6. Humilhada

​A ordem de Aubrey pairava no ar como uma névoa tóxica: Lave-se. E depois vá para a cama.

​Eloise moveu-se como um autômato, a conexão entre sua mente e seu corpo fraturada. Ela caminhou até o banheiro, as pernas parecendo feitas de chumbo, e fechou a porta. Não havia tranca, é claro. A privacidade era um luxo que ela não podia mais pagar.

​Debaixo do chuveiro, ela aumentou a temperatura da água até ficar quase insuportável. A pele ficou vermelha sob o jato escaldante, mas o calor não conseguia penetrar o frio que se instalara em seus ossos. Ela esfregou o corpo com a esponja vegetal com uma violência desesperada, focando especialmente na área entre as coxas, onde a umidade vergonhosa que ele havia provocado ainda parecia queimar.

​Ela queria arrancar a própria pele. Queria apagar o fato de que seu corpo havia traído seu ódio e respondido ao toque de um monstro. Ela soluçou sem lágrimas, um som seco e oco, enquanto a água escorria pelo ralo, levando o sabão, mas não a mancha invisível de sua humilhação.

​Quando saiu do banho, secou-se com movimentos bruscos e vestiu novamente a calcinha de algodão simples que ele havia deixado para ela. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz residual da lua que entrava pela janela panorâmica.

​O banheiro de Aubrey estava em silêncio agora. Ele devia estar em outro cômodo, ou talvez já na cama.

​Eloise aproximou-se da imensa cama king size. O cheiro de sândalo e amaciante caro subiu dos lençóis de contagem alta de fios. Era um altar de sacrifício disfarçado de conforto.

​Com o coração batendo na garganta, ela deslizou para debaixo do edredom. Ela foi para a borda extrema do lado esquerdo, o mais longe possível do centro, encolhendo-se em posição fetal, tentando ocupar o mínimo de espaço possível, tentando desaparecer.

​Ela fechou os olhos, fingindo dormir, rezando para que a exaustão emocional a levasse.

​A porta do outro lado do quarto se abriu.

​Eloise parou de respirar.

​Ela ouviu os passos pesados dele no carpete. O som de tecido sendo descartado. O clique do interruptor de luz principal sendo apagado, mergulhando o quarto na escuridão total.

​O colchão afundou do outro lado. O peso de Aubrey fez a cama inclinar ligeiramente. O calor do corpo dele irradiou através do espaço vazio entre eles, uma ameaça térmica na frieza do quarto.

​Por longos minutos, ele não se mexeu. Eloise permaneceu rígida, os músculos travados em um espasmo contínuo de terror, esperando o próximo ataque, a próxima lição humilhante.

​Então, ele suspirou. Um som de cansaço genuíno, não de teatro.

​— Eloise — a voz dele na escuridão era grave, rouca de sono iminente. — Chegue mais perto.

​Ela não se mexeu. O medo a paralisou. Talvez se ela fingisse que já estava dormindo, ele a deixaria em paz.

​O silêncio se estendeu por cinco segundos.

​— Não me faça repetir.

​A ameaça implícita naquelas quatro palavras foi suficiente para quebrar sua paralisia. Tremendo, ela se desenrolou lentamente e se arrastou alguns centímetros para o centro da cama.

​— Mais — ele ordenou, impaciente.

​Ela obedeceu, movendo-se até que sentiu o calor do corpo dele a centímetros de distância.

​Não foi o suficiente para ele.

​Na escuridão, a mão grande e pesada de Aubrey encontrou a cintura dela. Ele não foi gentil. Com um puxão firme e possessivo, ele a arrastou pelo colchão até que as costas dela colidissem contra o peito largo e nu dele.

​Eloise engasgou com o contato súbito. Ela estava usando apenas a calcinha de algodão; ele parecia estar apenas de cueca boxer. A pele quente dele queimou contra a pele fria das costas dela. Ela podia sentir a definição muscular do abdômen dele contra sua espinha, a dureza de suas coxas contra a parte de trás das pernas dela.

​Ele passou o braço pesado por cima da cintura dela, prendendo-a contra si. A mão dele pousou em sua barriga, logo abaixo dos seios, uma barra de ferro mantendo-a no lugar.

​— Relaxe — ele murmurou contra o cabelo dela. Sua respiração quente bateu na nuca de Eloise, enviando arrepios de pavor por sua pele. — Você parece um pedaço de madeira.

​Ela tentou forçar os músculos a relaxarem, mas era impossível. Cada nervo do seu corpo estava gritando em alerta vermelho. Estar naquela posição, a "conchinha", que deveria ser um gesto de intimidade e proteção, era a forma mais pura de terror que ela já havia experimentado. Era a intimidade forçada de um parasita grudado em seu hospedeiro.

​Aubrey acomodou-se, puxando-a ainda mais para perto, encaixando as curvas dela nas dele.

​— Durma — ele comandou, como se o sono fosse algo que pudesse ser ligado com um interruptor.

​Poucos minutos depois, a respiração dele tornou-se profunda e regular. Ele adormeceu com a facilidade dos justos — ou dos psicopatas.

​Para Eloise, a noite foi uma eternidade de tortura sensorial. Ela não pregou o olho. Ficou deitada na escuridão, hiperconsciente do peso do braço dele sobre ela, do ritmo do coração dele batendo contra suas costas, do cheiro dele invadindo seus pulmões a cada inspiração.

​Ela estava exausta além da conta, sua mente e corpo gritando por descanso, mas o medo de se mover e acordá-lo, o medo do que ele poderia fazer se ela se contorcesse durante um pesadelo, a mantinha em um estado de vigília aterrorizada.

​Enquanto as horas se arrastavam e a lua cruzava o céu lá fora, Eloise percebeu a verdade brutal daquela nova lição: não havia refúgio. Não havia momento em que ela não fosse dele. Ele possuía seus dias, e agora, deitado ali, respirando calmamente enquanto a mantinha prisioneira em seu próprio sono, ele provava que possuía também as suas noites.

​A luz da manhã não trouxe alívio; trouxe uma exposição cruel.

​Quando os primeiros raios de sol cinzento atravessaram a parede de vidro, ferindo os olhos cansados de Eloise, ela percebeu que estava sozinha na cama imensa. O lugar ao seu lado estava frio. O peso sufocante do braço de Aubrey havia desaparecido, mas a memória muscular da contenção ainda fazia sua pele formigar.

​Ela tentou se sentar e um gemido involuntário escapou de seus lábios secos. Seu corpo era um mapa de dores: o pescoço rígido pela tensão de uma noite inteira imóvel, as costas doloridas e uma sensibilidade aguda e humilhante entre as pernas, lembrança da "lição" da noite anterior. Ela não havia dormido um único minuto. Seus olhos estavam arenosos, a cabeça pesada como uma bigorna.

​— De pé.

​A voz veio da direção do closet. Não houve "bom dia". Não houve reconhecimento da noite torturante que haviam passado. Havia apenas o comando.

​Eloise arrastou-se para fora da cama. O ar condicionado do quarto parecia ainda mais gelado em sua pele quase nua; ela ainda usava apenas a calcinha de algodão da noite anterior. Tremendo de frio e exaustão, ela caminhou em direção à voz.

​Aubrey estava no centro do closet cavernoso, terminando de se vestir. Ele já estava com a calça social de um terno azul-marinho impecável e abotoava os punhos de uma camisa branca engomada. Ele parecia revigorado, cheio de energia, o predador pronto para enfrentar o mundo dos negócios. O contraste com a figura trêmula, seminua e destruída de Eloise não poderia ser maior.

​Ele olhou para ela pelo reflexo do espelho de corpo inteiro enquanto ajeitava o colarinho. Seu olhar foi um scanner rápido, verificando se a propriedade estava funcional.

​— Você está atrasada — ele disse, o tom neutro. — O treinamento prático começa às seis. Amanhã, espero que você esteja acordada antes de mim.

​Eloise apenas assentiu, incapaz de formar palavras. Sua garganta estava seca como lixa.

​Aubrey caminhou até uma ilha central onde gavetas com tampo de vidro exibiam fileiras de relógios caros e abotoaduras. Ele selecionou um par de abotoaduras de prata e começou a colocá-las com movimentos precisos.

​— A lição teórica de ontem sobre a sua... natureza responsiva... foi assimilada — ele disse, sem olhá-la. — Hoje começamos a aplicar isso à sua função diária. Você não é apenas uma esposa troféu para eu exibir em jantares. Você é minha serva. E uma serva deve ser útil.

​Ele terminou com as abotoaduras e pegou a gravata de seda que estava separada. Ele se virou para ela, segurando a gravata.

​— Aproxime-se.

​Eloise deu passos hesitantes no piso frio de madeira.

​— Mais perto.

​Ela parou a centímetros dele. O cheiro dele — sabonete caro, loção pós-barba e aquela essência natural e dominadora — invadiu seus sentidos, provocando um reflexo pavloviano de medo em seu estômago.

​Aubrey estendeu a gravata para ela.

​— Dê o nó.

​Eloise olhou para a tira de seda azul em suas mãos trêmulas.

​— Eu... eu não sei como fazer isso — ela sussurrou, a vergonha queimando seu rosto. Na casa de sua mãe, Riche ou os outros empregados cuidavam dessas coisas.

​O silêncio de Aubrey foi gelado.

​— Incompetente — ele murmurou, tomando a gravata de volta com um puxão irritado. — Parece que vamos ter que começar de um nível ainda mais baixo do que eu imaginava.

​Ele deu o nó na gravata com três movimentos rápidos e experientes. Então, caminhou até uma prateleira baixa e pegou um par de sapatos de couro preto, polidos até parecerem espelhos. Ele os colocou no chão, diante de uma poltrona de veludo.

​Ele se sentou na poltrona, apoiando um pé no suporte de madeira à sua frente. Ele olhou para Eloise, que estava parada no meio do closet, abraçando o próprio corpo seminú para tentar se aquecer.

​Ele apontou um dedo longo para o chão, aos seus pés.

​— De joelhos — ele ordenou.

​O coração de Eloise parou. A ordem era clara. Não era sexual, mas era infinitamente mais degradante. Era a postura da submissão total.

​— Aubrey, por favor... eu estou com frio, eu... — ela tentou argumentar, a voz fraca.

​Ele não levantou a voz. Ele apenas inclinou a cabeça, os olhos azuis endurecendo até ficarem da cor do gelo polar.

​— Regra número cinco do treinamento prático: Hesitação é desobediência. E desobediência resulta em correção física. Você quer começar o dia sendo corrigida, Eloise?

​A lembrança do aperto dele em seus braços, da ameaça de ser amarrada, inundou sua mente. O medo venceu o orgulho.

​Lentamente, dolorosamente, Eloise baixou o corpo. Seus joelhos nus bateram contra a madeira fria e dura do chão. A posição a deixava vulnerável, muito menor do que ele, com o rosto na altura dos joelhos dele.

​— Calce-os. E amarre os cadarços.

​Com os dedos tremendo tanto que mal conseguia segurar o couro rígido, Eloise pegou o primeiro sapato. Ela teve que segurar o tornozelo dele para guiá-lo para dentro do calçado. O toque da meia de seda fina dele contra a pele dela parecia errado, uma intimidade forçada e subserviente.

​Ela lutou com os cadarços encerados. Suas mãos suadas escorregavam. Ela podia sentir o olhar dele queimando o topo de sua cabeça. A humilhação era uma bile ácida em sua garganta. Ela, Eloise Montener, reduzida a uma criada seminua, ajoelhada aos pés do homem que a destruíra.

​Quando finalmente conseguiu fazer os dois laços, ela sentiu uma gota de suor frio escorrer pelas costas.

​Aubrey examinou o trabalho dela. Ele moveu os pés ligeiramente.

​— Aceitável — ele julgou, sem entusiasmo.

​Ele se levantou, elevando-se sobre ela como uma torre escura. Eloise permaneceu ajoelhada, sem saber se tinha permissão para se levantar. Ele não lhe deu permissão.

​Ele vestiu o paletó, verificou o celular e pegou sua pasta de couro. Antes de sair do closet, ele parou e olhou para baixo, para ela ainda encolhida no chão. Ele estendeu a mão e deu dois tapinhas leves no topo da cabeça dela, como se elogia um cachorro que finalmente aprendeu um truque simples.

​— Fique aí até eu sair da casa — ele ordenou. — E pense na sua nova realidade. Você serve para o que eu disser que você serve.

​Ele se virou e saiu.

​Eloise ficou ajoelhada no chão frio do closet, ouvindo os passos dele se afastarem, o som do carro partindo, sozinha no silêncio da grande casa, percebendo que a noite de terror havia acabado, mas o dia de servidão estava apenas começando.

​O som do motor do carro de Aubrey desaparecendo na distância não trouxe alívio; trouxe o colapso.

​Assim que o silêncio retomou a casa, a adrenalina do medo que mantinha Eloise de pé evaporou. A realidade de seu corpo quebrado a atingiu com a força de um maremoto. Seus joelhos, já doloridos pelo contato com a madeira dura, cederam completamente. Ela tombou para o lado, encolhendo-se no chão frio do closet, cercada pelo cheiro de couro caro e cedro dos sapatos dele.

​Ela tentou se mover, se levantar, voltar para a cama, mas seus membros não respondiam. O peso de uma noite sem dormir, combinado com o trauma físico e emocional das últimas doze horas, foi demais. Sua mente desligou como um mecanismo de defesa. Ali mesmo, seminua e tremendo, entre os sapatos italianos do homem que a destruía, Eloise apagou.

​Não foi um sono reparador. Foi um buraco negro de inconsciência.

​A próxima coisa que ela sentiu foi dor. Uma pontada aguda e insistente nas costelas.

​Eloise abriu os olhos com dificuldade, a visão embaçada. O closet estava mais claro agora; horas deviam ter se passado. A pontada veio de novo.

​Alguém a estava cutucando com a ponta de um sapato.

​Ela se virou de costas, ofegante, e olhou para cima. Uma mulher estava parada sobre ela.

​Ela era alta e magra, com o cabelo grisalho puxado em um coque tão apertado que parecia puxar a pele do rosto, deixando seus olhos encovados e frios. Vestia um uniforme cinza-chumbo impecável, sem um único amassado. Ela olhava para Eloise não com pena, nem com surpresa, mas com o tipo de desdém que se reserva a um animal que sujou o tapete caro.

​— O Sr. Van Der Mors não tolera indolência — a mulher disse. Sua voz era seca e crepitante, como folhas mortas sendo pisadas. — E ele certamente não apreciaria encontrar sua esposa dormindo no chão do closet como uma criada bêbada.

​Eloise tentou se sentar, puxando o vestido de linho amassado para cobrir as pernas nuas.

​— Eu... eu sinto muito. Eu estava exausta... — ela gaguejou, a garganta seca.

​A mulher nem piscou.

​— Sou a Sra. Valerius. Governanta desta casa. — Ela deu um passo atrás, cessando os cutucões, mas mantendo o olhar de desprezo. — Minha função é garantir que a ordem do Sr. Aubrey seja mantida. E você, sra., está fora de ordem.

​Ela apontou para a porta do closet com um dedo ossudo.

​— Levante-se. Lave o rosto. O almoço será servido em trinta minutos no terraço. Tente parecer menos... destruída. O Sr. Aubrey não gosta de coisas quebradas.

​Sem esperar resposta, a Sra. Valerius girou nos calcanhares e saiu, seus passos silenciosos e eficientes.

​Eloise ficou sozinha novamente, sentindo a humilhação queimar mais forte do que a dor nas costelas. Ela percebeu, com um aperto no peito, que Aubrey não precisava estar presente para vigiá-la. Ele tinha cães de guarda leais, treinados para manter sua prisioneira na linha, sem nunca oferecer um pingo de compaixão humana.

​Com um gemido de dor, ela usou uma prateleira para se apoiar e forçou seu corpo moído a ficar de pé.

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