Mundo de ficçãoIniciar sessãoA descida para o andar térreo foi uma Via-Crúcis silenciosa. Aubrey caminhava um passo atrás dela, uma sombra sólida e quente cuja presença física parecia empurrá-la escada abaixo.
Eloise movia-se rigidamente. O vestido de linho creme que ele escolhera era leve, mas parecia pesar uma tonelada sobre sua pele sensível. Cada degrau de mármore enviava um choque de dor maçante através de seus quadris e coxas, uma lembrança latejante da violência da noite anterior e do confronto recente na porta do quarto. Ela se segurava no corrimão de ferro forjado, os nós dos dedos brancos, tentando disfarçar o leve mancar. Aubrey não ofereceu ajuda. Ele apenas observava, o ritmo de seus passos de couro perfeitamente regular, como um metrônomo marcando o tempo da sentença dela. Eles atravessaram o saguão cavernoso e entraram na sala de jantar. O espaço era tão intimidante quanto o resto da casa. Uma mesa longa de madeira escura e polida, capaz de acomodar vinte pessoas, dominava o centro. O pé-direito duplo e as janelas altas, que iam do chão ao teto, deixavam entrar a luz cinzenta e indiferente da manhã nublada. A mesa estava posta para dois, mas não lado a lado. Os lugares estavam dispostos nas extremidades opostas da longa superfície de mogno, criando um abismo físico que espelhava o abismo emocional entre eles. Aubrey caminhou até a cabeceira, sentando-se com a fluidez de um rei assumindo seu trono. Ele nem sequer olhou para ela. — Sente-se — ele ordenou, o tom casual, enquanto pegava um tablet fino que já estava posicionado ao lado de seu prato. Eloise caminhou até a outra ponta. A cadeira era pesada, de espaldar alto, quase um instrumento de tortura medieval. Ela se sentou na ponta da cadeira, os músculos da região pélvica protestando contra a pressão. Assim que ela se acomodou, as portas da copa se abriram. Dois empregados de uniforme cinza entraram, movendo-se com a eficiência silenciosa de fantasmas. O cheiro da comida atingiu Eloise como um soco no estômago. O aroma rico de café recém-passado, ovos mexidos com trufas e pães artesanais, que em qualquer outro dia seria delicioso, agora fazia sua bile subir. Seu estômago estava embrulhado em nós de terror e repulsa. Um empregado serviu café para Aubrey. O outro colocou um prato de porcelana chinesa diante de Eloise, contendo uma porção artisticamente disposta de frutas vermelhas e iogurte, e uma xícara de chá de ervas. — Obrigado — Aubrey murmurou para o empregado, sem tirar os olhos da tela do tablet. Seus dedos deslizavam pelas notícias do mercado financeiro. Ele estava calmo. Composto. Impecável em sua camisa branca de algodão egípcio. Para ele, era apenas uma terça-feira de manhã. Eloise olhou para o seu prato. As framboesas pareciam gotas de sangue coagulado contra o branco do iogurte. O silêncio na sala era absoluto, quebrado apenas pelo leve roçar do dedo de Aubrey no tablet e pelo tique-taque distante de algum relógio. Era um silêncio espesso, opressivo, que amplificava cada respiração trêmula que ela dava. Ela sentia o olhar dos empregados sobre ela. Eles não olhavam diretamente, é claro. Eram treinados para serem invisíveis. Mas ela sentia a curiosidade mórbida, o julgamento silencioso. “Eles sabem,” ela pensou, sentindo o rosto queimar. “Eles sabem o que ele fez comigo. Eles devem ter trocado os lençóis.” A vergonha era um ácido corroendo suas entranhas. Ela queria gritar, virar a mesa, exigir que alguém reconhecesse o horror que estava vivendo. Mas a lembrança dos dedos de Aubrey em seu braço, a promessa fria de amarrá-la à cama, manteve sua boca fechada. Dez minutos se passaram. Aubrey já estava na metade de seus ovos. Eloise não tinha tocado em nada. Suas mãos estavam fechadas no colo, escondidas sob a toalha de mesa de linho. De repente, o som do garfo de prata de Aubrey batendo contra a porcelana cessou. O silêncio mudou de textura. Ficou mais afiado. Aubrey não levantou a cabeça imediatamente. Ele terminou de mastigar lentamente, engoliu e tomou um gole de café. Só então ele ergueu os olhos azuis e gélidos por cima do tablet, fixando-os nela do outro lado da longa mesa. — Você não está comendo — ele observou. Não era uma pergunta. — Eu... eu não estou com fome — Eloise sussurrou, a voz falhando na imensidão da sala. Aubrey suspirou, um som curto de impaciência. Ele colocou o tablet sobre a mesa com um clique deliberado. — A fome é irrelevante. Você precisa de nutrientes. Você está pálida, e eu não gosto de coisas fracas na minha casa. Ele fez um gesto mínimo com a cabeça para um dos empregados que estava parado perto do aparador. O homem se aproximou imediatamente da cadeira de Eloise. — Coma — Aubrey ordenou, voltando sua atenção para o tablet. Eloise olhou para o empregado parado ao seu lado, esperando como um carcereiro. Ela olhou para Aubrey, que já a ignorava novamente. Ela percebeu, com uma clareza devastadora, que não tinha escolha. A recusa só traria uma nova "correção". Com a mão tremendo visivelmente, ela pegou a colher de prata. O metal frio tilintou contra a borda da tigela, o som parecendo um tiro no silêncio da sala. Ela levou uma colherada de iogurte e frutas à boca. Tinha gosto de cinzas e humilhação. Ela engoliu com dificuldade, sentindo a comida descer arranhando por sua garganta fechada. Uma lágrima solitária escapou e escorreu pelo seu nariz, pingando dentro da tigela de iogurte. Aubrey não viu. Ou se viu, não se importou. Ele continuou lendo sobre a fusão de duas empresas petroquímicas, enquanto sua esposa engolia o café da manhã misturado com o próprio choro, aprendendo a primeira lição fundamental de sua nova vida: sua dor não era moeda de troca naquela casa. Sua dor era invisível. O último gole de café de Aubrey foi pontuado pelo som seco da xícara de porcelana retornando ao pires. O ruído ecoou no silêncio da sala de jantar como um ponto final em uma sentença. Ele se levantou. A mera ação de ficar de pé fez Eloise encolher-se na cadeira, seus músculos retesando-se em antecipação a uma nova ordem, um novo ataque. Aubrey abotoou o paletó do terno grafite com movimentos precisos, ignorando a presença dos empregados que começavam a retirar a mesa. — Venha comigo — ele disse, sem olhar para ela, já caminhando em direção à saída. Não era um convite. Eloise largou a colher na tigela de iogurte quase intocada. As pernas tremiam ao se levantar, a dor entre as coxas enviando fisgadas agudas a cada movimento. Ela o seguiu, mantendo uma distância segura de três passos, como um animal de estimação que ainda não aprendeu a confiar no dono — ou que aprendeu, da pior forma, a temê-lo. Eles não foram para a porta da frente. Aubrey virou-se para a grande escadaria de vidro. O coração de Eloise falhou uma batida. Não. Lá para cima não. Por favor. — Aubrey... — ela sussurrou, o nome saindo como um pedido de clemência. Ele parou no primeiro degrau, virando a cabeça ligeiramente para trás. O perfil dele era uma lâmina fria sob a luz da manhã. — Eu não me lembro de ter lhe dado permissão para falar. Suba. Ela subiu. Cada degrau era uma nova camada de pavor. Subir aquelas escadas significava retornar à cena do crime. Significava que a noite anterior não fora um pesadelo isolado, mas o início de uma realidade contínua. Ele a guiou pelo longo corredor, passando pela porta onde a havia interceptado mais cedo, e entrou novamente na suíte principal. O quarto estava impecável. As camareiras invisíveis já haviam passado por lá. A cama king size estava feita com lençóis novos e esticados, os farrapos do vestido de noiva haviam desaparecido, o cheiro de sexo e suor fora substituído por um aroma cítrico de limpeza industrial. Era como se nada tivesse acontecido ali. Mais uma camada de gaslighting. Aubrey foi até o centro do quarto e parou, virando-se para encará-la. Ele a examinou de cima a baixo, o olhar clínico e desprovido de calor. — Feche a porta, Eloise. Ela obedeceu, o clique da tranca soando como o fechamento de um caixão. Aubrey caminhou lentamente até ela. Eloise lutou contra o impulso de recuar até a parede. Ela sabia que não adiantaria. Ele parou a centímetros dela, invadindo seu espaço pessoal, forçando-a a inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Ele ergueu a mão. Eloise flinchou, fechando os olhos, esperando um tapa. Mas ele não bateu. Em vez disso, seus dedos longos e quentes envolveram o queixo dela, apertando as bochechas com firmeza, forçando sua boca a fazer um bico. Ele inclinou a cabeça, estudando o rosto dela como se fosse uma peça de cerâmica com um defeito de fabricação. — Sabe qual é o seu problema, minha querida esposa? — ele perguntou, a voz suave, quase didática. — Você é um investimento muito caro que veio com defeito. Eloise tentou desviar o olhar, mas o aperto dele era implacável. — Sua mãe me garantiu pureza — continuou ele, o polegar acariciando a maça do rosto dela de uma forma que parecia uma ameaça. — Mas o que eu recebi ontem à noite foi... incompetência. Você foi desajeitada. Tensa. Chorona. Francamente, foi tedioso. As lágrimas de humilhação começaram a brotar nos olhos de Eloise. Ele estava transformando a violência que cometeu contra ela em uma falha de caráter dela. — Eu... eu nunca tinha... — ela tentou falar, a voz abafada pela mão dele em seu rosto. — Exatamente. Inexperiente. — Ele soltou o rosto dela com um empurrãozinho de desdém. — E eu não tenho paciência para amadores. Aubrey começou a andar ao redor dela, circulando-a como um tubarão avaliando a presa. — Você tem o sangue da sua mãe, Eloise. A mesma ambição, a mesma capacidade de se vender. Só lhe falta a técnica. — Ele parou atrás dela, sussurrando perto de seu ouvido, fazendo os pelos da nuca dela se arrepiarem. — Mas não se preocupe. Eu vou corrigir isso. Ele colocou as mãos nos ombros dela. Não era um abraço. Era uma contenção. — Eu vou treinar você. Vou pegar essa sua inocência irritante e quebrá-la pedaço por pedaço, até que você entenda qual é a sua verdadeira função nesta casa. A mão dele desceu do ombro para o seio dela, apertando com uma possessividade crua por cima do tecido do vestido de linho. Eloise engasgou, paralisada de medo. — Ontem foi apenas o básico. A introdução. — A voz dele ficou mais rouca, mais sombria. — Mas eu tenho gostos... específicos. Coisas que uma esposa de "boa família" nem sonharia em fazer. E você vai aprender todas elas. Você vai aprender a me servir de joelhos, vai aprender a gostar da dor, vai aprender a implorar pelas coisas que agora te dão nojo. Ele apertou o seio dela com mais força, causando um gemido de dor. — Em resumo, Eloise, eu vou ensinar você a ser a minha puta particular. A melhor puta que o dinheiro do meu pai já comprou. E nós vamos começar as aulas de verdade hoje à noite. Ele a soltou abruptamente, como se tivesse perdido o interesse. Eloise cambaleou para frente, tremendo, sentindo-se suja, marcada pelas palavras dele mais profundamente do que por qualquer tapa. Aubrey caminhou até a porta, verificando o relógio de pulso caríssimo. A mudança de monstro sexual para executivo ocupado foi instantânea e aterrorizante. — Tenho reuniões o dia todo. — Ele se virou para ela uma última vez, a expressão voltando a ser de fria indiferença. Ele se aproximou novamente. Eloise prendeu a respiração. Aubrey inclinou-se e depositou um beijo gelado e seco na testa dela. Não havia afeto. Era o tipo de beijo que um mafioso dá em alguém antes de ordenar sua execução. Era um selo de propriedade. — Regras para enquanto eu estiver fora: — ele listou, o tom de voz de quem dita um memorando. — Um: Você não sai desta casa. O perímetro é monitorado, e os seguranças têm ordens para trazê-la de volta, arrastada se necessário. Dois: Você não fala com os empregados a menos que seja para dar uma ordem direta sobre suas necessidades básicas. Eles não são seus amigos. Três: Esteja pronta, banhada e me esperando neste quarto às sete da noite. Ele abriu a porta. — Não me decepcione de novo, Eloise. Minha paciência para o seu "treinamento" é limitada. A porta bateu. O som ecoou no quarto vazio, deixando Eloise sozinha com o silêncio, o medo e a promessa terrível do que a noite traria. O silêncio que se seguiu à partida de Aubrey não era pacífico; era o silêncio de um predador que parou de respirar para ouvir a presa. Eloise permaneceu no centro do quarto por longos minutos, o corpo vibrando com os ecos das ameaças dele. Puta particular. Treinamento. Sete da noite. As palavras pareciam pairar no ar condicionado gelado, contaminando o oxigênio. Ela olhou para a cama king size perfeitamente arrumada. A ideia de deitar ali, no epicentro de sua violação, esperando passivamente pelo retorno do carrasco, era insuportável. Uma inquietação febril tomou conta dela. Se ela fosse ficar presa, precisava conhecer as dimensões de sua gaiola. Ainda vestindo o vestido de linho creme que Aubrey escolhera — um uniforme de submissão —, ela abriu a porta do quarto e saiu para o corredor. A casa era imensa, mas parecia vazia de vida. Não havia fotos de família nas paredes, nenhum objeto pessoal esquecido sobre um aparador, nenhum cheiro de comida caseira. Era um espaço curado para uma revista de arquitetura minimalista, não para seres humanos viverem. Eloise desceu a escadaria flutuante de vidro, seus pés descalços fazendo um som suave e abafado no mármore preto do térreo. Ela se sentia uma intrusa, um fantasma vagando por um mausoléu moderno. Ela passou pela sala de estar, onde sofás de couro italiano branco estavam dispostos em ângulos precisos diante de uma lareira de pedra fria. Nas paredes, enormes telas de arte abstrata em tons de preto, cinza e vermelho-sangue pareciam observar seus movimentos. As esculturas de metal retorcido nos cantos lembravam instrumentos cirúrgicos ou de tortura. Tudo na casa gritava dinheiro, poder e uma frieza estéril. Era uma extensão da alma de Aubrey. Movida por um impulso de desafio, ela tentou abrir uma porta dupla de madeira escura que parecia levar a um escritório ou biblioteca. A maçaneta girou em falso. Trancada. Ela tentou outra porta mais adiante no corredor. Trancada. A mensagem era clara: ela tinha acesso apenas às áreas comuns, aos espaços onde poderia ser exibida. Os bastidores do poder de Aubrey estavam fora de seu alcance. Continuando sua exploração fútil, ela chegou aos fundos da mansão. Ali, uma parede inteira de vidro, semelhante à do quarto principal, dava para um terraço de pedra e, além dele, o jardim. Eloise pressionou as mãos contra o vidro. Pela primeira vez desde que chegara, viu a luz do dia com clareza. O céu ainda estava nublado, mas a visão do verde, das árvores balançando ao vento, trouxe uma faísca dolorosa de esperança. O mundo exterior ainda existia. Ela viu uma porta de vidro de correr que dava acesso ao terraço. Seu coração acelerou. Será que ele teria sido descuidado? Com as mãos trêmulas, ela destravou o trinco. A porta deslizou suavemente. O ar frio da manhã atingiu seu rosto, cheirando a terra úmida e pinheiros. Eloise deu um passo para fora, sentindo o vento agitar a saia do vestido. Por um segundo, apenas um segundo, ela permitiu-se imaginar correndo. Correndo para a floresta, desaparecendo entre as árvores até que seus pulmões queimassem e Aubrey Van Der Mors fosse apenas uma memória ruim. Ela deu mais três passos até a borda do terraço de pedra. E então ela parou. A esperança morreu tão rápido quanto nascera. O "jardim" não era um espaço aberto. Era um pátio de segurança disfarçado com paisagismo caro. A cerca de cinquenta metros da casa, um muro de concreto liso, com pelo menos quatro metros de altura, cercava toda a propriedade. No topo do muro, rolos de arame farpado brilhavam sob a luz difusa do sol, um aviso prateado e cortante. Mas não foi o muro que fez o sangue de Eloise gelar. A cada vinte metros ao longo do perímetro, havia postes pretos discretos. No topo de cada um, uma câmera de segurança com lente escura girava lentamente, varrendo a área com um olho eletrônico incansável. E então ela viu o movimento. Perto do portão de serviço, na extremidade do gramado, um homem uniformizado de preto, com um colete tático e um coldre na perna, estava parado. Ele não estava olhando para as árvores. Ele estava olhando diretamente para ela. Ele não acenou. Não fez menção de se aproximar. Ele apenas ficou parado, uma estátua de vigilância, deixando claro que a presença dela ali fora não era um segredo, mas uma permissão temporária. Eloise ouviu um zumbido suave acima de sua cabeça. Ela olhou para cima e viu uma das câmeras montadas na parede externa da casa. A lente havia parado de girar. Estava apontada diretamente para o seu rosto. O ar livre de repente pareceu tão sufocante quanto o interior da casa. A vastidão do jardim encolheu ao redor dela. Ela não estava do lado de fora. Ela estava apenas em um cercado maior. O calafrio que percorreu seu corpo não tinha nada a ver com a temperatura da manhã. Era a compreensão gelada de que Aubrey não precisava estar presente para controlá-la. Seus olhos estavam em toda parte. Seus muros eram intransponíveis. Seus homens eram leais. Com um soluço seco, Eloise recuou para dentro da casa e fechou a porta de vidro, trancando-se voluntariamente de volta no aquário. A ilusão de fuga fora destruída, deixando apenas a realidade claustrofóbica da espera pelo retorno de seu dono.






