o banheiro. Ela se despiu, evitando olhar para o próprio corpo no espelho grande, evitando ver as marcas roxas que começavam a florescer em sua pele pálida como mapas da posse dele.

​O banho não foi um ritual de limpeza; foi um ritual de preparação para o sacrifício. Ela esfregou a pele até ficar vermelha, tentando tirar a sensação de sujeira que vinha de dentro, não de fora.

​Ao sair, vestiu novamente o vestido de linho creme. Não havia outras opções aceitáveis no closet. Ela se sentiu como uma boneca sendo vestida para o prazer sádico de uma criança mimada.

​Seis e quarenta e cinco.

​Eloise sentou-se na beirada da cama, as mãos juntas no colo, os nós dos dedos brancos de tensão. A luz vermelha do sol poente estava desaparecendo, dando lugar a um crepúsculo azul-escuro, quase negro, que parecia engolir o quarto. Ela não acendeu as luzes. Preferia a escuridão.

​A casa estava em silêncio absoluto. O zumbido do ar-condicionado parecia o som de sua própria respiração aterrorizada.

​E então, aconteceu.

​Exatamente às sete horas, um som rompeu a quietude da noite lá fora. O rugido grave e potente de um motor de alto desempenho se aproximando pela estrada particular. O som dos pneus triturando o cascalho da entrada.

​O coração de Eloise parou.

​Ele tinha voltado.

​Ela ouviu, com uma clareza sobrenatural, o som da porta do carro batendo lá embaixo. Passos pesados no cascalho. O som abafado da porta da frente se abrindo e fechando.

​A contagem regressiva tinha acabado. O tempo de espera havia terminado.

​Passos na escada. Lentos. Deliberados. O som de um predador que não tem pressa porque sabe que a presa está encurralada.

​Os passos ecoaram no corredor. Pararam do outro lado da porta.

​Eloise prendeu a respiração, os olhos fixos na maçaneta dourada, que brilhava na penumbra do quarto.

​A maçaneta começou a girar. Lenta, inexoravelmente.

​A porta se abriu, e a silhueta alta e larga de Aubrey Van Der Mors preencheu o batente, recortada contra a luz do corredor. Ele não disse nada. Apenas ficou parado, os olhos azuis brilhando na escuridão, avaliando-a sentada na cama como uma oferenda à espera de seu deus cruel.

Aubrey não entrou no quarto imediatamente. Ele permaneceu no batente da porta, uma silhueta escura recortada contra a luz do corredor, deixando que o peso de sua presença preenchesse o espaço antes dele.

​Ele a observou sentada na beira da cama, rígida como uma estátua de gesso prestes a quebrar. O vestido de linho creme a fazia parecer ainda mais pálida, quase doente. Ele notou os tremores finos nas mãos dela, entrelaçadas no colo até os nós dos dedos ficarem brancos.

​Medo. Puro, destilado e intoxicante. Ele podia sentir o cheiro dele no ar.

​Ele entrou, fechando a porta atrás de si com um clique suave e definitivo. O som fez Eloise estremecer violentamente, como se tivesse levado um choque elétrico.

​— Você está pronta — ele constatou, a voz grave e sem inflexão, enquanto caminhava para o centro do quarto. — Pontualidade. É um bom começo.

​Ele parou diante dela. O cheiro do mundo exterior ainda estava nele — o couro do carro, o frio da noite e uma sugestão metálica de poder e dinheiro. Ele começou a desabotoar o paletó, seus movimentos lentos e deliberados.

​— Levante-se — ele ordenou.

​Eloise obedeceu instantaneamente, movida pelo reflexo condicionado do terror. Ela ficou de pé diante dele, a respiração curta e superficial, os olhos fixos no nó da gravata dele.

​Aubrey tirou o paletó e o jogou descuidadamente sobre uma poltrona. Em seguida, começou a afrouxar a gravata de seda escura.

​— A lição de hoje, Eloise, é sobre honestidade — ele disse, puxando a gravata do colarinho. Ele a enrolou lentamente em torno da mão, a seda deslizando com um sussurro sibilante. — Ontem, você mentiu para mim. Seu corpo mentiu. Você estava tensa, seca, fingindo um nojo que não era inteiramente real.

​— Eu não fingi... — ela começou, a voz trêmula de indignação.

​— Shiii. — Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço. — Regra número quatro: Você não fala durante o treinamento, a menos que seja para responder a uma pergunta direta ou para implorar. Entendido?

​Ela assentiu, muda, mordendo o lábio inferior.

​— Ótimo. — Ele ergueu as mãos e começou a desabotoar a camisa dela. Eloise instintivamente levou as mãos para tentar cobrir-se ou parar o movimento dele, mas ele segurou os pulsos dela com uma mão só, prendendo-os atrás das costas dela com facilidade.

​Com a outra mão, ele terminou de abrir o vestido e o empurrou para baixo, deixando-o cair aos pés dela. Ela ficou apenas com as roupas íntimas de algodão simples que ele havia fornecido.

​Aubrey a circulou lentamente, avaliando-a como um comprador de gado. Seus olhos frios mapearam as marcas roxas que começavam a aparecer em seus braços e coxas, vestígios da noite anterior. Ele não demonstrou remorso, apenas reconhecimento de posse.

​— O problema da sua inexperiência — ele murmurou, parando atrás dela — é que você não conhece o seu próprio corpo. Você acha que a sua mente está no comando. Você acha que o seu ódio pode impedir a sua biologia.

​Ele se inclinou, a respiração quente batendo na nuca dela, fazendo-a arrepiar.

​— Eu vou te mostrar como você está errada.

​Antes que ela pudesse reagir, ele usou a gravata de seda que ainda segurava. Com um movimento rápido, ele a passou sobre os olhos dela e a amarrou firmemente na parte de trás da cabeça.

​O mundo de Eloise mergulhou na escuridão. A privação sensorial foi instantânea e aterrorizante. Sem a visão, seus outros sentidos entraram em alerta máximo. O som da respiração dele parecia mais alto, o cheiro dele mais intenso, a expectativa do toque dele, insuportável.

​— A cegueira te deixa honesta — a voz dele veio da direita, depois de trás. Ele estava se movendo. — Você não pode antecipar de onde eu venho. Você só pode sentir.

​O primeiro toque foi chocante por sua leveza.

​Não foi um agarre brutal. Foi a ponta dos dedos dele, mal roçando a pele sensível da parte interna do braço dela, subindo do pulso até o cotovelo.

​Eloise arfou, um som involuntário de surpresa. O toque era fantasmagórico, elétrico. Onde ela esperava dor, encontrou uma sensação estranha, uma cócega que enviava sinais confusos para o seu cérebro aterrorizado.

​— Viu? — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Você já está reagindo.

​Ele continuou. Traçou a linha da clavícula dela, depois desceu para o vale entre os seios, ainda cobertos pelo sutiã de algodão. Ele não tocou nos mamilos, apenas na pele ao redor, circulando, provocando, despertando terminações nervosas que ela nem sabia que existiam.

​Eloise tentou se afastar, mas ele a segurou pela cintura com a outra mão. Firme, mas não doloroso.

​— Fique parada — ele ordenou, a voz rouca. — Aceite.

​Ele subiu para o pescoço dela. Em vez de morder, como fizera na noite anterior, ele usou a língua. Uma lambida lenta, quente e úmida, subindo da base do pescoço até a orelha.

​O corpo de Eloise traiu sua mente instantaneamente. Um arrepio violento percorreu sua espinha. Suas pernas fraquejaram. Uma onda de calor, nascida no baixo ventre, começou a se espalhar.

​— Não... — ela gemeu, a palavra saindo estrangulada. Ela odiava aquilo. Odiava a sensação boa que a língua dele causava. Era uma violação pior do que a dor.

​— "Não"? — Aubrey riu contra a pele dela, sentindo o pulso dela acelerado na carótida. — Sua pele está quente, Eloise. Seus mamilos estão duros contra o algodão barato. O seu corpo está me dizendo "sim" em alto e bom som.

​Ele desceu a mão para a barriga dela, a palma grande e quente pressionando logo acima do osso púbico. Ele podia sentir a tensão nos músculos dela, a luta interna.

​— Você está lutando contra si mesma, não contra mim — ele disse, clínico, cruel. — Relaxe o estômago. Deixe-me entrar.

​Ele deslizou a mão para baixo, por cima da calcinha de algodão. Ele não foi direto ao ponto. Ele pressionou a montanha de Vênus com a base da palma da mão, esfregando em círculos lentos e pesados.

​A fricção criou um calor imediato. A respiração de Eloise tornou-se irregular, entrecortada. Ela mordeu o lábio para não gemer, para não dar a ele a satisfação. Lágrimas de frustração e vergonha queimavam sob a venda.

​— Abra as pernas — ele comandou.

​Ela hesitou. A vergonha era paralisante.

​— Eloise. — O tom de aviso. O perigo na voz dele.

​Tremendo, ela afastou os pés alguns centímetros.

​— Mais.

​Ela obedeceu.

​Aubrey deslizou a mão para o espaço entre as coxas dela. Ele tocou o tecido úmido da calcinha.

​— Ah — ele disse, o som carregado de triunfo zombeteiro. — Aí está a prova.

​Ele enfiou dois dedos por baixo do elástico da calcinha. Ele não foi gentil, mas também não foi violento. Foi uma invasão técnica. Ele encontrou o centro da sensibilidade dela, que estava inchado e pulsante, traindo todo o ódio que ela sentia por ele.

​Quando ele tocou aquele ponto exato, as pernas de Eloise cederam. Ela teria caído se ele não a estivesse segurando pela cintura. Um soluço agudo, misturado com um gemido que ela não conseguiu conter, escapou de sua garganta.

​A sensação era avassaladora. Era prazer, sim, mas um prazer envenenado pela coerção e pelo medo. Era como ser forçada a comer um doce enquanto estava enjoada.

​Aubrey começou a movê-los. Círculos lentos, precisos, torturantes. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele estava tocando-a como um instrumento que ele desprezava, mas que sabia dominar perfeitamente.

​— Sente isso, puta? — ele sussurrou no ouvido dela, a palavra vulgar sendo usada como uma arma para quebrar sua dignidade enquanto seu corpo se desfazia. — Sente como você é fácil? Como o seu corpo se abre para o homem que você diz odiar?

​Eloise chorava abertamente agora sob a venda, as lágrimas molhando a seda. Ela estava queimando de vergonha, mas seus quadris começaram a se mover involuntariamente, buscando o toque dele, buscando alívio para a tensão insuportável que ele estava construindo.

​— Olhe para você — ele zombou, aumentando o ritmo ligeiramente, levando-a para a beira do precipício. — Se esfregando na minha mão como uma cadela no cio. Onde está toda aquela pureza agora, Eloise? Onde está o seu orgulho?

​Ele a manteve lá, no limiar do orgasmo, por minutos que pareceram horas. Ele a fez implorar mentalmente para que ele parasse, e ao mesmo tempo, para que ele continuasse e acabasse logo com aquilo.

​Quando ele sentiu as contrações começarem, quando percebeu que ela não conseguia mais segurar, ele parou abruptamente.

​Ele retirou a mão. A ausência do toque foi um choque físico, deixando-a suspensa, inacabada, trêmula e dolorida de necessidade não atendida.

​Eloise soluçou, o corpo protestando contra a interrupção cruel.

​Aubrey retirou a venda dos olhos dela. A luz súbita a cegou por um momento.

​Quando sua visão focou, ela viu Aubrey parado diante dela. Ele ainda estava vestido, impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar. Ele ergueu a mão que a havia tocado. Seus dedos estavam brilhantes de umidade.

​Ele os exibiu para ela como um troféu de sua humilhação.

​— Lição número um concluída — ele disse, a voz fria como gelo. — Você não é pura. Você não é inocente. Você é apenas uma coisinha responsiva que agora sabe a quem pertence.

​Ele pegou o queixo dela com a mão limpa, forçando-a a olhar para os dedos molhados dele.

​— Nunca mais minta para mim sobre o que você sente, Eloise. Porque eu conheço o seu corpo melhor do que você.

​Ele a soltou com nojo e caminhou em direção ao banheiro.

​— Lave-se. E depois vá para a cama. Amanhã começaremos a parte prática.

​Eloise ficou sozinha no centro do quarto, seminua, trêmula e devastada. Ele não a havia estuprado naquela noite. Ele havia feito algo pior. Ele a tinha feito trair a si mesma.

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