Mundo ficciónIniciar sesiónA ordem de Aubrey pairava no ar como uma névoa tóxica: Lave-se. E depois vá para a cama.
Eloise moveu-se como um autômato, a conexão entre sua mente e seu corpo fraturada. Ela caminhou até o banheiro, as pernas parecendo feitas de chumbo, e fechou a porta. Não havia tranca, é claro. A privacidade era um luxo que ela não podia mais pagar. Debaixo do chuveiro, ela aumentou a temperatura da água até ficar quase insuportável. A pele ficou vermelha sob o jato escaldante, mas o calor não conseguia penetrar o frio que se instalara em seus ossos. Ela esfregou o corpo com a esponja vegetal com uma violência desesperada, focando especialmente na área entre as coxas, onde a umidade vergonhosa que ele havia provocado ainda parecia queimar. Ela queria arrancar a própria pele. Queria apagar o fato de que seu corpo havia traído seu ódio e respondido ao toque de um monstro. Ela soluçou sem lágrimas, um som seco e oco, enquanto a água escorria pelo ralo, levando o sabão, mas não a mancha invisível de sua humilhação. Quando saiu do banho, secou-se com movimentos bruscos e vestiu novamente a calcinha de algodão simples que ele havia deixado para ela. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz residual da lua que entrava pela janela panorâmica. O banheiro de Aubrey estava em silêncio agora. Ele devia estar em outro cômodo, ou talvez já na cama. Eloise aproximou-se da imensa cama king size. O cheiro de sândalo e amaciante caro subiu dos lençóis de contagem alta de fios. Era um altar de sacrifício disfarçado de conforto. Com o coração batendo na garganta, ela deslizou para debaixo do edredom. Ela foi para a borda extrema do lado esquerdo, o mais longe possível do centro, encolhendo-se em posição fetal, tentando ocupar o mínimo de espaço possível, tentando desaparecer. Ela fechou os olhos, fingindo dormir, rezando para que a exaustão emocional a levasse. A porta do outro lado do quarto se abriu. Eloise parou de respirar. Ela ouviu os passos pesados dele no carpete. O som de tecido sendo descartado. O clique do interruptor de luz principal sendo apagado, mergulhando o quarto na escuridão total. O colchão afundou do outro lado. O peso de Aubrey fez a cama inclinar ligeiramente. O calor do corpo dele irradiou através do espaço vazio entre eles, uma ameaça térmica na frieza do quarto. Por longos minutos, ele não se mexeu. Eloise permaneceu rígida, os músculos travados em um espasmo contínuo de terror, esperando o próximo ataque, a próxima lição humilhante. Então, ele suspirou. Um som de cansaço genuíno, não de teatro. — Eloise — a voz dele na escuridão era grave, rouca de sono iminente. — Chegue mais perto. Ela não se mexeu. O medo a paralisou. Talvez se ela fingisse que já estava dormindo, ele a deixaria em paz. O silêncio se estendeu por cinco segundos. — Não me faça repetir. A ameaça implícita naquelas quatro palavras foi suficiente para quebrar sua paralisia. Tremendo, ela se desenrolou lentamente e se arrastou alguns centímetros para o centro da cama. — Mais — ele ordenou, impaciente. Ela obedeceu, movendo-se até que sentiu o calor do corpo dele a centímetros de distância. Não foi o suficiente para ele. Na escuridão, a mão grande e pesada de Aubrey encontrou a cintura dela. Ele não foi gentil. Com um puxão firme e possessivo, ele a arrastou pelo colchão até que as costas dela colidissem contra o peito largo e nu dele. Eloise engasgou com o contato súbito. Ela estava usando apenas a calcinha de algodão; ele parecia estar apenas de cueca boxer. A pele quente dele queimou contra a pele fria das costas dela. Ela podia sentir a definição muscular do abdômen dele contra sua espinha, a dureza de suas coxas contra a parte de trás das pernas dela. Ele passou o braço pesado por cima da cintura dela, prendendo-a contra si. A mão dele pousou em sua barriga, logo abaixo dos seios, uma barra de ferro mantendo-a no lugar. — Relaxe — ele murmurou contra o cabelo dela. Sua respiração quente bateu na nuca de Eloise, enviando arrepios de pavor por sua pele. — Você parece um pedaço de madeira. Ela tentou forçar os músculos a relaxarem, mas era impossível. Cada nervo do seu corpo estava gritando em alerta vermelho. Estar naquela posição, a "conchinha", que deveria ser um gesto de intimidade e proteção, era a forma mais pura de terror que ela já havia experimentado. Era a intimidade forçada de um parasita grudado em seu hospedeiro. Aubrey acomodou-se, puxando-a ainda mais para perto, encaixando as curvas dela nas dele. — Durma — ele comandou, como se o sono fosse algo que pudesse ser ligado com um interruptor. Poucos minutos depois, a respiração dele tornou-se profunda e regular. Ele adormeceu com a facilidade dos justos — ou dos psicopatas. Para Eloise, a noite foi uma eternidade de tortura sensorial. Ela não pregou o olho. Ficou deitada na escuridão, hiperconsciente do peso do braço dele sobre ela, do ritmo do coração dele batendo contra suas costas, do cheiro dele invadindo seus pulmões a cada inspiração. Ela estava exausta além da conta, sua mente e corpo gritando por descanso, mas o medo de se mover e acordá-lo, o medo do que ele poderia fazer se ela se contorcesse durante um pesadelo, a mantinha em um estado de vigília aterrorizada. Enquanto as horas se arrastavam e a lua cruzava o céu lá fora, Eloise percebeu a verdade brutal daquela nova lição: não havia refúgio. Não havia momento em que ela não fosse dele. Ele possuía seus dias, e agora, deitado ali, respirando calmamente enquanto a mantinha prisioneira em seu próprio sono, ele provava que possuía também as suas noites. A luz da manhã não trouxe alívio; trouxe uma exposição cruel. Quando os primeiros raios de sol cinzento atravessaram a parede de vidro, ferindo os olhos cansados de Eloise, ela percebeu que estava sozinha na cama imensa. O lugar ao seu lado estava frio. O peso sufocante do braço de Aubrey havia desaparecido, mas a memória muscular da contenção ainda fazia sua pele formigar. Ela tentou se sentar e um gemido involuntário escapou de seus lábios secos. Seu corpo era um mapa de dores: o pescoço rígido pela tensão de uma noite inteira imóvel, as costas doloridas e uma sensibilidade aguda e humilhante entre as pernas, lembrança da "lição" da noite anterior. Ela não havia dormido um único minuto. Seus olhos estavam arenosos, a cabeça pesada como uma bigorna. — De pé. A voz veio da direção do closet. Não houve "bom dia". Não houve reconhecimento da noite torturante que haviam passado. Havia apenas o comando. Eloise arrastou-se para fora da cama. O ar condicionado do quarto parecia ainda mais gelado em sua pele quase nua; ela ainda usava apenas a calcinha de algodão da noite anterior. Tremendo de frio e exaustão, ela caminhou em direção à voz. Aubrey estava no centro do closet cavernoso, terminando de se vestir. Ele já estava com a calça social de um terno azul-marinho impecável e abotoava os punhos de uma camisa branca engomada. Ele parecia revigorado, cheio de energia, o predador pronto para enfrentar o mundo dos negócios. O contraste com a figura trêmula, seminua e destruída de Eloise não poderia ser maior. Ele olhou para ela pelo reflexo do espelho de corpo inteiro enquanto ajeitava o colarinho. Seu olhar foi um scanner rápido, verificando se a propriedade estava funcional. — Você está atrasada — ele disse, o tom neutro. — O treinamento prático começa às seis. Amanhã, espero que você esteja acordada antes de mim. Eloise apenas assentiu, incapaz de formar palavras. Sua garganta estava seca como lixa. Aubrey caminhou até uma ilha central onde gavetas com tampo de vidro exibiam fileiras de relógios caros e abotoaduras. Ele selecionou um par de abotoaduras de prata e começou a colocá-las com movimentos precisos. — A lição teórica de ontem sobre a sua... natureza responsiva... foi assimilada — ele disse, sem olhá-la. — Hoje começamos a aplicar isso à sua função diária. Você não é apenas uma esposa troféu para eu exibir em jantares. Você é minha serva. E uma serva deve ser útil. Ele terminou com as abotoaduras e pegou a gravata de seda que estava separada. Ele se virou para ela, segurando a gravata. — Aproxime-se. Eloise deu passos hesitantes no piso frio de madeira. — Mais perto. Ela parou a centímetros dele. O cheiro dele — sabonete caro, loção pós-barba e aquela essência natural e dominadora — invadiu seus sentidos, provocando um reflexo pavloviano de medo em seu estômago. Aubrey estendeu a gravata para ela. — Dê o nó. Eloise olhou para a tira de seda azul em suas mãos trêmulas. — Eu... eu não sei como fazer isso — ela sussurrou, a vergonha queimando seu rosto. Na casa de sua mãe, Riche ou os outros empregados cuidavam dessas coisas. O silêncio de Aubrey foi gelado. — Incompetente — ele murmurou, tomando a gravata de volta com um puxão irritado. — Parece que vamos ter que começar de um nível ainda mais baixo do que eu imaginava. Ele deu o nó na gravata com três movimentos rápidos e experientes. Então, caminhou até uma prateleira baixa e pegou um par de sapatos de couro preto, polidos até parecerem espelhos. Ele os colocou no chão, diante de uma poltrona de veludo. Ele se sentou na poltrona, apoiando um pé no suporte de madeira à sua frente. Ele olhou para Eloise, que estava parada no meio do closet, abraçando o próprio corpo seminú para tentar se aquecer. Ele apontou um dedo longo para o chão, aos seus pés. — De joelhos — ele ordenou. O coração de Eloise parou. A ordem era clara. Não era sexual, mas era infinitamente mais degradante. Era a postura da submissão total. — Aubrey, por favor... eu estou com frio, eu... — ela tentou argumentar, a voz fraca. Ele não levantou a voz. Ele apenas inclinou a cabeça, os olhos azuis endurecendo até ficarem da cor do gelo polar. — Regra número cinco do treinamento prático: Hesitação é desobediência. E desobediência resulta em correção física. Você quer começar o dia sendo corrigida, Eloise? A lembrança do aperto dele em seus braços, da ameaça de ser amarrada, inundou sua mente. O medo venceu o orgulho. Lentamente, dolorosamente, Eloise baixou o corpo. Seus joelhos nus bateram contra a madeira fria e dura do chão. A posição a deixava vulnerável, muito menor do que ele, com o rosto na altura dos joelhos dele. — Calce-os. E amarre os cadarços. Com os dedos tremendo tanto que mal conseguia segurar o couro rígido, Eloise pegou o primeiro sapato. Ela teve que segurar o tornozelo dele para guiá-lo para dentro do calçado. O toque da meia de seda fina dele contra a pele dela parecia errado, uma intimidade forçada e subserviente. Ela lutou com os cadarços encerados. Suas mãos suadas escorregavam. Ela podia sentir o olhar dele queimando o topo de sua cabeça. A humilhação era uma bile ácida em sua garganta. Ela, Eloise Montener, reduzida a uma criada seminua, ajoelhada aos pés do homem que a destruíra. Quando finalmente conseguiu fazer os dois laços, ela sentiu uma gota de suor frio escorrer pelas costas. Aubrey examinou o trabalho dela. Ele moveu os pés ligeiramente. — Aceitável — ele julgou, sem entusiasmo. Ele se levantou, elevando-se sobre ela como uma torre escura. Eloise permaneceu ajoelhada, sem saber se tinha permissão para se levantar. Ele não lhe deu permissão. Ele vestiu o paletó, verificou o celular e pegou sua pasta de couro. Antes de sair do closet, ele parou e olhou para baixo, para ela ainda encolhida no chão. Ele estendeu a mão e deu dois tapinhas leves no topo da cabeça dela, como se elogia um cachorro que finalmente aprendeu um truque simples. — Fique aí até eu sair da casa — ele ordenou. — E pense na sua nova realidade. Você serve para o que eu disser que você serve. Ele se virou e saiu. Eloise ficou ajoelhada no chão frio do closet, ouvindo os passos dele se afastarem, o som do carro partindo, sozinha no silêncio da grande casa, percebendo que a noite de terror havia acabado, mas o dia de servidão estava apenas começando. O som do motor do carro de Aubrey desaparecendo na distância não trouxe alívio; trouxe o colapso. Assim que o silêncio retomou a casa, a adrenalina do medo que mantinha Eloise de pé evaporou. A realidade de seu corpo quebrado a atingiu com a força de um maremoto. Seus joelhos, já doloridos pelo contato com a madeira dura, cederam completamente. Ela tombou para o lado, encolhendo-se no chão frio do closet, cercada pelo cheiro de couro caro e cedro dos sapatos dele. Ela tentou se mover, se levantar, voltar para a cama, mas seus membros não respondiam. O peso de uma noite sem dormir, combinado com o trauma físico e emocional das últimas doze horas, foi demais. Sua mente desligou como um mecanismo de defesa. Ali mesmo, seminua e tremendo, entre os sapatos italianos do homem que a destruía, Eloise apagou. Não foi um sono reparador. Foi um buraco negro de inconsciência. A próxima coisa que ela sentiu foi dor. Uma pontada aguda e insistente nas costelas. Eloise abriu os olhos com dificuldade, a visão embaçada. O closet estava mais claro agora; horas deviam ter se passado. A pontada veio de novo. Alguém a estava cutucando com a ponta de um sapato. Ela se virou de costas, ofegante, e olhou para cima. Uma mulher estava parada sobre ela. Ela era alta e magra, com o cabelo grisalho puxado em um coque tão apertado que parecia puxar a pele do rosto, deixando seus olhos encovados e frios. Vestia um uniforme cinza-chumbo impecável, sem um único amassado. Ela olhava para Eloise não com pena, nem com surpresa, mas com o tipo de desdém que se reserva a um animal que sujou o tapete caro. — O Sr. Van Der Mors não tolera indolência — a mulher disse. Sua voz era seca e crepitante, como folhas mortas sendo pisadas. — E ele certamente não apreciaria encontrar sua esposa dormindo no chão do closet como uma criada bêbada. Eloise tentou se sentar, puxando o vestido de linho amassado para cobrir as pernas nuas. — Eu... eu sinto muito. Eu estava exausta... — ela gaguejou, a garganta seca. A mulher nem piscou. — Sou a Sra. Valerius. Governanta desta casa. — Ela deu um passo atrás, cessando os cutucões, mas mantendo o olhar de desprezo. — Minha função é garantir que a ordem do Sr. Aubrey seja mantida. E você, sra., está fora de ordem. Ela apontou para a porta do closet com um dedo ossudo. — Levante-se. Lave o rosto. O almoço será servido em trinta minutos no terraço. Tente parecer menos... destruída. O Sr. Aubrey não gosta de coisas quebradas. Sem esperar resposta, a Sra. Valerius girou nos calcanhares e saiu, seus passos silenciosos e eficientes. Eloise ficou sozinha novamente, sentindo a humilhação queimar mais forte do que a dor nas costelas. Ela percebeu, com um aperto no peito, que Aubrey não precisava estar presente para vigiá-la. Ele tinha cães de guarda leais, treinados para manter sua prisioneira na linha, sem nunca oferecer um pingo de compaixão humana. Com um gemido de dor, ela usou uma prateleira para se apoiar e forçou seu corpo moído a ficar de pé.






